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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Asas claras

Gosto de histórias e músicas infantis e fico contrariado quando esse termo é usado num sentido pejorativo. Histórias infantis são belíssimas e a relação com a infância gera um pulsar de vida incrível no corpo grande e peludo de um homem feito. É na infância, afinal de contas, que se desfruta do Reino dos Céus.

Uma das mais belas histórias que contei e cantei para meus filhos infinitas vezes quando pequenos, é a extraordinária luta do Jequitibá de Carangola contra um incêndio terrível que o consumiu por 11 dolorosos dias. Era um horror. O fogo crepitando, os bombeiros e escadas e mangueiras numa luta vã contra o incêndio descontrolado engolindo a golfadas o combustível daquela árvore milenar, sem uma gota de misericórdia.

Quando o broto daquele Jequitibá rasgou a terra e viu pela primeira vez o sol, o Império Inca ainda nem havia surgido. Mas fogo é fogo e árvore é árvore. As labaredas impiedosas sugaram tudo que puderam daquele gigante da floresta. Não sobrou uma folha. Os galhos secos e duros pareciam cenário de um castelo assombrado e o tronco antes viçoso tornou-se negro como uma torre de carvão. Isso até o dia em que, "numa manhã de fevereiro, o sol nas bancas de revista iluminou uma notícia". E nesse apreensivo momento entrava um violãozinho e a voz suave do Hélio Ziskind cantarolando: "O jequitibá que ardeu por 11 dias tem folhas novas. Sobreviveu!" E nessa hora meu olhos enchiam de lágrimas, eu cantarolando junto, e meus filhos mal entendendo o tamanho da minha emoção.

Era o CD infantil "O Gigante da Floresta" me apresentando graciosamente a metáfora da redenção, o mistério da vida, a essência do evangelho. "Flores novas vão abrir, sorrisos de Jequitibá, sementes de asas claras vão voar... outras histórias vão começar".




Acompanhe a história toda no CD "O Gigante da Floresta" de Hélio Ziskind.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Capim-estrela

Os Gerais do Rio Preto são margeados no nascente por amplas e imponentes escarpas verticais, torres abruptas de rocha fragmentada, sulcada em linhas horizontais levemente oblíquas, e no poente por colinas suaves, delicadas e sinuosas. Toda amplidão do terreno plano que conduz a água preta do rio está coberta por um tapete verde e macio de capim. No entardecer o sol reflete em pétalas brancas e discretas criando manchas douradas que parecem flutuar sobre o capim conduzidas pelo vento fresco que carrega consigo as sombras suaves do crepúsculo. Com a luz intensa do dia banhando os gerais, é difícil perceber a poesia daquelas pétalas encabuladas. Capim-estrela. O nome já é uma canção. Um poema repleto de metáforas e significados. Capim-estrela.

O entardecer nos Gerais do Rio Preto


A vida no Vale do Paty segue ritos que há muito se perderam. A liturgia do morador do vale em seu cotidiano assemelha-se a contos antigos ou histórias de sertões remotos. No fundo do enorme vale algumas casas simples persistem girando em uma órbita diferente da urbanidade industrial e mecanizada que engoliu o mundo. As portas são baixas, algumas paredes de taipa, as telhas moldadas à mão sobre as coxas, o chão dos quartos é de terra batida, o fogão é à lenha, o banheiro fica do lado de fora, não há energia elétrica nem sinal de celular. Se quiser falar com Dona Maria, precisa caminhar até sua casa e olhar-lhe nos olhos. Dona Léia nos recebe dentro de casa e acompanhamos sua lida em torno do fogão a lenha que prepara o jantar. Sua mãe de 76 anos que mora em Guiné de Cima e nas temporadas mais agitadas sobe à pé os gerais, atravessa o campo e desce ao vale para ajudar a filha, num trecho de mais de 20km, aparece trazendo lenha. Seu irmão chega com notícias da cidade e das trilhas no vale. Há algum problema no Wilson, uma mula se machucou e é só isso que pudemos entender daquela conversa empolgada em família. Há um dialeto local, de sertão e serra, de caboclos e antigos, que nos isola daquele diálogo intenso. Quando querem que saibamos de algo, falam de forma distinta e as palavras e frases passam a fazer sentido.

Na venda da igrejinha, há 1 hora de trilha da casa de Léia, descansa uma geladeira azul bebê embrulhada em plástico bolha. Seu Antônio a trouxe nas costas de Guiné em um dia inteiro de caminhada. Está lacrada "esperando a placa", que é o conjunto de captação de energia solar que fará finalmente a cerveja gelar. É preciso buscá-lo na cidade, mas o kit desmontado vai caber nos cestos e será transportado no lombo das mulas, para alegria da coluna de seu Antônio, penso eu, apesar de ele não reclamar de nada.

Em cima do vale, já no caminho de volta, observo longamente os gerais verdes, cobertos de capim. Capim, o símbolo daquilo que há de mais ordinário, banal, rasteiro, medíocre e comum. Um campo de capim. Então o sol desce até o horizonte e reflete nas discretas pétalas brancas deste capim, banhando os gerais de dourado. Estrela, a metáfora daquilo que é extraordinário, exótico, inusitado, singular e admirável. Capim-estrela. Caminhar nos Gerais do Rio Preto é mover-se sobre o solo santo de um poema vivo.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Remanso

O caminho para a Comunidade Quilombola do Remanso é uma estrada tapetada de borboletas amarelas que revoam como pétalas douradas quando o carro que percorre aquela estrada de chão passa por elas. A sombra graciosa de uma mangueira imensa nos recepciona no pequeno vilarejo onde conhecemos Romário, remador do pantanal baiano que nos conduz à canoa que será nosso transporte pelas águas escuras como sua pele, como a pele de seu povo que vive ali à três gerações, e assume seu remo na popa. Cada remada de Romário equivale a cinco minhas, pelo menos. Incansável, remando como um touro, suando sob o sol forte do interior da Bahia, nos leva pelo labirinto de rio e plantas, deslizando o barco suavemente por duas horas entre a vegetação densa e exuberante do rio até o início da trilha ao Roncador, onde amarramos nosso barco.

Início da trilha até as cachoeiras do Roncador.


Na trilha encharcada, nuvens de muriçocas nos cobrem a pele fina enquanto caminhamos descalços no mato fechado com água até os joelhos. A parte alta da cachoeira é belíssima, mas o caminho que conduz à parte baixa é que guarda a visão mais vertiginosa. O mato da trilha é um túnel verde escuro que desemboca no branco brilhante dos areais do pantanal. Os mosquitos são respeitosos e reverentes e não incomodam ninguém que se afaste do mato e deleite-se nas águas tranquilas do rio, seus remansos e cachoeiras. Caminhar naquele areal é como estar em uma praia deserta e edênica de água doce e negra. À sua frente, porém, não há a linha reta do horizonte azul juntando céu e mar, mas uma cachoeira tão bela quanto violenta, que se lança rosnando e arfando pela rampa de rochas amarelas, fragmentadas e pontiagudas, e derrama com força correntes brancas e ocres de água formando brumas leves que dançam suavemente, carregadas pela correnteza do rio. Atrás, a exuberância dos muitos tons de verde da floresta intocada e acima o azul turquesa do céu.



Atravessamos o rio à nado e subimos, margeando a corrente negra, amarela e branca do Roncador até o alto de um mirante de onde contemplamos estarrecidos a imensidão atordoante daquele lugar. Meus filhos brincam e conversam mais abaixo. Ao meu lado está Romário, negro forte e quieto, discreto e arredio. Estamos sentados no chão, recostados no bloco de rocha que deita sobre nós uma sombra refrescante, ambos com os braços apoiados nos joelhos altos e mãos cruzadas à frente. Ele olha com atenção, mais uma vez, a mesma paisagem que conhece desde a infância e que eu via, admirado, pela primeira vez, e uma brisa suave sopra em nossos rostos perplexos.

- Deus é muntchu maravilhoso - balbucia Romário, sem tirar os olhos do rio e do mato, e faz uma pausa longa de silêncio respeitoso antes de suspirar fundo, fechando os olhos em reverência, e prosseguir - fez isso tudo pra nós.

É verdade, Romário, meu irmão. É verdade.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Santa Quitéria


Era um fim de tarde rubro. Com quatorze anos cheios, frequentava a sétima série da Escolinha Tia Paula. A camisa do uniforme da rapaziada do ginásio ostentava o nome do grêmio estudantil Victor Ferreira do Amaral, para evitar o vexame de trazer no peito adolescente o nome verdadeiro daquele colégio. Estudei lá desde o maternal e as professoras mais antigas me chamavam pelo apelido de família que hoje já virou nome.

A dona Selva não era mais a diretora e o elegante badalar do sino, acionado manualmente por uma corrente do lado de fora da torre da capela, havia sido definitivamente substituído por um ruído eletrônico vulgar.

Eu acabara de me desfazer da velha Monareta, da qual havia sacado os para-lamas e serrado o bagageiro, na tentativa de lhe dar um ar ousado de bicicross. Com ela eu havia quebrado meu pulso numa rampa da pista de terra atrás do riozinho, quando ainda fazia fisioterapia para dar mobilidade ao braço esquerdo, enrijecido pela fratura do cotovelo num jogo de futebol de rua. Agora, sem ela, teria que voltar para casa de ônibus.

O Marcelo, aluno novo, grande e forte, havia me jurado de morte por algum motivo banal que já não me recordo, e ir embora sozinho, quando soava aquele ruído eletrônico vulgar, era uma insanidade necessária e terrível. Meu irmão mais velho (e em situações como essa, um irmão mais velho assume a forma de um prodigioso herói) já migrara para o segundo grau no CEFET e o caminho da segurança do portão da Escolinha Tia Paula até o longínquo ponto de ônibus era floresta escura, deserto inclemente, assombrado, coberto com o manto terrível do silêncio.

Iniciei o percurso agarrado à minha mochila como se guardasse ali alguma arma secreta, como se abrindo o zíper pudesse mergulhar para dentro dela como o gato Félix e ressurgir à salvo no meu quarto, sentindo cheiro de pãozinho quente com manteiga. Mas era uma mochila comum abrigando livros, e o Marcelo poderia estar atrás de qualquer arbusto, de qualquer muro, de qualquer árvore, de qualquer carro estacionado. Ou pior, o miserável poderia estar no ponto de ônibus e eu jamais conseguiria entrar na segurança do Santa Quitéria a caminho de casa.

Passei por todos os arbustos, carros e muros e cheguei ao ponto de ônibus. Sentei no meio-fio aguardando a chegada da carruagem amarela que me salvaria daquela angústia e só então observei a barra escarlate que manchava o horizonte e fazia da cidade um perfil negro e plano de telhados e copas de árvores. Os pardais festejavam o fim do dia numa algazarra desgovernada e a grilarada começava a entoar os hinos secretos subliminares em seu vertiginoso roçar de pernas, enquanto uma formiga carregava silenciosa e obstinada uma graveto enorme, escalando incansavelmente a barra da calça do meu uniforme. Um vento fresco secava o suor da minha apreensão e sussurrava as cantigas de um cassete do grupo Elo e, de fato, naquele instante, me sentia tão calmo, sereno e tranquilo que quase não percebi a chegada do ônibus. Só me dei conta quando ouvi uma voz conhecida: "levanta magrelo! O ônibus chegou". Era o Marcelo que, descobri naquele dia, morava na Santa Quitéria.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Vento sul


Quando trabalhava como office boy numa imobiliára na Carlos de Carvalho, entre um e outro banco parava para ouvir o Viento Sur no calçadão da Boca Maldita. Ouvia até chegar à clássica Guantanamera, quando um dos integrantes do grupo começava a passar o chapéu sem parar de cantar. Comprei todos os seus cassetes e escutei até gastar. Ouvir aquele coro de 5 vozes cantando El Condor Pasa na correria da rua XV era como ser transportado para algum ponto distante da América Andina e lá desfrutar do vento gelado que desce do alto da cordilheira.

E agora, quase 20 anos depois, os encontro por acaso nesse mundo virtual e, inevitavelmente, lembro de tudo como ontem. Lembro das jarras de suco que tomei nos dias quentes, no boteco ao lado do Cine Plaza. Das vezes que fugi correndo da piazada de rua, pela Jesuino Marcondes ou pela Comendador Araújo, com os bolsos cheio da grana que fui trocar para o Osni naquele doleiro do edifício Asa. Do Fliperama que tinha em frente ao Bradesco e das fichas que encontrei no chão. Do cobrador do Detran-Vicente Machado, que me viu esquecer um envelope da imobiliária cheio de dinheiro e o guardou para mim, e da bronca que levei quando, no dia seguinte (porque eu pegava aquele ônibus todos os dias), ele me devolveu o envelope. E da alegria que me deu. Dos maços de cigarros que comprava para Sônia na banca da Praça da Espanha. Dos picolés que ela algumas vezes me pagou em gratidão. Do corpo mole do Mola, o outro office boy que enrolava enquanto eu trabalhava. Do Eduardo, meu professor de física na sétima e oitava séries, que encontrei hippie vendendo artesanato na praça Zacarias.

Mas de todas as lembranças dessa rotina do meu primeiro emprego, nenhuma se compara ao som suave e latino do Viento Sur soprando para longe o barulhento frenesi do centro urbano e comercial da capital paranaense, sussurrando para mim, sem que me desse conta, que há um outro caminho. É possível que tenha sido deles o som original que é hoje o eco dentro de mim, sussurrando sempre a mesma coisa.

No teatro da UFPR, quando eu já havia deixado o planalto araucano.



Em 1993, quando eu ainda caminhava todos os dias pelo centro de Curitiba.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Andarilho do cerrado

Um andarilho vinha roçando o pé nas pedrinhas brancas e cristais dos caminhos do cerrado.

Embevecido pelas muitas águas e os desenhos impossíveis que elas traçam carinhosamente em rochas duras, vencidas por suave e paciente insistência. Iluminado pelo sol que se deixa, humilde, encobir por densas nuvens ligeiras, que derramam angústias sobre os ombros calejados do homem e sua mochila carregada tão somente do necessário.

E seguia o andador renovado pelo vento que sopra livre, penteia a mata, bagunça cabelos e dança com galhos torcidos e negros de pequis, ingás e bacuparis.

Clareado de lua cheia, salpicado de estrelas, encardido de chão.

Caminhava pela chapada, pelo planalto, pelo sertão, braços dados com seus amores, entre banhos de sol, rios e chuvas, entre risos e abraços, cachoeiras e remansos. E ao seu redor, e por sobre, e por dentro, pulsava a presença indisfarçável do criador e sua graça extravagante, revelada nas visagens, cheiros e sabores do cerrado.

E via o andarilho que tudo isso era muito bom.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Bate-papo com Stelinha Egg e Gaya

Trechos de entrevista concedida pela cantora Stellinha Egg e o marido maestro Gaya ao jornalista Aramis Millarch.

A família, a infância em Curitiba, a iniciação musical, São Paulo, Rio de Janeiro, o maestro Gaya, a turnê na Europa, os filmes (desaparecidos) da cantora no exterior e uma série de 'causos' dos tempos de ouro do rádio e o início da TV.




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Links para a íntegra da entrevista de Stellinha Egg para o jornalista Aramis Millarch.
1. Stelinha e Gaya - 2h50m (a partir de 1h30, depoimento de Gaya, incluindo histórias de Guerra Peixe, Radamés Gnattali, música dodecafônica, a bossa nova, seus trabalhos com harmonia, arranjos, orquestrações e muito mais).
2. Stelinha Egg - mais de 2h de um papo delicioso


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Muito mais sobre Stellinha Egg aqui.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A casa caiu

Ela já tinha 20 anos quando eu nasci. Arquitetura modernista, com vários níveis, rampas e um imenso vão livre na sala de jantar. E vaga para um carro só, que ninguém imaginava um dia haver tanto carro no mundo, muito menos uma mesma família ter mais que um.

Atrás do casarão um quintal, atrás do quintal a casinha da Ica e da Aci, depois da casinha o barracão e depois do barracão a casinha que foi de todos, onde nasceram meus irmãos e eu, e alguns primos e onde morou meu pai, minha tia, meu tio, minha irmã quando casou, eu quando casei; e o Haro, e o Tiola e sei lá mais quem.

Ali eu cresci. Ali passei meus sábados. Ali dormi nas noites de quinta-feira e comi pastel e macarrão e frango assado e nhoque. Ali eu fui bombeiro e dono de posto de gasolina, abastecendo bicicletas e o tratorzinho com a mangueira do jardim. Ali eu convivi intensamente com meus avós e minhas tias avós solteironas. Joguei xadrês, xadrês chinês (que chamávamos de algo parecido com xincainxek - e eu não faço idéia como se escreve) , três reis, Sete Belo, apostando balas, e ganhei e perdi. Ali devo ter passado uns 30 natais - e como eram ótimos os natais - e um número enrome de aniversários. Joguei bastquete, vôlei, tênis, e fui campeão olímpico de todas as modalidades, e inventei jogos idiotas como o famigerado "isoporobol". E brinquei de esconde-esconde, de alerta, de boca-de-leão.

Ali nasceram meus filhos e alguns sobrinhos. Ali meus avós e minhas tias morreram. Ali meus filhos encontravam os primos e eu encontrava meus pais e irmãos, e tudo acontecia de novo como há 50 anos.

Mas não mais. Não por muito tempo. Agora a casa se vai, como se foi o seu Arthur, que a construiu. Desmorona o último ícone, rompe o dique, derramam-se as lembranças e inundam minha alma, e escorrem pelos olhos, e são boas e lindas e doces e azuis.

Caiu a casa. Se foi. Um novo ciclo começa. Onde é que vou passar o próximo Natal?




Veja também:
Catedral

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Inquisição de Stellinha

A inquisição Presbiteriana da minha tia famosa, "suspensa da comunhão por cantar numa festa profana."



Extraído da longa entrevista concedida ao jornalista Aramis Millarch, disponível na íntegra aqui.

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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A cidade chorou

Consegui uma vaga na Santos Andrade, a uma quadra do Guairinha. Achei que era chuva que caía do céu negro de Curitiba assim que descemos do carro. Não era. Era a cidade chorando saudade. E não era pra menos chorar. A voz da Stelinha, em entrevista gravada pelo jornalista Aramis Millarch em 5 de abril de 1990, era a voz da saudade, a voz da infância, a voz de uma geração que passou. Com as palavras vinham imagens mil, e todas alegres, coloridas, intensas. E ficou tudo molhado, embaçado. As vozes, os instrumentos, as crianças, as canções, as modinhas, o cenário, as interpretações, tudo debaixo dágua que rolava dos olhos e lambuzava a camisa. A cidade não chorou sozinha.




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Registro aqui meu agradecimento especial a Etel Frota e a toda equipe que armou aquilo tudo que foi como flecha ligeira, certeira, inflamada no coração da família e de todos que conheceram Stelinha.

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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A grande cantora do Paraná

A maior cantora paranaense de todos os tempos, Stelinha Egg (1914/1991), vai receber uma homenagem à altura de seu talento no próximo dia 24 de novembro, às 20h30, no Guairinha (R. XV de Novembro, s/nº).

O Museu da Imagem e do Som está promovendo o show "Eu, Stelinha", um tributo musical que vai relembrar o repertório da cantora em grande estilo.O MIS guarda em seu acervo um material precioso da cantora, que inclui fotografias, peças de artesanato que Stelinha colecionava nas viagens pelo Brasil e os vestidos que ela usava nos shows, além de medalhas e partituras.

O espetáculo com concepção da Diretora do MIS, Stefanie Freiberger,  direção geral do jornalista Rodrigo Browne, roteiro de Etel Frota, produção de Regina Graton , direção musical de Sérgio Justen,e direção cênica de Aldice Lopes vai relembrar as canções imortalizadas na voz de Stelinha Egg, agora sob interpretação do primeiro time de cantoras paranaenses: Edith de Camargo, Helena Bel, Lais Mann, Margareth Makiolke, Rogéria Holtz e Selma Baptista.

No programa canções de Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga, Catulo da Paixão Cearense, Chico Buarque, entre outros. A entrada é franca.

Web

Eu, Stelinha

Show musical em homenagem à cantora Stelinha Egg nas vozes de:
Edith de Camargo | Helena Bel | Lais Mann
Margareth Makiolke | Rogéria Holtz | Selma Baptista

local: GUAIRINHA - Rua XV de Novembro, s/n
data: 24 de novembro de 2010 (quarta-feira)
horário: 20h30

ENTRADA FRANCA

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segunda-feira, 29 de março de 2010

Capucho de algodão

Nos dias de hoje, é proibido envelhecer. E é para isso que estão aí os cosméticos, as plásticas, as academias, as vitaminas, os hormônios, os botox, as lipos, as tinturas, a moda. Não, não. Essas coisas estão aí para gerar renda, lucro, grana, bufunfa. Mas a motivação dos clientes é, a todo custo (e às vezes paga-se muito caro), evitar a velhice. Se não for possível evitar o mal, pelo menos a aparência do mal deve ser extirpada. Uma boa aparência (leia-se, uma aparência jovial) já é mais do que suficiente para a sociedade de fachada em que vivemos.

Cresci em contato íntimo, carinhoso, profundo e amoroso com gente velha de verdade. Já falei de todos eles aqui no blog. Velhinhos simpáticos de cabelo inda mais branco que o capucho do algodão'. Talvez seja a influência desses velhinhos que parecem ter saído de livros infantis que me tenha feito amar os cabelos brancos. Tenho a sensação sincera de serem eles uma coroa que o tempo dá aos nobres para provar-lhes a bravura diante de todos. Ostentá-los deveria ser motivo de honra. Fazem par perfeito com as rugas, sulcos de história, trincheiras de sentimentos, marcas de alegria e dor que o tempo imprime na face como o manto vermelho que cobre o corpo do rei.

Faz um ano que fios brancos começaram a me aparecer sorrateiramente nas têmporas e no cavanhaque. Fios de prata sinalizando discretamente que o menino é um homem. Chegará o dia que me cobrirão a cabeça por inteiro, mostrando ao mundo que o homem é um rei. Nesse dia, a sabedoria divina há me me fazer esquecido, incontinente e fraco, para que eu jamais saiba quem me tornei, até ouvir meu novo nome diretamente da boca do Pai.


'inda mais branco que o capucho do algodão'
Frase usada por Elomar Figueira na belíssima canção 'Cantiga do Estradar'


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O velhinhos dA Trilha:
Arthur | Aladia | Ica | Aci
Nativos da Ilha de Santa Catarina
Arthur em vídeo/depoimento sobre Stelinha Egg

quinta-feira, 11 de março de 2010

Mar grande

Já fazia tempo que não entrava em um mar tão grande. Não que eu seja homem do mar, como Florentino da Mata, apesar do nome, mas o tamanho e a força das ondas em sequências infinitas me fizeram gosto e arrancaram de mim, além da respiração ofegante, lembranças doces, apesar do mar.

Das férias com os primos gaúchos, aliás, poderia escrever um livro digno de Tom Sawyer. Orgulho-me de pegar ondas sem prancha, no peito, no pêlo. Foi assim desde guri. Varávamos a arrebentação à nado, melhor se fosse em dia de ressaca, com a água puxando a gente mar adentro, como olhos de Capitu, vento forte, mar crespo, repuxo bruto e transversal. Entrávamos na linha da casa cinza para depois de duas ondas já perdermos a bendita de vista. Era raro o pé encontrar o chão. Boiávamos, nadávamos, arrastados pela água, à espera das grandes que nos roubariam o fôlego por quase uma eternidade. Avistada a escolhida, começava a busca calculada pelo ponto certo, pelo momento extado, quando pernas e braços sincronizavam movimentos obstinados e precisos até o corpo esguio e ereto deslizar oblíquo na parede de água. Os braços, então, fixavam-se firmes para trás, colados ao corpo, o peito inflava e a cabeça lançava-se para cima, olhos semicerrados protegendo-se dos respingos e o nariz como seta apontando a areia, até que, já no raso, a vaga abandonasse o corpo. Então tornávamos às ondas, eufóricos, ofegantes e incansáveis, durante toda tarde, até escurecer. Não sei onde meus pais estávam com a cabeça.

Saíamos da água ao poente, rosto ardido de sol e sal, caminhando pela areia como Netunos, torcendo pela próxima ressaca e pelo vento sul, que nos traria novamente as grandes.


Para Paulo e Ique, em memória a tudo que
passamos juntos no tempo em que éramos heróis.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Estalo

De tudo que já vivi na pele, ao vivo, em carne e osso, nada foi tão inesperadamente assombroso e fascinante. Aconteceu em uma fração de segundo, no quintal de casa, e talvez nunca tenha chegado tão perto de uma fatalidade em toda minha vida, apesar de evidências contrárias.

Foi ontem mesmo, num fim de tarde como qualquer outro no janeiro pacato e encalorado de Blumenau. O céu estava confuso, sem saber se ria ou chorava. Quando a chuva começou a cair, veio intensa como sempre vem numa típica tarde de verão blumenauense. O calorão agonizante do dia implorava por um banho de chuva. No horizonte, o sol brilhava zombando das nuvens negras e tingindo a cidade de um ocre impossível, um amarelo fosco, como a lembrança do narrador de um conto de fadas ou as páginas amareladas de um livro velho.

As crianças já estavam prontas, correndo para o jardim, e eu logo atrás. Abriram a porta da cozinha, deram os primeiros dois ou três passos eufóricos na garagem, eu na porta, e fomos parados num estalo pelo ribombar ensurdecedor de uma explosão azul cinco metros à frente, no mesmo confuso instante em que um grito partiu da cozinha, seguido de gemidos assustados. Levou alguns segundos até percebermos que um raio havia caido em nosso jardim, a poucos metros de meus filhos, e ainda atingido minha esposa na cozinha com assustadora, doída mas inofensiva descarga elétrica.

Passado o susto, a zombaria do sol banhando a chuva enfeitiçou-nos de novo e fomos pra água.




Veja também:
O raio que o parta

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Como o Gaya fazia um arranjo

Por andreegg, sempre dando Um drible nas certezas.

Quem me contou essa história foi o Lydio Roberto.

Aconteceu pelos idos de 1983 quando Gaya, o “maestro da MPB”, já estava morando em Curitiba - onde terminaria seus dias às voltas com a parentada de sua esposa Stelinha Egg. O maestro trabalhava no estúdio SIR, acho que o principal centro de produção pulbicitária da região na época.

O Lydio era um jovem músico trabalhando no estúdio, e ganhou a oportunidade de compor um jingle. Já tinham outro na manga para o caso de o dele não ficar bom. Compôs um samba, mostrou para algumas pessoas do estúdio, que gostaram.

- Falta mostrar para o Gaya.

- O maestro?

- Sim.

Segue o Lydio para mostrar a música. Canta o samba e toca ao violão. Terminando a música, Gaya puxa assunto sobre futebol. Lydio atleticano, Gaya fluminense. O Fluminense tinha Washington e Assis, fabulosa dupla de ataque que também já tinha feito sucesso no Atlético, quando o time chegou pela primeira vez a uma semifinal de brasileirão.

Enquanto conversavam, Gaya fumava muito, e rabiscava uns papéis.

Lydio esperando quando o maestro iria para o piano, para experimentar a música. Ou quando iria, talvez, conferir a harmonia, para ver se era isso mesmo.

Que nada. Depois de meia hora de conversa sobre futebol, Gaya diz: “vamos trabalhar?”

Chamaram os músicos (trompete, trombone, sax, contrabaixo - o próprio Gaya fazia o piano). Aqueles papéis rabiscados no meio das conversas futebolísticas eram o arranjo pronto. Até a hora do almoço o jingle já estava gravado - para surpresa do jovem compositor.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Imutável

Há 18 anos pisei pela primeira vez o solo santo do morro do diabo*. Lá vivi intensamente alegrias, tristezas, amizades, pavores, cansaço, fome, frio, calor, solidão profunda, epifanias enebriantes, histórias engraçadas e trágicas. É impossível contabilizar quantas vezes subi essa montanha. Depois que deixei Curitiba, a primeira via de escalada que abri em Blumenau foi batizada de Baitaca, em homenagem à serra que abraça carinhosamente o monte que aninhou-se macio em minhas lembranças.

Foi lá que criei coragem e venci o gigante da timidez e do estilo brucutu para iniciar meu primeiro (e único) namoro.

Foi lá que vi o colega caído, o sangue no chão, a vida esvaindo pelo corte profundo na cabeça.

Foi lá que meu irmão deixou definitivamente de ser o tutor do mais novo e tornou-se para sempre, de maneira irreparável e irrevogável, o melhor e mais querido amigo.

Foi lá que o sol se pôs de maneira mais caprichosa, beijando delicadamente a linha do horizonte, numa tarde perdida no passado mas marcada eternamente na retina.

Foi lá que as nuvens formaram as mais belas mantas de algodão cobrindo todo planalto araucano de prata umedecida pelo banho da lua cheia.

Foi lá que amizades se entrelaçaram entre risos, conversas e lágrimas, ao ponto de não mais se desfazerem mesmo distantes.

Foi lá que levei meus filhos ano passado. E passei um dia mágico de nostalgia, com a linha obstinada do tempo vacilando sinuosa, na companhia de amigos queridos, do irmão parceiro, dos sobrinhos e da única namorada. Comemos sanduiches e lembramos histórias nos pés da mesma imutável e impassível pedra que me viu menino e homem, e me verá, um dia, partir para não voltar mais.



*Em tupi, Anhangava.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Pânico

Perseguição implacável no sítio do tio Kurt, em Pomerode.




Não perca as outras aventuras das mesmas personagens:
- Momento
- Magnífica Expedição ao Quintal de Casa
- Criaturas da Noite

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Pobreza F. C.

Uma das várias formações que o time teve:
? | Luis | Juninho | Tato | Salomão | Zeca | ?
? | Fernando | ? | ? | Patrício


Outra formação: De pé o primeiro (esquerda) é o Luis, o terceiro é o Beto.
O primeiro agachado da esquerda é grande centro-avante Tato.


As manhãs de sábado eram mágicas. No meio do bosque, os raios do sol rompiam o nevoeiro da manhã entre as copas mais altas dos eucaliptos. Atrás da mata, uma pequena colina conduzia a um córrego que saltávamos afoitos correndo na direção da cerca. Do lado de lá, a água brotava do solo gelada e límpida formando pequenos filetes de rios que serpenteavam entre o capim rumando incertos aos trilhos de trem. O local era todo nosso. Éramos piratas, exploradores, caubóis correndo atrás de cargueiros, tarzans balançando ousadamente nos caules ainda finos das árvores mais jovens. E tinha a bola. E tinha o campo. E os primos. E os filhos do Fernando Barros.

Na beira do campo ficava meu avô. O centroavante era meu pai, o Tato. Tio Zeca no meio-campo. Patrício, Fernando, Marcos, Luis, e mais uns tantos completavam o elenco. Venciam 8 de 10 partidas. O saldo de gols a favor era astronômico. Jogavam juntos desde muito antes de eu nascer. Formavam aquilo de mais prodigioso que a raça humana pôde vivenciar nas intrincadas relações sociais que desenvolveu desde que passou a andar sobre duas patas - um grupo de amigos.

Havia, nas manhãs de sábado, algo de religioso, de litúrgico. Até mesmo nas brigas e discussões. Era o homem na sua expressão menos mascarada, menos formal, mais natural, mais transparente e, portanto, mais santa. Não na altivez de sua prepotência, que é na verdade uma forma de mascarar sua fragilidade, mas na intensidade dos seus relacionamentos. Xingamentos, abraços, sorrisos e palavrões. Tudo encerrado com um grande encontro no bar, regado a ovo cozido e Caracu.

Eram homens. Eram gigantes. Eram senhores das manhãs de sábado.

No final do jogo, corríamos em direção ao gol chutando a bola avidamente, aproveitando os últimos instantes entre o fim do jogo e a saída para a Sede. Estávamos no lugar dos mestres. No campo deles. Nas traves onde meu pai fazia tantos gols. Éramos heróis também. Também gigantes nas manhãs de sábado.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

De uns tempos pra cá

Engraçado que nos últimos 12 anos acumulei um monte de coisas. Tenho carro, tenho moto e um casarão. Precisa ver o tamanho da minha casa. Chega a me dar vergonha. Um embrulho no estômago. E nem trabalhei tanto assim. Tenho uma grande ambição - gotaria de ter menos. E coisas com menos qualidade. Mas me falta coragem para tanto.

Deus me livre de amar o que acumulei.

Mas houve algo que surgiu em mim e de mim que não foi acúmulo. Algo que cresceu e cresce sem no entanto corromper. Ao contrário, algo que, crescendo, faz perceber a futilidade do acúmulo. E cresce sem crescer.

Doze anos atrás eu era um. Então tornei-me dois. Depois três. E quatro. Não cresci, mas diluí. E me vi menor em cada um. Vi quem sou e não me iludi com o que acumulei. Entendi que juntei somente alimento para traça, mas que me diluí em vida. Entendi que é dando que se recebe. O que cedi, recebi e nem posso imaginar o que ainda receberei. O que retive me corrói.

"De uns tempos pra cá
os móveis, a geladeira
o fogão, a enceradeira
a pia, o rodo, a pá
coisas que eu quis comprar
deu vontade de vender
e ficar só com você
isso de uns tempos pra cá"

Pra quem esteve comigo nos últimos 12 anos.
Com todo amor que cabe em mim.



De Uns Tempos Pra Cá
Chico César

De uns tempos pra cá
os móveis, a geladeira
o fogão, a enceradeira
a pia, o rodo, a pá
coisas que eu quis comprar
deu vontade de vender
e ficar só com você
isso de uns tempos pra cá

De uns tempos pra cá
o carro, a casa, o som
tv, vídeo, livros, bom...
o que em tese faz um lar
admito eu quis comprar
começo a me arrepender
pra ficar só com você
isso de uns tempos pra cá

Coisas são só coisas
servem só pra tropeçar
têm seu brilho no começo
mas se viro pelo avesso
são fardo pra carregar

De uns tempos pra cá
o pufe, a escrivaninha
sabe a mesa da cozinha?
lençóis, louça e o sofá
não precisa se alterar
pensei em me desfazer
pra ficar só com você
isso de uns tempos pra cá

De uns tempos pra cá
telefone, bicicleta
minhas saídas mais secretas
tô pensando em deixar
dê no que tiver que dar
seu amor me basta ter
pra ficar só com você
isso de uns tempos pra cá

Coisas são só coisas
servem só pra tropeçar
têm seu brilho no começo
mas se viro pelo avesso
são fardo pra carregar

segunda-feira, 9 de março de 2009

Misterioso fundão

Sentado na areia observo meus filhos brincando. A praia, para eles, é lugar de mistério, fantasias espetaculares e emoções intensas. Pulando sobre ondas eles enfrentam monstros, gigantes e dragões. Cruzam oceanos sobre suas pequenas pranchas, vencendo piratas e lutando com tubarões. Castelos de areia são fortalezas intransponíveis. Muralhas erguem-se sobre eles e legiões de soldados atacam impiedosamente seus domínios como ondas. E, se as paredes são destruídas, eles mesmos se lançam sobre os vagalhões com coragem, distribuindo golpes, saltos, gritos e poses. E saem vitoriosos. Vivi cada uma dessas aventuras um dia. E sei que nada no infinito horizonte de qualquer que seja o litoral se compara à ousadia insana de desvendar, nos braços do pai, os insondáveis mistérios do "fundão".

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Lembro-me de transpor ondas gigantescas sob o impacto violento da água. Da assustadora espuma branca, da força da corrente, do repucho traiçoeiro. A inóspita e apavorante arrebentação poderia ceifar a vida de Titãs. Por isso eu sabia que, mais do que tudo, teria que agarrar-me com todas as forças ao corpo daquele jovem herói. Ele vencia as ondas por mim. Dominava-as, feria suas cristas com o corpo esguio, sem recuar. Convicto, poderoso como Hércules, me agarrava e comprimia forte e carinhosamente em seu peito. De repente, a calmaria. Mar escuro, horizonte eterno, brisa. Ele podia agora me soltar, me jogar para cima, me ver nadando de volta. Eu estava, com ele, onde nenhuma outra criança poderia estar. Nos braços de meu pai eu havia vencido o mais impiedoso inimigo e encontrava-me agora no enigmático "fundão".

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Quando meus filhos saem das ondas correndo em minha direção, olhos fixos em mim, expectativa estampada no rosto, sei o que me espera. Conheço todas as suas emoções e sei que eles nada sabem sobre as minhas. Nem desconfiam que as gotas salgadas que escorrem dos meus olhos enquanto corto as ondas, com eles em meus braços, na direção mística do "fundão", não são água do mar.



Para meu pai
por ter me levado tantaz vezes pra lá da arrebentação.