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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O rio e o vale

Por incrível que pareça
Há beleza até no rio que enche
Que sobe descontrolado
Invade as calhas urbanas
Entra nas casas pelos vãos das portas
Empapa carpetes
Destrói pisos e móveis
Carrega junto consigo roupas e eletrodomésticos
Até que num fim de tarde de sexta
Majestosamente esparramado por toda cidade
Reflete, senhor do vale, o dourado o sol
Que surge só pra mostrar a imensidão do rio
E este anuncia solene:

Sou rio e tu és vale
Tu determinas meu caminho
Tua função é me reter
Conduzir-me até o mar
A minha é forçar passagem


E a voz ecoa nos morros pela eternidade
Como espírito vagando sobre a face das águas



Para o povo do Vale do Itajaí
Reverentemente

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Um ano depois

Enquanto a chuva despenca insistente sobre o teto de zinco, Dinho não consegue pregar os olhos. O som da água é como uma metralhada no paredão. Acuado, encolhido num canto da cama, tem medo de fechar os olhos e ser de novo violentado com a imagem do barranco, da madeira destroçada, dos cacos de vidro, dos clarões, da correria, dos gritos. Os olhos permanecem fixos nos brinquedos no canto do quarto. Temendo perdê-los de novo, traz, silenciosamente, todos para a cama. Deita no meio de ursos, bonecos e carrinhos. Sente falta do choro da irmã e chora baixinho por ela. Entre os brinquedos novos, que alguém de longe mandou de presente em um caminhão, está a boneca retirada dos escombros e que ele insistiu em guardar.

No meio da metralhada cruel ainda ouve o som abafado do rádio e a discussão dos pais que ficam sempre muito brabos em dia de chuva.

Fecha os olhos espremendo-os bem para pedir, com todas as suas forças, que Deus pare com esse aguaceiro, mas não consegue mantê-los fechados até o fim da oração - e a água não pára.

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Esse mês faz um ano que o céu e os montes desabaram sobre Blumenau. Há quem já tenha esquecido. Há quem jamais irá esquecer.

Ainda hoje mais de 350 famílias* estão alojadas em galpões alugados pela prefeitura, acomodando-se como podem em módulos de 25 a 37m2, entre divisórias de madeira e banheiros coletivos. Além disso, um número considerável está ainda vivendo de favor em casas de amigos e parentes. E um terceiro grupo está vivendo em casas alugadas com o 'auxílio moradia' que deve ter sua última parcela entregue às familias cadastradas agora em dezembro. Daí pra frente ninguém sabe o que será.


*alguns locais falam em 2,5 mil pessoas nos abrigos. Mas é difícil conseguir os números oficiais. A prefeitura luta com todas as forças para manter escondida sua incompetência e deixou isso mais do que claro no cancelamento do desfile de encerramento da Oktoberfest, com a nefasta intenção de abafar um protesto.


Veja também:
O monstro
Em todos os cantos

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A nova tragédia de Santa Catarina

Texto escrito por Marina Silva dia 30 de março. No dia seguinte a proposta do novo código foi aprovado pelos deputados catarinenses. Agora ainda terá que passar pelas mão do governador.

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NO FINAL de 2008, as imagens da grande tragédia de Santa Catarina impregnaram de dor e perplexidade os olhos e corações de todos os brasileiros. Enchentes acontecem, mas o impacto foi muito maior devido à destruição sistemática do ambiente no Estado, campeão nacional de desmatamento dos remanescentes da mata atlântica na última década.

Agora, mais precisamente amanhã, nova tragédia ameaça Santa Catarina e o Brasil. Desta vez ela é política.

A Assembleia Legislativa votará, em meio a um megaesquema de propaganda agressiva contra os ambientalistas, projeto de lei que inacreditavelmente pretende, entre outros absurdos, reduzir a faixa de proteção das matas ciliares, nas margens dos cursos d'água, de 30 para apenas 5 metros!

Desde 2001 há iniciativas para elaborar um código ambiental estadual. Em 2006, entidades do setor produtivo recomendaram que ele se fundamentasse na "estrutura fundiária do Estado e em suas peculiaridades regionais". O que isso queria dizer vê-se agora.

Ao longo de 2007, debates coordenados pelo órgão ambiental estadual (Fatma) resultaram em proposta encaminhada à Secretaria de Desenvolvimento Sustentável e entregue solenemente ao governador em março de 2008. Desde então, governo e membros da Assembleia desfiguraram de tal modo o texto que ele pode ser chamado de Código Antiambiental.

Retira competências e responsabilidades dos órgãos estaduais na proteção ambiental, reduz áreas protegidas e atenta contra a Constituição e a legislação federal, numa verdadeira desobediência civil às avessas, em nome de um pretenso desenvolvimento. Bons tempos em que a desobediência civil era praticada em favor da sociedade.

Desse tipo de desenvolvimento já conhecemos os resultados, tanto no nível global quanto no local, como muito bem sabem os catarinenses que perderam suas famílias e casas nas enchentes de 2008.

Aonde querem chegar? Impossível não associar o que acontece em Santa Catarina com as reiteradas tentativas, no Congresso Nacional, de mudança no Código Florestal para flexibilizar normas ambientais. Como a pressão da sociedade e a atenção da mídia nacional têm empatado essas articulações em Brasília, parte-se agora para uma estratégia de minar o código nos Estados, apostando no fato consumado de "leis estaduais" sob encomenda, que desfigurem a legislação federal.

Santa Catarina deu a senha para arrombar a porta. Agora é o momento de saber de que substância é feito o Estado brasileiro.

contatomarinasilva@uol.com.br

Marina Silva
Gentilmente surrupiado do excelente
blog blumenauense Um escambau.


Veja também:
Aprovação é preocupante - entrevista com Marina Silva
Código anti-ambiental - O eco
SC chafurda em Novo Código - blog da terra
Mexeram no código - de olho na capital

A trilha - Em todos os cantos
A trilha - O monstro

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O monstro

É estranho, mas foi assim.

Quando o céu caiu sobre nossas cabeças, nos sobreveio inesperada bonança. Um instante depois do caos, quando muitos ainda sofriam, quando ainda faltava água e comida e ainda havia muitos incomunicáveis e desaparecidos, paradoxalmente, o trânsito aquietou e sobreveio sobre motoristas antes ensandecidos, buzinadores, impacientes e deselegantes, a mais suave e cerimoniosa parcimônia. Os desmoronamentos haviam rompido dezenas de cabos e derrubado um bocado de postes, além de inúmeras pontes destruidas e ruas interrompidas. Metade da cidade estava sem luz e por cerca de 10 dias nenhum semáforo funcionou. Era de se esperar o caos, mas os motoristas deslocavam-se respeitosamente, reduzindo em cada cruzamento, embalando a não mais que 50 km/h nas vias rápidas. E o fluxo de veículos escoava como leito de rio em planície, calmo e constante, agradável e suficiente. Ninguém corria e ninguém se atrasava. Todos preocupavam-se uns com os outros e davam passagem, sorriam e acenavam. Carros novos com motores possantes e equipados com a mais alta e incompreensível tecnologia (que faria enlouquecer o melhor mecânico de dez anos atrás) comportavam-se como seus pesados e antiquados avós nas ruelas dos anos 50. Motoristas tensos, estressados, impacientes, grosseiros e/ou irresponsáveis transfiguraram-se em senhores de respeito, em gentis senhoras e em plácidos jovens polidos e honrados. E assim foi, por uma ou duas semanas.

Até que ouvi os primeiros rumores de que, na região norte, semáforos começavam a ser religados. Gradativamente, moradores das Itoupavas começaram a chegar atrasados e mal-humorados em seus compromissos. Cada dia em uma nova região semáforos voltavam a funcionar. As luzes, como estalar de dedos do hipnotizador, despertavam motoristas da sonolência respeitosa, fazendo pedestres atravessarem as ruas correndo entre veículos apressados.

Alguns dias depois amanheci ao som de buzinas. Na descida do morro, em direção à rua principal, já intuía o ocorrido. Seria inevitável. A luz voltou. É o fim da bonança. O monstro chegou ao sul, abocanhou a cidade toda. Antes afugentado pelo tremores dos morros, pelas avalanches e enxurradas, ressurgia, vindo do norte, com suas luzes vermelhas, amarelas e verdes despertando os mais profundos rancores humanos despejados todos no ar por escapamentos e palavrões. Trânsito é seu nome. Alimenta-se de pressa, embebeda-se em ugências e compromissos, e degusta sorridente o sangue recolhido do asfalto. Voltamos à correria.

Estranho, mas foi assim.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Em todos os cantos

Estava sujo de lama quando o vi. Os olhos cheios de lágrimas que escorriam revelando finas linhas de pele escura sob o lodo malcheiroso da enchente. Chorava entre as casas destruídas, entre os destroços, entre o desespero. Vi o amor escorrendo como lágrima em dor e angústia e o desejo de abraçar a todos.

Vi-o também caminhando convicto carregando móveis, roupas e eletrodomésticos completamente destruídos, escorrendo suor, juntando entulhos, limpando bueiros.

Encontrei-o fardado, em tanques e caminhões, carregando macas. Vislumbrei-o de longe, chorando e assustado em casas inacessíveis.

Vi-o passando fome, bebendo água contaminada.

Observei a força de seus braços carregando alimentos e colchões. E vi o misto de tristeza e esperança em seus olhos enquanto separava roupas, brinquedos e comida nos galpões que recebiam doações.

Encontrei-o criança, inseguro, agarrado na saia da mãe; e idoso, suportando o rombo que lhe rebentou a alma enquanto toda sua vida deslizava em avalanches de lama, árvores, telhas e história.

Abracei-o, enfim, num canto isolado e inacessível, e choramos juntos.

Nos últimos 10 dias, Deus estava por todos os cantos em Blumenau.