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quinta-feira, 1 de março de 2012

Mais histórias irrelevantes à vista

Os mais antigos aqui nesse blog, ou os mais curiosos que já clicaram nos banners laterais, sabem que já rolou por aqui uma série de histórias de aventuras irrelevantes que vivi em algumas montanhas Brasil afora, na época em que era um montanhista atuante. Fiz até uma coletânea desses causos, todos absolutamente verídicos, talvez não nos mínimos detalhes, que se tornou um ebook simpático que você pode baixar de graça, quando quiser.

Desde aquele tempo fiquei matutando se havia ainda na minha cachola quantidade suficiente de fragmentos de memória que comportassem um segundo ebook. Pois esses dias comecei a fazer uma busca nos cantos escuros das lembranças e fui achando pedaços de coisas interessantes, unindo umas às outras aleatoriamente, tentando dar sentido àquela confusão, e acho que consegui alguma coisa. Tenho o esboço de mais umas dez lembranças. Vou tentar tirar todo o pó e ir contando pra vocês conforme termino a limpeza. Depois que tiver um volume razoável publicado, monto o Incríveis Histórias Medíocres de Montanha - volume 2.

Vamos ver se chego lá.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Lição de planejamento

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

19.

Todo mundo sabe que um bom aventureiro é, inevitavelmente, um bom estrategista e um bom planejador. Uma grande excursão por lugares ermos exige muito preparo físico, psicológico e logístico. Por conta dessa característica é que grandes aventureiros como Klink e Niclewicz, entre um e outro projeto grandioso, sustentam-se dando palestras para empresários de grandes corporações. VP disso, CEO daquilo, managers e tudo mais. Aquela gente toda que aparece nas excitantes reportagens de revistas como Você S/A.

Eugênio sabia muito bem disso. Já havia passado alguns meses desde que ele e Avelino propuseram o desafio. A parede de granito que pretendiam galgar era monumental. Passaram várias horas das últimas semanas planejando os detalhes da escalada. Equipamento, alimentação, roupas, horários, transporte. Tudo acertado. Sexta-feira deixariam suas casas na direção do litoral.

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A trilha de acesso à parede era longa e cansativa. Depois do rio e daquela árvore caída, tornava-se exageradamente íngreme. Abasteceram os cantis antes de encarar a subida final. Os veios de granito apareciam esporadicamente entre as copas da árvore da densa floresta atlântica. Aos poucos, conforme subiam, a vegetação tornava-se mais rala. A parede mostrava-se cada vez mais imponente. Quando chegaram à base do grande afloramento de rocha, o sol já estava alto. Retiraram o equipamento das mochilas e trataram de arrumar tudo com muito cuidado. Dali para frente a situação seria mais delicada.

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Partiram de ônibus para o leste em direção à grande serra litorânea. Na rodoviária, pouco antes de embarcar, Eugênio lembrou que nenhum dos dois tinha relógio e comprou um prestobarba na farmácia da rodoviária, que vinha com um relógio de brinde.

Desceram do ônibus tarde na noite. Teriam que passar a noite na pequena cidade litorânea e pegar o primeiro ônibus em direção à serra no dia seguinte. Os planos eram dormir na rodoviária mesmo, mas a polícia não permitiu. Vagaram à esmo pelas ruelas vazias da cidadezinha, procurando algum lugar onde pudessem dormir. Perceberam um grande movimento em uma praça no centro, e descobriram por acaso que estava acontecendo ali, justamente naquele fim de semana, o Festival Universitário da Canção. Aproveitaram um pouco do som ao vivo na praça antes de seguirem caminhando. Encontraram um albergue da prefeitura abarrotado de gente. Todos os beliches ocupados e muita gente dormindo pelo chão. Conversando com o porteiro, descobriram que o ônibus que pegariam no dia seguinte passava de fronte ao albergue. Dormiram ali mesmo, no único fiapo de chão que encontraram, na frente da porta do banheiro. A noite não foi das melhores. Muitos colegas de albergue tiveram que entrar às pressas no banheiro por conta dos efeitos do excesso de cachaça. Levaram alguns pisões e demoraram um certo tempo até se acostumarem com o cheiro.

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A escalada não era tecnicamente difícil, é verdade. Era fácil até. Mas as dicas que tinham sobre a parede não eram muito precisas e estavam cerca de 4 horas atrasados, por conta do incidente daquela manhã. Tentaram ser rápidos e recuperar o tempo perdido, mas de maneira absolutamente contraproducente. Levados pela insegurança e os arrepios descontrolados na espinha que aquela parede lhes causava por conta de sua inexperiência, optaram por uma escalada tola. O guia subia sem mochila até a parada, aIçava sua mochila em seguida e dava segurança para o segundo. Por mais que corressem, não conseguiam remir o tempo. E por conta da pressa, deslocaram-se da linha natural da via, passando por veios de rocha, caraguatás e taquaras à esquerda e perdendo de vista as proteções fixas pelas quais deveriam passar. Tinham que encontrar o platô onde passariam a noite, mas não conseguiram. A noite veio e os pegou desprotegidos no meio da grande parede. Inseguros, preocupados e receosos, resolveram dormir por ali mesmo, aguardando a alvorada, quando poderiam reencontrar a via com mais facilidade. Acomodaram-se como puderam entre os tufos de taquaras na parede vertical. Amarraram-se à elas e tentaram dormir pendentes ao vento, a algumas centenas de metros do chão. Eugênio ainda lembrou-se de programar o relógio/prestobarba para despertar bem cedo. Teriam que correr muito parede acima se quisessem sair de lá a tempo de pegar o ônibus na BR, no dia seguinte.

Antes de adormecer, ainda conseguiram contato com as lanternas com algum ser humano que dormia em um cume próximo daquela mesma serra. O céu acima deles estava estrelado mas a densa neblina da noite úmida subia da floresta e passava por eles em rajadas de vento gelado. Comeram suas barras de cereais e chocolates, e caíram no sono, embalados pelo cansaço do longo dia.

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Apesar do cheiro, do chão úmido e do movimento constante da madrugada, dormiram bem. Tão bem que acordaram somente com o barulho do ônibus pegando alguns passageiros em frente ao albergue. Levantaram assustados, recolhendo seus pertences e correndo em vão até o ponto. Já tinham sido deixados para trás. Houve, ao menos, tempo para o café da manhã. Esperaram 4 horas até o ônibus seguinte que os levou até o ponto final, no pé da serra. Dali em diante, mais 3 horas de caminhada em ritmo forte. Passariam pelo mais belo rio da região, com suas muitas quedas e piscinas naturais de água espantosamente transparente que, refletindo as copas das árvores, ganhava incríveis tons de esmeralda. Depois do rio, e da árvore gigantesca caída, seguiriam pela trilha íngreme em direção ao afloramento rochoso.

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O relógio foi barato, mas teve seu preço. Talvez a umidade da noite gelada ao relento, talvez o vento cortante que balançava as taquaras e os corpos nela apoiados, ou talvez um defeito qualquer de fabricação absolutamente aceitável em um relógio daqueles, fez com que a contagem do tempo parasse. O sol, porém, seguiu seu curso indiferente ao pequeno relógio de pulso e aos dois minúsculos grãos de areia que pendiam em sono profundo em uma parede daquela cordilheira banhado por um vasto oceano daquele planetinha azul. Quando libertaram-se finalmente dos fortes braços de Morfeu, o sol já encontrava-se a meio caminho do pino. Uma breve reunião se fez necessária. Ambos discutiram o que fazer naquela situação. Se quisessem, conforme o programado, sair por cima da parede e alcançar a BR no alto da serra a tempo de pegar o ônibus, teriam que ter acordado antes mesmo de o sol despontar no horizonte. Concordaram que o mais sensato seria abandonar o plano original e voltar por onde vieram.

Deram-se ainda ao trabalho de reencontrar a linha da via e alcançar o platô onde deveriam ter dormido. Desceram dali até o rio, onde passaram algumas horas mergulhando e descansando. Retornaram pelo mesmo caminho, diretamente até o planalto.

Do começo ao fim, como de costume sempre que Eugênio e Avelino faziam algo juntos, pouca coisa saiu conforme o programado. Nada, no entanto, pareceu-lhes ter dado errado. Eram, no final das contas, histórias incríveis as que tinham para contar. E incríveis os momentos que desfrutavam juntos. O sucesso não estava em cumprir à risca o planejado, nem tão pouco em alcançar o objetivo proposto. O sucesso estava no improviso, na assimilação, no convívio, no silêncio, no medo, no arrependimento, nos novos horizontes, nos mares de nuvens, na lua refletindo sobre eles, no vento cortante, na conversa furada, sem pé nem cabeça, na fome, na dor, no frio.

Eram medíocres as aventuras, mas incríveis as histórias.



















Encostei-me a ti, sabendo bem
que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem,
depus a minha vida em ti.

Como sabia bem tudo isso,
e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar,
quando caí.

Cecília Meirelles, descrevendo com absoluta
precisão a sensação que dá um minúsculo
hurp, coperhead ou clif, sustentando nossos
frágeis corpos a centenas de metros no chão.

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Acompanhe:
Incríveis histórias medíocres de montanha – a série
1. Apresentação
2. O menino de asas
3. Queda livre

4. Às vezes falha
5. O Raio que o parta
6. Sopão
7. Cadê o caroço
8. Do piso ao teto
9. A chave da terra de Malboro
10. Meia lua inteira
11. Gênesis
12. Macacos me mordam
13. O Eterno
14. Resgates compulsórios 1
15. Resgates compulsórios 2
16. Resgates compulsórios 3
17. Resgates compulsórios 4

18. Resgates compulsórios 5

19. Lição de planejamento

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Resgates compulsórios [5]

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

18.

No princípio, parecia bêbado. Andava cambaleante, trôpego, com os braços soltos, balançando loucamente conforme o corpo se deslocava aos trancos pela trilha íngreme. Conforme nos aproximávamos, pude perceber manchas de sangue na camisa. Olhei desconfiado. O rapaz caminhava convicto, sem considerar nossa presença. Não levava nada consigo. Mochila, bolsa, sacola, pochete; nada. Seguia de mãos vazias, sem olhar para trás. Perguntei gentilmente se estava tudo bem, se precisava de alguma ajuda, e ele parou. Virou lentamente, fora do prumo, com o tronco arqueado para esquerda. Quando me olhou de frente, vi o buraco pouco acima da testa, e o sangue escorrido pelo rosto e pela camisa. Me olhou com um olhar de peixe, absolutamente indiferente, assustadoramente inexpressivo, e respondeu calmamente:

- Está tudo bem.

- Rapaz. Você não está bem não. Está sangrando. Tem uma baita machucado na cabeça!

Ele olhou para si mesmo com espanto, tateou a cabeça desconfiado, sentiu a ferida, olhou o sangue na mão, franziu a testa pensativo e focalizou o infinito com os olhos por alguns segundos. Depois, virou-se calmamente para frente e seguiu caminhando cambaleante. Desci ao lado dele o tempo todo, conversando e apoiando seu corpo trôpego. Aos poucos foi colocando a cabeça em ordem. Lembrou do tombo e reconheceu assustado que estava machucado e precisava de ajuda. Acompanhei o rapaz até sua casa, no Bairro Alto. Prometeu que dali seguiria para o pronto socorro com seu pai. Despediu-se agradecido e nunca mais o vi.

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Acompanhe:
Incríveis histórias medíocres de montanha – a série
1. Apresentação
2. O menino de asas
3. Queda livre

4. Às vezes falha
5. O Raio que o parta
6. Sopão
7. Cadê o caroço
8. Do piso ao teto
9. A chave da terra de Malboro
10. Meia lua inteira
11. Gênesis
12. Macacos me mordam
13. O Eterno
14. Resgates compulsórios 1

15. Resgates compulsórios 2
16. Resgates compulsórios 3
17. Resgates compulsórios 4
18. Resgates compulsórios 5

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Resgates compulsórios [4]

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

17.

A noite havia caído um pouco precocemente, empurrada pela chuva. Descíamos a trilha encharcados e à luz de lanternas. Não era nada tão complicado para quem já havia passado por ali centenas de vezes. Difícil mesmo era estar ali, naquela situação, sem lanterna, e sem conhecer o caminho. Pois foi exatamente nessa condição que encontramos os dois casais na trilha. Caminhavam na escuridão total, tateando o mato, um pé depois do outro, quase sem sair do lugar. Ainda tinham um longo percurso até chegar ao destino.

Solícitos como sempre, nos oferecemos, conforme havíamos aprendido na escola dominical, para ser lâmpadas para os pés, e luz para o caminho. As mulheres, infinitamente mais sábias e humildes que qualquer marmanjo, aceitaram na hora. Os homems, primatas pouco evoluídos e carentes de mostrar sua virilidade diante de seus pares, tentaram desconversar e seguir adiante na escuridão, mas não foram longe. Depois de sair da trilha algumas vezes, e depois de alguns tombos hilários, cederam e aceitaram nossa luminosa companhia.

Acompanhamos lentamente os casais, apoiando, escorando, iluminando, esperando, incentivando, motivando, até chegarmos à estrada de terra. Íamos seguindo pela estrada, percorrer o longo trecho até o ponto de ônibus e encarar a longa espera e a longa viagem até o centro, que precederia a longa caminhada até em casa, quando percebemos que nossos companheiros dirigiram-se sorrateiros para a beira do caminho em direção à dois belos carros estacionados. Que alegria, carros! Veículos quentinhos e rápidos. Iluminamos o caminho até eles. Iluminamos as fechaduras para facilitar a introdução da chave. Iluminamos as mochilas, o porta-malas. Iluminamos as portas batendo, os acenos com as mãos, a partida, o adeus. Iluminamos a estrada vazia e o longo percurso até o ponto de ônibus. De lá, seguimos encharcados e gelados para casa.

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Incríveis histórias medíocres de montanha – a série
1. Apresentação
2. O menino de asas
3. Queda livre

4. Às vezes falha
5. O Raio que o parta
6. Sopão
7. Cadê o caroço
8. Do piso ao teto
9. A chave da terra de Malboro
10. Meia lua inteira
11. Gênesis
12. Macacos me mordam
13. O Eterno
14. Resgates compulsórios 1
15. Resgates compulsórios 2
16. Resgates compulsórios 3
17. Resgates compulsórios 4

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Resgates compulsórios [3]

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

16.

Certo dia, enquanto usufruíamos daquela rocha maravilhosa, desgastando as pontas dos dedos, deliciados pela dor provocada pelos cristais rasgando a pele, fomos solicitados para um socorro. As gurias estavam nervosas indicando seu amigo, que fora também o guia daquela aventura, e vinha morro abaixo pulando em um pé só. Nos dispusemos de pronto a acompanhar o rapaz. Mas macho que é macho, herói que é herói, guia que é guia, não pede água. O rapaz era gigante. Perto de dois metros, cada coxa devia ser maior que a minha cintura. Saiu saltitando, obstinado, feito um saci, suave como um mastodonte. Tentamos alertar-lhe sobre a pressão no joelho, os riscos de torções e tropeções, mas ele seguiu pulando, confiante no seu taco. As meninas o acompanharam angustiadas e nós voltamos à carga.

Enquanto nos preparávamos para voltar às rochas, as moças retornaram, ofegantes, com a notícia inevitável. Descemos até o rapaz com mala e cuia. Não teríamos mais tempo para escalar mesmo. Empacotamos todo o equipamento e fomos ao encontro do herói, que estava desabado num canto da trilha, gemendo como bambu no vento. Devia pesar uns 150 quilos, o infeliz. Foi apoiado em nossos ombros até o ponto de ônibus. Dias depois, recebemos a notícia de que havia quebrado os dois tornozelos. Dizem por aí, com muita propriedade e pouca educação, que a inveja é uma merda. O orgulho também é.

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Incríveis histórias medíocres de montanha – a série
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6. Sopão
7. Cadê o caroço
8. Do piso ao teto
9. A chave da terra de Malboro
10. Meia lua inteira
11. Gênesis
12. Macacos me mordam
13. O Eterno
14. Resgates compulsórios 1
15. Resgates compulsórios 2
16. Resgates compulsórios 3

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Resgates compulsórios [2]

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

15.

Nos primeiros e empolgados anos de montanhismo, passava boa parte do meu tempo nos fundos de uma loja do ramo, onde havia um pequeno muro de escalada. Matei muita aula para brincar ali. Aparecia sempre atrasado nas aulas de desenho mecânico, com os dedos encardidos de magnésio e hipersensibilizados pelas agarras altamente abrasivas que se usava antigamente. Segurava a lapiseira com a mão tremendo e exalava aquele cheiro típico de magnésio, poeira, suor e nylon. Numa dessas noites, enquanto matava aula com a nobre intenção de me tornar um exímio escalador, encontrei uma espécie inédita de saco de dormir gigante no meio da habitual bagunça de agarras, tecidos, nylons, lã sintética, pedaços de cordas e equipamentos velhos. Não tinha buraco para cabeça. Fechava inteiro, de um lado a outro, e possuía estranhas alças nas laterais. Sem titubear, resolvi experimentar a novidade. Estava lá dentro, com o zíper fechado, quando ouvi aquela voz fúnebre:

- Onde é que está aquele saco onde carregamos o morto ontem?

Um rapaz havia despencado de duzentos metros em um acidente besta no Marumbi. Seu corpo foi carregado, no dia anterior, no saco onde eu me encontrava. Foi meu primeiro contato com a tragédia montana.

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Incríveis histórias medíocres de montanha – a série
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2. O menino de asas
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6. Sopão
7. Cadê o caroço
8. Do piso ao teto
9. A chave da terra de Malboro
10. Meia lua inteira
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13. O Eterno
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15. Resgates compulsórios 2

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O Eterno

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

13.

Creio que fomos feitos para voar. Não nossos corpos, mas a mente, o espírito, o interior, aquilo que realmente somos, aquilo que permanecerá no dia em que rompermos o lacre que nos separa do eterno. Ah, sim. Nesse dia voaremos como anjos, libertos das duras leis da física. Quando pousarmos, será puramente por prazer, jamais por cansaço ou necessidade. Se esse dia nos alcançar com a glória da presença daquele que nos criou, então, como definiu C. S. Lewis, toda a alegria daquele instante eterno será retroativa, e inundará de alegria todos os instantes passados. Toda dor, angústia, morte, perda, solidão, miséria e desgraça serão inundadas pela consciência da alegria eterna que se mostrará diante de nós. Mas esse dia não é hoje. Hoje estamos presos ao solo, acorrentados ao peso assombroso da gravidade. Graças à Deus, nem sempre.

Subimos o morro no meio da tarde, sob céu encoberto, com pequenos buracos de azul esbranquiçado tentando romper aquele teto cinza. O carro parou a poucos metros da suave rampa de grama que nos levaria a mergulhar no infinito. Com a mochila nas costas, caminhamos até o ponto ideal para o início do ritual.

O barulho do nylon sendo aberto, o estalar dos metais, o desenrolar das linhas e o cheiro peculiar que se desprende de todo o equipamento tornam o momento mágico. O cinza das nuvens havia engolido o mundo todo. Há nossa frente, dez metros além do nariz, somente os mistérios do infinito, do intangível, da ausência, do nada.

A brisa suave batia de frente em nossos rostos úmidos e gelados. Ouvíamos tão somente o vento, e nossa própria respiração. Havia espaço suficiente para as duas velas e estávamos dispostos em fila, já presos às linhas que sustentariam nossos corpos e soltariam longos e sutis assobios estridentes quando cortassem o ar.

No preciso instante em que o corpo projeta-se para frente, as mãos conduzindo firmes os tirantes à sua posição ideal, aquele tecido inerte que jazia sobre a relva ganha vida, infla-se, ousado, lançando-se corajosamente adiante, retesando confiante as linhas, os tirantes, posicionando-se alinhado sobre nossas cabeças e, finalmente, arrancando do solo essa casca que nos aprisiona. No instante seguinte, rimo-nos por termos alcançado uma metáfora alada do eterno. Já libertos do solo, somos impiedosamente engolidos pelo cinza infinito e úmido que nos cercava. Desaparecemos do campo de visão de todos. Atrás de nós, desaparece a origem. Adiante, mantém-se em segredo o destino. Vemos apenas um ao outro, às vezes nem isso. Mantemo-nos próximos apenas pela voz, pela troca de palavras eufóricas e solenes. O cinza nos engole e nos revela, enquanto prosseguimos firmes adiante, afastando-nos dos perigos da encosta invisível. E navegamos por longos minutos no infinito, até que, sutilmente, algumas cores começam a somar-se ao cinza.

Aos poucos, formas tornam-se reconhecíveis por rápidos momentos, antes de serem novamente engolidas pelo vazio. Então, atravessando os últimos vapores de neblina, nosso destino revela-se por inteiro diante de nós. Fazemos novamente parte do tempo e do espaço. Minutos depois estamos novamente presos ao solo, como todos os mortais.

Até o próximo vôo.

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4. Às vezes falha
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8. Do piso ao teto
9. A chave da terra de Malboro
10. Meia lua inteira
11. Gênesis
12. Macacos me mordam
13. O Eterno

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Macacos me mordam

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

12.

Estávamos em Vassouras quando o policial nos parou, há 600 quilômetros da partida e 600 do destino. Eu no volante, com minha carteira de motorista em dia, mas os documentos do carro vagando no limbo, em algum ponto entre a origem e o destino. Cem quilômetros antes, quando chegávamos ao Parque Nacional do Itatiaia, nos demos conta de que os documentos ficaram em Curitiba, junto com a carteira do meu irmão, que vinha dirigindo até ali. Desfrutamos de dois belos dias de caminhada no parque, com algumas escaladinhas simples aqui e ali. Antes de pegarmos novamente a estrada, conseguimos pedir, por telefone, que meus pais enviassem pelo correio a carteira e os documentos para Governador Valadares. Dali para frente, assumi o comando do carro. O posto da polícia rodoviária estava sem energia elétrica e o policial nos abordou com uma lanterna na mão.

– Documentos, por favor.

Mostrei-lhe meus documentos e aguardei a reação.

– Documentos do carro.

Nosso roteiro incluía, além do Itatiaia, o morro do Ibituruna, em Governador Valadares – onde assistiríamos o casamento de um primo e voaríamos de parapente – a Serra da Caraça, Serra do Cipó e Serra da Moeda, em Minas, mais a Serra da Bocaina e Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro. Viajávamos no Fiesta ‘mil’ do meu pai. Eu, meu irmão e nossas esposas, além de todo equipamento para camping, escalada e dois parapentes.

– Não estão comigo, senhor policial. Devem, agora, estar viajando pelo correio até Valadares, nosso destino final, à 600 quilômetros daqui.

O homem me chamou para uma conversa particular. Acompanhei-o na escuridão até a guarita na beira da estrada. Apontou-me um placa em um canto escuro, indicando exatamente qual seria o valor da multa que eu teria que pagar, caso não encontrássemos outra solução. Minha consciência teimosa não me permitia ‘molhar’ a mão do ilustre policial. Apelei para a ignorância:

– Desculpe, senhor, mas minha religião não permite nenhuma solução alternativa à lei.

Com um misto de incredulidade, espanto e desdém, o policial me encaminhou até o seu superior, que ouviu a mesma ladainha religiosa. Deu certo.

– Se manda da minha frente, rapaz, antes que eu mude de idéia!

O pacote, no correio de Valadares, estava em nome do meu irmão. Para retirá-lo, ele precisaria apresentar um documento, mas seus documentos estavam justamente dentro daquele pacote. Mais uma novela. No Ibituruna, belo e famoso morro da região, onde pretendíamos voar de parapente, fomos barrados pela fiscalização. Nunca tivemos a documentação exigida pelo extinto Departamento de Aviação Comercial – DAC – que regulamentava e fiscalizava o vôo-livre na época. Fomos sempre voadores clandestinos.

Na serra da Caraça, paisagem de tirar o fôlego. Na serra do Cipó, roubaram nosso fogareiro, mas escalamos um bocado. Na serra da Moeda, um belo vôo. Na serra da Bocaina, um mergulho no mar dos ricos, em Angra dos Reis, e o ataque de um cachorro feroz. O ‘grand finale’ merece uma descrição mais detalhada.

Tínhamos informações superficiais sobre a trilha e a parede, mas o desejo de alcançar o cume era enorme. Um dos integrantes do grupo abandonou a empreitada pouco antes de chegarmos à base da parede, por conta de um fortíssimo desarranjo intestinal. Ao menos teve tempo de presenciar a cena improvável que se descortinou diante de nós.

Eles surgiram não se sabe de onde, movendo-se lentamente, em passadas largas, pelas copas das árvores. Vários filhotes viajavam confortavelmente agarrados às costas de suas mães. Os Monocarvoeiros são os maiores primatas das américas. Vivem em grupos de seis a doze indivíduos e estão ameaçados de extinção. O grupo passou a menos de 10 metros de nossas bocas abertas. O maior deles postou-se de frente para nós, nos encarando nos olhos, enquanto os demais passavam desconfiados mais atrás. Somente quando o último se afastou em segurança é que o líder que nos fitava seguiu lentamente seu caminho, mas sem nos tirar do seu campo de visão desconfiado. Lentamente, sumiram todos entre a vegetação.

Calcula-se que restem entre 200 e 1200 indivíduos desta espécie no planeta.

Nos perdemos na trilha e chegamos à parede não exatamente no ponto que pretendíamos. Encaramos a primeira via que apareceu e, até hoje, não sabemos o nome da maldita. Alcançamos o cume do dedo depois de quatro cordadas fáceis. Erramos também a descida. Nossa corda não chegava na parada e optamos por descer pela via que subimos, apesar das transversais que tiveram que ser desescaladas.

Férias como essas, nunca mais.

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Incríveis histórias medíocres de montanha – a série
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4. Às vezes falha
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11. Gênesis
12. Macacos me mordam

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Gênesis

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

11.

No princípio criou Deus as montanhas, os vales e as falésias. E neles plantou os pequenos afloramentos rochosos, as paredes colossais, as fendas, fissuras, chaminés e tetos, e as espantosas plantas rupestres endêmicas. E cercou-os com o vôo provocante dos urubus, os mares de nuvens e o efeito alucinante provocado pela refração dos raios de sol na densa neblina que envolve os corpos dos montanhistas solitários, cercando-os de uma aura multicolorida, em eventos tão físicos quanto espirituais. E criou também os mocós, as tempestades, as nuvens galopantes abraçando carinhosamente o contorno do relevo, o vento gelado, os platôs improváveis e abençoados, as agarras exatas nos lugares exatos e aquele pequeno arbusto impossível, isolado em centenas de metros de rocha vertical, agarrado à parede com milhares de raízes, como fios de cabelo, presas em saliências minúsculas. E viu Deus que isso era bom. Ah, e como era bom.

Depois fez o homem e a mulher, e colocou-os em um jardim, no vale entre dois grandes rios, mas os fez olhar para os montes e disse-lhes: “Andem por todos os vales e bebam de todos os rios, mas saibam que somente no cume desses montes encontrarão a parte que lhes falta. Pois quando os fiz, retirei parte de vocês, e plantei em algum ponto de alguma dessas montanhas.” E foi nesse dia que nasceu no homem o desejo de conhecer todos os cumes e faces e paredes de todas as montanhas. Jamais, em qualquer das aventuras, travessias e escaladas que o homem empreendeu desde sua criação, pretendeu ele algo mais do que encontrar-se a si mesmo.

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Eu abri os olhos para esse desejo latente quando observava, em uma pedreira abandonada, alguns cabeludos com calças de lycra ridículas, presos à cordas coloridas, pendurados pela ponta das mãos e dos pés, movendo-se com precisão felina pelas paredes de granito cinza. Depois daquele dia, uma sucessão de fatos coincidentes conduziram-me definitivamente à prática desse esporte não-esporte.

Naqueles tempos remotos, não tínhamos acesso a informação alguma. Equipamentos custavam tanto quanto nosso próprio fígado. Não sabíamos nada sobre cursos e não havia internet, nem google (santo Deus, como sobrevivíamos?). As informações estavam devidamente escondidas em locais secretos e inacessíveis. Cavocávamos onde podíamos para encontrar algo que nos conduzisse com segurança, nos tortuosos e confusos caminhos que trilhávamos, mas dependíamos muito mais da nossa imaginação. Em muitos casos, nossas criações eram absolutamente absurdas. Vou lhes contar, em segredo, algumas delas.

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Nossa primeira escalada foi na mesma pedreira onde encontramos aqueles alienígenas cabeludos. Amarramos a corda, em cima do bloco rochoso, em vários pontos de concreto que estavam abandonados por lá. Tínhamos adquirido, à muito custo, um único mosquetão mimado por todos, e uma única cadeirinha. Amarramos uma vítima na ponta da corda, que passava pelo mosquetão, lá em cima, e descia até a tampa de um bueiro. Passava por lá e seguia até nosso grupo. Amarramos a corda na cintura do mais pesado de nós e o restante segurou firmemente. Enquanto a vítima tentava escalar alguma coisa, a turma agarrada na corda em fila indiana caminhava para mantê-la tensionada. Em várias situações, içávamos a vítima que não conseguia vencer determinados pontos da parede. Feche os olhos e tente imaginar a cena, sem rir, nem chorar.

Depois dessa lamentável experiência, começamos a evoluir rapidamente. Eu e meu parceiro fiel (irmão camarada) compramos um único par de tênis de escalada. Íamos para montanha com nossos três mosquetões e encarávamos as vias que nos pareciam mais fáceis. Tínhamos também um freio oito e um maione feito em casa (que hoje em dia ninguém sabe mais o que é). Um mosquetão ficava com o segurança e o guia escalava com os outros dois. A cada duas costuras, o infeliz tinha que buscar o mosquetão de baixo. Chegando na parada, quando a via era mais difícil, o tênis era lançado para o segundo. Num desses lançamentos, o par caiu dentro de uma fenda estreita, uns dois metros rocha adentro, entalado entre as paredes, à dois metros do chão. Filho único de pai solteiro, aquele par de calçados tinha valor inestimável. Acreditei que seria possível resgatá-lo e entrei de cabeça na fenda. O peito e as costas roçavam na pedra áspera enquanto puxava o meu próprio corpo em direção àquele funil, sem parar para pensar no retorno. E sucedeu conforme o previsível. Alcancei o calçado, mas entalei.

Com o tronco travado firmemente entre as duas paredes de rocha, praticamente perdi a capacidade de dilatar o peito e encher o pulmão de ar. Clamei por socorro com desespero suficiente para fazer meu irmão rapelar com certa urgência para o resgate da sardinha enlatada. Com goles pequenos e rápidos de ar, como a gestante aprende a fazer no curso ‘parto sem medo’, mantive a mente oxigenada enquanto desenvolvíamos em conjunto alguma engenharia capaz de me sacar daquela situação humilhante. Acabei, depois de muito esforço, e sem soltar o par de tênis da mão, conseguindo a liberdade. Apesar da estupidez da situação, minha vida, ali, esteve por um fio.

O próximo passo na nossa vertiginosa ascensão no mundo das escaladas era natural. Encontramos aquela parede virgem cercada por um pântano fétido e ouvimos o clamor da rocha, ansiando ser escalada. Lançamo-nos em detalhada investigação sobre os mistérios da conquista. Clifs, rurps, nuts, estribos e uma série de novos termos passaram a enriquecer nosso vocabulário. Obviamente tínhamos acesso somente às palavras. Para a primeira via que abrimos, tivemos que usar nossa criatividade e inconseqüência. Entortamos algumas chapas de metal e fizemos nossos próprios clifs. Muito bons, por sinal. Compramos brocas com ponta de vídea e uma bela marreta... de 3 kg. Além disso, selecionamos algumas chaves de boca bem robustas da nossa caixa de ferramentas, que usamos como proteção em algumas fissuras. Os primeiros furos foram feitos assim mesmo. Clifs caseiros, chaves de boca, estribos feitos com corda de varal e uma marreta de 3kg batendo diretamente sobre as brocas, sem mandril. Além de terminarmos o dia com o braço latejando pelo peso da marreta, quebramos todas as brocas. Nas semanas seguintes descobrimos que uma marretinha de 300g seria suficiente, e conseguimos um belo mandril emprestado. Com esse arsenal abrimos três vias de 15 a 20 metros onde hoje se encontra um famoso teatro. O pântano virou um lago repleto de peixes e patos, e tem até uma cachoeirinha. Mas o acesso às vias foi proibido.

O engraçado foi ver, semanas depois da proibição, uma campanha publicitária convidando o Brasil inteiro para fazer turismo em Curitiba. Uma das cenas de destaque era o recém inaugurado teatro, com a bela parede de granito ao fundo. Então a câmera viajava em direção à uma dupla de escaladores na via que abrimos com nosso suor e sangue, mostrando, em um momento mágico, a fusão de cultura, esporte, lazer e meio-ambiente. Politicagem miserável. Propaganda enganosa. Ninguém nunca mais pode escalar ali.

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Acompanhe:
Incríveis histórias medíocres de montanha – a série
1. Apresentação
2. O menino de asas
3. Queda livre

4. Às vezes falha
5. O Raio que o parta
6. Sopão
7. Cadê o caroço
8. Do piso ao teto
9. A chave da terra de Malboro
10. Meia lua inteira

11. Gênesis

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Meia Lua Inteira

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

10.

O bloco de granito subia vertical em direção aos céus. Não era um bloco muito grande. Cerca de 20 metros acima do solo, o sol refletia no tom ocre da rocha, deixando-a dourada. À sombra, o vento deixava o ambiente gelado. Os dois companheiros de inúmeras escaladas, caminhadas e roubadas, observavam a fissura que o diedro formava no encontro perpendicular dos planos. Iniciava vertical, larga e rasa, com poucas chances de entalamento das peças novinhas que brilhavam em suas mãos. Subia convicta, afunilando, tornando-se mais profunda e angular. Oito metros acima, dobrava à esquerda em uma curva perfeita lembrando uma meia-lua e, depois de alguns metros seguindo paralela ao solo, subia vertical novamente. Na saída dessa última curva fechada, a fissura abria-se generosa e profunda, pronta para o entalamento perfeito de uma peça robusta. Até lá, somente pequenas peças encaixadas com certa precariedade evitariam que o corpo estalasse no chão duro no caso de uma queda.

O mais novo deles, e mais afoito, e mais desmiolado, elegeu-se para a ponta da corda. Nuts variados e alguns friends alojaram-se na bandoleira. O equipamento novo revelava a inexperiência do rapaz nesse tipo de escalada. De qualquer forma, sentia-se confiante. Entrou na via dando um passo largo sobre o buraco que ficava logo abaixo da fissura. A queda ficava muito mais indesejável com a presença daquela cavidade infeliz. Era difícil manusear as peças com as mãos tremendo, mas o rapaz prosseguia confiante, enfrentando corajosamente as incontroláveis descargas da ácido lático e adrenalina no corpo. Na entrada da meia lua a fissura praticamente desaparecia. Os poucos metros de deslocamento horizontal eram o momento mais sensível. As pernas começavam a vibrar descontroladas enquanto a mente o acusava de imbecil por estar ali, naquela situação ridícula. Em um movimento mais brusco, na esperança de recobrar o equilíbrio e controle do corpo, aconteceu o impensável. O som dos mosquetões deslizando pela corda, os estalos leves e agudos dos choques entre metais e os olhos arregalados do companheiro que dava segurança, anunciaram que a situação estava bem pior do que se podia imaginar. As quatro pequenas peças que haviam sido instaladas fissura abaixo, e que seriam as responsáveis por evitar o desagradável contato abrupto do corpo com o solo, encontravam-se, agora, todas elas, amontoadas na mão do segurança, que olhava atônito para seu companheiro.

- Muita calma nessa hora! – sussurrava-lhe a mente. As pernas e braços não correspondiam aos apelos da consciência e vibravam cada vez mais. Os olhos fixaram-se desesperados naquela abertura abençoada e salvadora da fissura na última curva. Todos os músculos tensionaram. Durante breves segundos, corpo e mente travaram uma batalha colossal, ambos conscientes de que a salvação encontrava-se dois ou três passos ao lado, naquela bendita curva. Os olhos vasculharam cada detalhe da rocha vertical e a mente visualizou cada um dos próximos movimentos detalhadamente. De longe o rapaz intuiu cuidadosamente a abertura da fissura, e previu exatamente que peça seria colocada ali, caso conseguisse alcança-la. Moveu-se lento e convicto em direção à salvação. Nada seria capaz de desviar-lhe a atenção. Um, dois, três... pronto! Mão cheia na agarra, pés chapados na rocha, corpo lançado firmemente para trás, procurava agora, atabalhoado, a peça previamente calculada para aquela abertura. Apesar da sensação de alívio, o corpo inteiro vibrava como bambu verde por conseqüência da superdosagem de elementos químicos que o inundaram naqueles segundos. Proteção fixada, corda passada. Os mais longos segundos da vida do moço encerraram naquele instante. Ainda houve sangue de barata suficiente para seguir fissura acima, até a parada.

Naquele dia, aquela fissura mixuruca transformou-se, para aquele rapaz, na mais incrível parede de granito do planeta.


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10. Meia lua inteira

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

A chave da terra de Malboro

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

9.

O pessoal tinha vindo de Foz do Iguaçu para, enfim, escalar em uma montanha de verdade. Lá no terceiro planalto, tudo que tinham eram as falésias do rio Paraná, dentro do Parque Nacional do Iguaçu, e o ‘Monumento das Três Fronteiras’, construído com blocos de rocha, onde dava para brincar um pouquinho. É verdade que escalar no leito do rio, com as Cataratas ao fundo, é uma experiência muito interessante. Sem falar que, na época, o acesso ao parque era gratuito para o pessoal da associação de montanhismo. Já existiam dezenas de vias lá, de vários graus e estilos. Entre uma e outra escalada, ainda dava pra ver os turistas subindo o rio nos botes infláveis do Macuco, em direção às quedas d´água espetaculares que, de alguns pontos, podíamos ver escalando. Mas montanha mesmo não havia nenhuma por lá.

Enchemos meu fusca branco, o carro mais valente que já tive, e descemos a serra com um objetivo claro. A Última Terra de Malboro, na Esfinge, era um sonho para todos nós. Cinco adultos e todas as mochilas, com todos os equipamentos necessários, não eram pouca coisa para meu possante veículo, mas ele agüentou firme. Íamos em duas duplas bem integradas para a parede, e o quinto elemento do grupo seguiria caminhando pela Noroeste. Nos encontraríamos novamente na estação, no fim do dia.

Para manter o protocolo, segui à risca as dicas até a base da via, mas acabei na via errada. Gastamos as pontas dos dedos e um bom tempo tentando vencer os movimentos improváveis da complicada Ilusionistas. Eu quebrava a cabeça tentando encaixar aquilo na descrição que tinha da Terra de Malboro. Só depois de muito esforço em vão é que a ficha caiu. Mais alguns minutos perambulando pela base da Esfinge e, enfim, chegamos ao local correto.

Havíamos perdido boa parte da manhã, e a possibilidade de concluir a via era mínima, principalmente porque ninguém da equipe a conhecia e, coisa terrível, o mais ‘experiente’ ali era eu mesmo. Nos jogamos parece acima, na infame tentativa de ganhar tempo. Devo confessar que não lembro praticamente nada daquela escalada. Acredito que o trauma posterior bloqueou aquelas lembranças. Não sei quantas cordadas escalamos. Creio que não fomos muito além do meio da parede. Talvez 3 ou 4 esticões, nada mais. Sei que foi tudo tranqüilo, sem estresse, mas estávamos lentos demais. A certa altura, com o sol já bem escondido atrás do horizonte, abandonamos a parede. Na base já estava bem escuro e os equipamentos espalhados, ocupando uma grande área, foram organizados na penumbra, à luz de lanternas. Corda para cá, ferragens para lá, casaco, botas, mochila nas costas e pronto.

O próximo passo era encontrar o quinto elemento na estação e descer até o antigo posto do IAP, lá em baixo, na beira do Nhundiaquara, onde tínhamos deixado o carro. O sujeito era um caso à parte. Muito boa gente, mas completamente destoante em relação ao resto da equipe. Nós, esfarrapados e mulambentos, relativamente abobalhados, falando besteira e curtindo o tempo. Ele, impecável, vestindo as mais caras grifes de montanha, engenheiro de respeito, sério, encarando cada passo como um desafio, um preparo físico e psicológico para alguma excursão ainda maior, nos Andes ou na Europa, sei lá. Chegamos na estação bem depois do horário programado, e ele já não parecia muito feliz. Descemos a estradinha estafados e, como todo bom montanhista pé-de-chinelo sabe, o cansaço é o pai do besteirol. O quinto elemento nos acompanhou calado, possivelmente pensando que tipo de gente chinfrim éramos. Com o passar do tempo, e dos metros, a bobajada foi lentamente sendo superada pela lombeira. Aos poucos o silêncio venceu o riso e o cansaço tomou definitivamente seu lugar, fazendo pesar os olhos, o corpo, a boca e a cabeça. O fim desse processo é um estranho sentimento de tristeza. Aquela mesma tristeza que dá depois de uma grande feijoada, quando o silêncio toma conta da mesa e já não se tem ânimo nem mais para sair do lugar; quando esticamos as pernas e deixamos o corpo escorregar na cadeira, olhando para algum ponto no infinito, na expectativa de que o estômago consiga de alguma forma mágica acomodar tudo aquilo que engolimos. Ao menos nesse instante o quinto homem deve ter se sentido em paz.

Chegamos ao carro, arrastando as botas, depois das 10 da noite. Todos felizes, com o sorriso bobo de quem está chegando ao fim de um sofrimento. Alguns metros antes já me bateu o susto costumeiro – onde é que deixei a chave? - As mãos correram apressadas entre os bolsos enquanto a consciência já mandava mensagens de paz – está no bolso do anorak, lembra? – É mesmo. Como poderia ter esquecido. Ainda antes da primeira tentativa na Ilusionistas eu havia acondicionado as chaves no bolso da jaqueta impermeável e fechado com segurança o zíper. Lancei a mochila no chão, ao lado do fusca, absolutamente seguro de mim, com um sorriso de vencedor, de quem passou a perna na própria cabeça oca. Abri confiante a mochila e enfiei a mão lá dentro à busca do anorak. Deslizei o braço de um lado para o outro, cavocando no meio daquela confusão, quando uma leve sensação de pavor tomou meu coração. Comecei a esvaziar rapidamente a mochila, espalhando tudo pelo chão, enquanto todos me rodeavam, olhares fixos em mim. Os sorrisos da chegada congelaram, desconfiados. Esperavam, ansiosos, o momento em que revelaria estar brincando. Depois de espalhar tudo no chão e conferir cada canto da mochila umas três vezes, fui tomado por imenso desespero. Creio que o semblante transmitiu a mensagem claramente. Os olhos arregalados de todos cruzaram-se em silêncio. Depois de alguns minutos de angustiante luto, conseguimos, sei lá porque cargas d´água, achar graça naquilo. Obviamente não o quinto homem. Ele parecia ter entrado em alguma espécie de transe raivoso. Não exprimiu um único som, mas seus olhos berravam infâmias de condenação.

Conseguimos contato pelo rádio com alguns companheiros que estavam no pé do morro e solicitamos o resgate do anorak que havia ficado em algum canto da base da via, possivelmente encoberto pelas sombras. Eles, graças à Deus, dispuseram-se a iniciar as buscas no dia seguinte. Caminhei ainda uma meia hora até o primeiro orelhão já perto da ponte do rio. Pedi então resgate para nossa equipe, a partir de Curitiba. Me irmão, e meu herói, chegou lá umas 2 horas depois, levando a chave reserva do carro.

Dali para frente deu tudo certo. Recebi de volta o anorak e a chave realmente estava naquele bolso. Mas nunca mais vi o quinto elemento.

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segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Do piso ao teto

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

8.

Era um projeto ousado. Poucos percorreram toda aquela parede de uma só vez. Se quiséssemos ter a esperança de concluir todo trajeto em um dia, teríamos que correr. Saímos de Curitiba às 5 horas da manhã, abandonamos o carro no pé da serra e percorremos, apressados, o longo trecho que nos levaria à base do impressionante contraforte.

Era um daqueles dias perfeitos de inverno. O céu descortinava, à medida que os vapores da noite subiam e sumiam engolidos pelo sol, um degradê de azuis impossíveis, e a brisa gelada prometia um dia perfeito.

Às 7 horas estávamos na base da parede, preparando-nos para um longo e intenso dia vertical, alternando rocha e mato numa correria para chegar ao cume antes do anoitecer. As primeiras cordadas foram feitas em tempo recorde. Aproveitamos a parte já conhecida da rocha para adiantar o cronograma. Para fazer a parede inteira, do piso ao teto, emendaríamos cinco vias diferentes. Essas emendas eram os trechos mais delicados, desprovidos de qualquer possibilidade de proteção. Além disso, a rocha era bastante suja nessas partes, com cristais soltos, terra, musgos e água escorrendo. Algumas costuras eram feitas em instáveis tufos de taquaras e em certos trechos os esticões eram apavorantes. Tecnicamente não havia nada que qualquer guri com um mês de academia não pudesse facilmente deixar para trás. Mas os nervos floresciam ao sol, encharcados pelo suor tenso e compenetrado. No manejo da corda em uma das paradas, um freio oito decidiu percorrer sozinho o caminho de volta, parede abaixo.

Chegamos ao grande platô, onde ficam as vias mais freqüentadas daquela famosa montanha, no meio da tarde, completamente exaustos. Já tínhamos suportado 8 horas de parede, com breves intervalos para algumas barras de cereais, água e chocolate. Isso sem contar uma hora de caminhada e uma hora de carro desde Curitiba. A alvorada, ainda no conforto da minha casa, tinha sido às 4 horas da manhã.

No grande platô fizemos um lanche mais reforçado, preparamos e bebemos suco instantâneo e nos permitimos alguns minutos de descanso, principalmente aos pés, oprimidos e castigados pelos apertadíssimos calçados próprios para escalada em rocha. Dali para frente seria somente pedra, granito puro, vertical, até o cume daquela montanha.

Se arrependimento matasse, teria caído morto no dia seguinte. Pois não aconteceu que, num momento da mais absurda estupidez, 50 metros acima do platô, a míseros 200 metros do objetivo final, fui tomado por uma mistura de desânimo infantil e medo maricas? De forma absolutamente irracional, tomei, naquele instante, sem pestanejar, a decisão mais infame da minha carreira montanhística. Abortei a missão. Meu companheiro, cabra macho de verdade e um tanto quanto obcecado, conseguiu a adesão de um amigo que havíamos encontrado por acaso no platô, e tocou o projeto até o final. Nos encontramos 3 horas depois, na trilha, por volta das 8 da noite e tocamos morro abaixo à luz das lanternas.

Os momentos mais perigosos que passamos naquele dia, porém, muito mais terríveis que as costuras em taquaras minúsculas, com 10, 15 metros entre uma e outra, ou os trechos escalando à francesa, foi o inconseqüente retorno na estrada até Curitiba. Acordados desde as 4 da madrugada e depois de quase 12 horas na parede e pelo menos umas 4 horas na trilha, pegar a estrada foi uma temeridade. Com dezenas de cochilos periódicos, interrompidos pelos solavancos do carro no acostamento, chegamos em casa um pouco depois das 11 da noite. Ao que me consta, baseado em dados não oficiais, o que mais mata escaladores, estatisticamente, são as viagens de carro. Os mais notáveis nomes internacionais e pessoas queridas e bem próximas de nós são contabilizados nesses números funestos.

Depois de um dia desses o lar é o paraíso na terra. O chuveiro e a cama berravam meu nome, a cama muito mais alto mas, pelo bem do casamento, ouvi primeiro os apelos do chuveiro.

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7. Cadê o caroço
8. Do piso ao teto

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Cadê o caroço

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

7.

O suprassumo da escalada na época, pelo menos para um piazito como eu, era ter a coragem de enfrentar as enormes, imponentes, assustadoras, desafiadoras, terríveis e temerosas paredes de granito do Marumbi. Já tinha escalado uma e outra viazinha no Lineu e no Paredão Preto, mas chegava a sonhar com as paredes realmente comprometedoras do local. Pescando as informações secretas que vazavam abafadas dos montanhistas de verdade, chegamos ao nome daquele que haveria de ser nosso primeiro grande desafio naquele conjunto de montanhas. O Caroço da Esfinge.

Fomos agraciados com um belíssimo croqui, feito de cabeça num naco de papel arrancado às pressas de algum lugar, pelo próprio autor da via (um deles).

Os preparativos para a nobre empreitada assemelhavam-se à um complexo ritual religioso de iniciação. Tudo organizado e planejado com o respeito de alguém prestes a pisar em solo santo.

O roteiro era simples. Acordar de madrugada, pegar o trem, descer na estação do Marumbi, seguir pela Noroeste montanha acima, até o local chamado ‘praça XV’, que deveria ser intuído no meio daquele matagal, um pouco antes da primeira janela. Na praça, a Noroeste ficaria para trás e desceríamos a encosta até cruzar um rio seco no fundo do vale e, voilá, a base do Caroço. Segundo o croqui, os primeiros grampos estariam bem acima na parede e teríamos que iniciar a escalada às cegas, seguindo por uma pequena fissura na rocha.

Foi exatamente o que fizemos. Depois de cumprir à risca todo trajeto, localizamos a fissura na base da parede. Segui por ela, na ponta da corda, por uns 20 metros e nada de grampo ou da bendita corrente que teria de estar por ali. Armei uma parada improvisada em um pequeno platô, utilizando um arbusto relativamente firme. Acocorado no platô minúsculo, seguia meu ritual mecânico e silencioso de esticar a corda para meu companheiro quando avistei um ponto negro minúsculo contrastando com o azul profundo do céu, surgindo por trás do Abrolhos, cruzando a Ponta do Tigre e lançando-se vertiginosamente pelo vale, observando tudo ao seu redor. A penugem parda e escura destacava o bico quase dourado, com a ponta curvada afiada como uma navalha. Naquele momento, tinha-se a nítida impressão de que absolutamente nada lhe escapava da visão. As pontas das asas e do rabo tremiam pelo movimento do vento enquanto a águia cortava o ar sem piedade. A certa altura, inclinou seu corpo para cima, mudando suavemente o plano de vôo, desenhando uma onda no céu, subindo levemente e reduzindo a velocidade como um gato que se prepara para o bote fatal. A cabeça e os olhos permaneciam fixos em algum ponto adiante de mim, mas um pouco abaixo. Encolheu as asas reduzindo-as à metade de sua envergadura e lançou-se em um bote definitivo rumo à vítima inocente que lhe serviria de alimento. Quando estava a ponto de cruzar a minha frente - e eu já podia ouvir o grito do vento sendo rasgado - desenhou, dessa vez muito mais abruptamente, uma nova onda no ar, batendo as asas abobalhadamente como o albatroz de Bernardo e Bianca. Foi nesse instante, quase parada no ar, que a ave virou a cabeça na minha direção, abriu as asas recuperando a compostura e, inclinando o corpo, planou suavemente até o platô onde eu estava. Pousou 2 metros ao lado, sem tirar os olhos de mim. Observou curiosamente cada suave puxada na corda, analisou os movimentos, a roupa e o equipamento. Nossos olhares se cruzaram algumas vezes naqueles segundos. Ela curiosa, eu maravilhado. Num movimento rápido, acompanhado pelo guincho espetacular das aves de rapina, voltou os olhos para o vale e precipitou-se novamente no vazio, possivelmente imaginando que tipo de figura patética eu era.

Daquele platô ainda tentamos subir mais alguns metros, mas a ausência de proteções começou a deixar a situação delicada demais e decidimos descer dali. Concluímos com muita propriedade que alguém deveria ter mudado a via de lugar e reservamos o restante do dia para conhecer toda a base da Esfinge.

Passamos ainda muitas outras noites sonhando com aquelas paredes.

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segunda-feira, 14 de julho de 2008

Sopão

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

6.

A chuva, apesar da terrível decepção e sofrimento potencial que trás a qualquer caminhante, é também, potencialmente, uma grande aliada à um contador de histórias. A maioria dos casos que ficam gravados na memória de um excursionista e, consequentemente, transformam-se em causos dignos de serem contados em rodas de amigos, seja em um boteco, ponto de ônibus, barraca ou cume de montanha, envolvem os desprazeres causados por essa dádiva de Deus, despejada graciosamente sobre justos e injustos.

Em uma de minhas primeiras visitas ao Pico Paraná, ponto culminante da impressionante Serra do Ibitiraquire, permitimos que um grupo inexperiente de aventureiros de sessão da tarde nos usasse como guias e tirasse proveito do nosso cavalheirismo, nobreza, boa-vontade e conhecimento em andanças montanhesas.

A coisa toda foi bizarra.

Começou na estrada de terra. Nós à pé, e os convidados de carro. Carona? Nem pensar. Iria sujar os tapetes do carrão. Como os motoristas não sabiam o caminho, nos acompanharam em todo trajeto. Patético.

No início da trilha, mais uma novela. As mocinhas que vieram ‘conhecer a natureza’, tinham trazido seus pertences espalhados no porta-malas, porque não cabiam em suas bolsinhas minúsculas. Mas isso não era problema. Nós, os experientes e educados pseudo-guias, estávamos equipados com modernas mochilas telescópicas. Confabulamos sobre o número de pessoas e as barracas necessárias, na esperança de poder abandonar algum peso e volume no carro, mas concluímos que seria imprudente. Nossos acompanhantes abelhudos, no entanto, ouviram a conversa e tiraram suas próprias conclusões. Sorrateiramente livraram-se de sua própria barraca, certos de que pessoas tão bondosas como nós cederiam um local seco e seguro para eles. Com um certo esforço coube tudo em nossas costas e iniciamos a caminhada.

O céu estava nublado, cinza chumbo, pesado, prometendo um dia daqueles. Tocamos montanha acima carregando peso para burro, enquanto os visitantes reclamavam da lama, da garoa, do cansaço, do mato, dos mosquitos, da fome, da sede e tudo mais que se possa imaginar. Chegamos ao campo 2 sem visibilidade alguma no horizonte. A garoa engrossou e armamos nossas barracas rapidamente. Ao final da labuta, percebemos que nossos acompanhantes permaneciam imóveis. Soubemos, naquele instante, de sua elegante decisão de deixar a barraca no carro para aliviar o peso, enquanto nós carregávamos suas tranqueiras. Graciosamente, como era de se esperar, cedemos uma de nossas barracas aos folgados e nos apertamos nas que sobraram.

Foi nessa noite, com outros quatro infelizes amontoados em uma barraca de três lugares, que tive meu primeiro contato com um tipo de impermeabilização muitíssimo interessante. A água entrava na barraca sem a menor cerimônia, mas, uma vez lá dentro, não conseguia mais sair. Nossas mochilas tornaram-se ilhas onde cada náufrago permanecia acocorado, tentando manter-se seco. Para aquecer o corpo gelado, arrumamos uma ilhazinha para o fogareiro e colocamos o miojão na panela, na esperança de que, engolindo algo quente, o frio terrível que nos doía nos ossos desse uma trégua. Mas como desgraça pouca é bobagem, minha ilha cedeu, jogando-me na água empoçada. O corpo reagiu de imediato, num movimento descontrolado, atingindo em cheio a panela e o fogareiro. O miojo quentinho virou um sopão gelado, diluído por toda a água da barraca. O jantar foi uma espécie de pescaria nojenta. O macarrão, catado com a mão naquela água gelada e suja, era despejado na boca como uma gosma pegajosa, lembrando aquelas cenas clichês de filme de terror, e descia gelado pela garganta.

A situação tornou-se inaceitável. Saímos todos daquela barraca miserável, implorando por vagas na vizinhança. Graças ao bom Deus meu irmão estava por ali com sua esposa e me cedeu um cantinho apertado, mas seco, em sua barraca minúscula. Os visitantes, tranquilamente acomodados em uma barraca emprestada, que nós carregamos e montamos, barraram os outros dois náufragos. Acharam desagradável demais permitir a entrada daquela gentalha molhada e suja naquela barraca sequinha.

Eu consegui dormir seco. Meus companheiros, sentados em suas ilhas, passaram a noite literalmente ensopados.

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6. Sopão

segunda-feira, 7 de julho de 2008

O raio que o parta

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

5.

Saímos em 12 pessoas abarrotadas dentro de uma Topic alugada. Passaríamos os próximos 5 dias juntos, num pé de serra, encurralados por grandes paredes verticais e dezenas de possibilidades de rotas para alcançar os benditos cumes. Não era a primeira vez que iríamos para lá, mas esperávamos ser a primeira vez que ninguém nos passaria a perna no local. Em outras visitas havíamos sido enganados por taxistas de Kombi abandonando-nos na beira da estrada, jurando de pé junto que a trilha começava ‘logo ali’; restaurantes fantasmas nos serviram, entre outras bizarrices, bistecas no osso, que já vinham mordidas da cozinha; e padarias com produtos superfaturados, especialmente para turistas trouxas. Dessa vez seria diferente. E como.

A expectativa era enorme. Naquela época os croquis de vias e trilhas eram raridades que valiam ouro. Tudo que tínhamos eram dicas sombrias e distorcidas que exigiam grande exercício de imaginação. O trato com a empresa que alugou a Van era pagar a estadia e alimentação do motorista. Dividimos uma barraca e nossos miojos com ele que, graças a Deus, achou a experiência extraordinária.

Chegamos na base das paredes de granito no fim da tarde. Tempo suficiente para nos lançarmos à primeira via. Parte do grupo ficou na base, organizando as barracas e o jantar enquanto o restante se espalhou pelas paredes.

Optamos por uma via fácil, para ser escalada junto com as esposas, só curtindo o visual. As informações coletadas com antecedência definiam a dificuldade da rota como 3º grau. Iniciamos a escaladinha na maior tranqüilidade. Com o passar dos metros, a coisa começou a complicar, não pela dificuldade técnica, mas pela total ausência de proteções na parede. Finalizamos o primeiro esticão diretamente na parada, 25 metros acima do solo, sem nenhum ponto de proteção intermediário. A situação se repetiu no segundo esticão, mas com um agravante. Alguns metros antes da parada surgiu repentinamente por trás da parede um toró de lavar até a alma. Descemos os dois lances de rapel debaixo de muita água e assustadores raios estourando muito próximos de nós. Já na frágil segurança da barraca úmida, encharcados mas felizes, dormimos sonhando com o dia seguinte.

Nos 3 dias que se seguiram, apreciamos um raro espetáculo da natureza. Foram 72 horas de chuva ininterrupta. Às vezes ela nos dava um fiapo de esperança reduzindo-se a uma finíssima garoa. Nesses breves momentos, quase todos saíam das barracas para alternar a umidade de dentro com a de fora. Quase todos. Um de nós conseguiu a proeza de passar todo esse tempo sem nem botar a cabeça para fora. Certamente se algum fiscal do Guinnes estivesse por ali, dava pra enquadrar o cara em algum tipo de recorde mundial.

O que tornou a viagem menos traumática foi a noite que passamos conversando com um morador do local, na boca do fogão à lenha da sua simpática casinha de madeira. Nós, habitantes da urbis, falávamos e gesticulávamos contando histórias, ora exagerando um pouco, ora mentindo descaradamente, possivelmente compensando as longas horas de imobilidade na barraca. O dono da casa nos observava com a curiosidade de quem observa pela primeira vez chipanzés correndo em uma jaula. No ritmo deliciosamente lento de quem mora no interior, alimentava o fogo que nos aquecia, sentado sobre os calcanhares como se estivesse em uma confortável cadeira na sala de estar.

Motivados pelo tempo chuvoso, nossas histórias rodavam o assunto das tempestades e raios nos cumes da montanha, dos cabelos erguidos pela estática, dos leves choques sentidos quando a mão tocava o solo úmido e dos horrores dessas sensações. Foi quando alguém olhou diretamente nos olhos daquele senhor, perguntando-lhe se ele mesmo não havia vivido alguma experiência interessante com tempestades e relâmpagos. Com movimentos lentos e o semblante inabalável de quem não entende em absoluto a nossa empolgação, aquele senhor finalmente abriu a boca:

- Uns anos atrás eu e meu irmão ‘tava roçano’ o mato ali atrás. Quando ele levantou a enxada, um raio pegou ele e matou.

O homem, com aquele típico olhar triste do interior, colocou mais um pedaço de madeira no fogo enquanto mantínhamos um profundo e constrangido silêncio.

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No último dia o sol brilhou a tempo de secar parcialmente as barracas. Nos despedimos do morro tomando uma garapa espremida à manivela na casa daquele senhor e conhecendo a espetacular coleção de plantas extraordinárias de sua simpaticíssima esposa.

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Acompanhe:
Incríveis histórias medíocres de montanha – a série
1. Apresentação
2. O menino de asas
3. Queda livre

4. Às vezes falha

5. O Raio que o parta

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Às vezes falha

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

4.
Chegamos na estrada no meio da tarde. Era um corte estreito na densa floresta, que ligava a restinga litorânea à uma pequena cidade na beira da BR. Do ponto em que chegamos até a cidadezinha, teríamos ainda que percorrer cerca de 50 km.

Desde que saímos de casa, dois dias antes, o tempo permaneceu insistentemente chuvoso. A lama e água acumuladas nas botas sovaram os pés até a carne. Era inverno e o frio úmido castigava os ossos. Não tínhamos força nem disposição para percorrer esse trecho final. No dia seguinte, todos tínhamos que estar trabalhando.

Nos sentamos ofegantes na beira da estrada, sem ânimo para prosseguir e sem saber ao certo o que fazer. Foi quando surgiu no horizonte uma pequena mancha que acompanhava o desenho da estrada. Segundos depois ouvimos o ronco do motor de um caminhão. Não poderíamos de forma alguma deixar a chance escapar. Atravessamos as mochilas na rua e nos ajoelhamos sobre elas, com as mãos juntas em clamor. Sem outra alternativa, o motorista parou. Ficamos eufóricos quando o bom homem nos permitiu subir na caçamba, oferecendo-nos carona até quase a divisa com o Paraná. Rodamos 80 km na chuva, em uma gelada noite de inverno, do lado de fora do caminhão. Só quando paramos na frente de um hotelzinho, numa pequena cidade de beira de estrada, é que percebemos que um de nós estava desmaiado, com um princípio de hipotermia. O hotel era terrível, mas veio em excelente hora. Dormimos como anjos em três beliches socados em um quarto minúsculo, depois de um banho gelado no banheiro coletivo que ficava no fim do corredor.

Ainda de madrugada embarcamos rumo à correria de nossas vidas urbanas e todas as suas urgências e preocupações. Afinal de contas, estamos mesmo presos à roda-viva da produtividade, salvos apenas em alguns instantes, por saborosas escapadas.

Existe, no entanto, uma espécie de ser humano cada vez mais raro, que vive completamente alienado das urgências maiores que assolam a humanidade. Eles simplesmente ignoram os conflitos do oriente médio, a corrupção do senado, as loucuras do Bush, a incoerência do Lula, as oscilações da bolsa e, pasmem, até mesmo os resultados da última rodada do campeonato brasileiro. Vivem alheios às urgências que aprisionam a todos nós, civilizados, estudados, comprometidos com o futuro e responsáveis por ele. Esses estranhos homens vivem, simplesmente, um dia depois do outro. Sem nem darem-se conta disso, seguem o conselho de um judeu louco que andou por aí 2 mil anos atrás. Olham para a natureza e aprendem com ela a não se preocupar com o dia de amanhã. Conversar com esse tipo raro de gente é uma dádiva. Havíamos encontrado alguns desses sujeitos dois dias antes, no início da travessia. Com um deles, travamos um curto mas prodigioso diálogo.

Tínhamos previsto 3 dias para completar o trajeto. Hora para sair, hora para chegar, compromissos antes e depois. Os passos teriam que ser contados cuidadosamente, para completar cada etapa a tempo de encarar os compromissos posteriores. No final do primeiro dia, planejando o dia seguinte, cientes do que teríamos pela frente, fomos buscar informações com um dos moradores daquela minúscula vila ilhada por densa floresta. Sabíamos que, no dia seguinte, depois de caminhar longas horas, chegaríamos naquela pequena estrada de terra e que daquele ponto até a cidade mais próxima, teríamos terríveis 50 km para percorrer. O homem estava sentado sobre os calcanhares, na porta de sua casa, afiando sem o menor compromisso alguma coisa com um facão e baforando um palheiro. Puxamos um dedo de prosa, obviamente mais interessados na informação do que no papo. Precisávamos saber se naquela estradinha, já no estado de São Paulo, passava algum ônibus ou outra espécie de condução coletiva.

– Passa sim – respondeu o homem, com toda naturalidade. Enquanto esboçávamos um sorriso de satisfação, o matuto completou:

– Toda terça.

Era uma sexta. E no meio do desespero geral, ainda deu a punhalada final:

– Mas ‘as veiz fáia’.

Incríveis histórias medíocres de montanha - a série

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Incríveis histórias medíocres de montanha – a série
1. Apresentação
2. O menino de asas
3. Queda livre

4. Às vezes falha

terça-feira, 10 de junho de 2008

Queda livre

Incríveis histórias medíocres de montanha - a série

3.
O tempo estava perfeito. Céu azul, vento fresco, intensidade média, soprando continuamente do litoral. Ao meio-dia teria um almoço gostoso na casa de quem, um ano depois, viria a se tornar meu sogro. Tínhamos que sair cedo e voltar rapidamente. O tempo estava tão perfeito que dispensamos tudo que o bom senso exige. Rumamos ao descampado da decolagem de sandálias, bermuda e camiseta, abandonamos o rádio comunicador em casa e, pra fechar com chave de ouro, voávamos sem o pára-quedas reserva, que, aliás, nunca tivemos. Afinal, o que poderia dar errado?

Vôo livre no litoral costuma ser coisa tranqüila. O vento que vem do mar sopra lisinho, sem as turbulências do relevo e variação de temperatura do interior, onde bolhas invisíveis de ar quente se desprendem do solo fazendo a festa dos urubus e parapentes. Qualquer morro com um desnível razoável voltado para o mar faz o vento subir, acompanhando o relevo e mantendo os voadores por longas horas no ar.

Nessas condições, era importantíssimo manter viva na cabeça a idéia do almoço ao meio-dia, para não cometer a infração do atraso, falta gravíssima na família da mulher com quem eu pretendia me casar.

Abrimos as velas na encosta, nos conectamos a elas e corremos, numa espécie de ameaça de suicídio, em direção às ondas que rebentavam nas rochas. Foram necessários poucos passos antes do corpo ser arrancado do chão e lançado aos céus. O vento era suficiente para nos manter no ar, mas não tinha forças para nos levar além da crista da pequena serra litorânea. Vagamos num vai e vem celestial por alguns minutos, quando resolvi aproximar-me da encosta para ampliar meus horizontes. Guloso, insatisfeito com tudo que já tinha, queria ir além e vislumbrar as praias que se escondiam ao norte, atrás daquele morro.

Aqui é preciso um rápido esclarecimento para quem não sabe como funcionam os inquietos ventos na superfície do planeta. O deslocamento de ar que avança sobre um relevo o acompanha, como não é difícil de imaginar. O vento que bate na face de um morro, sobe esse morro e, por estar subindo, mantém parapentes, urubus e folhas secas no ar. É o que chamamos tecnicamente de lift. O interessante aqui, e que merece todo destaque nessa história, é o que acontece com esse vento logo atrás do morro. Como ele passa em velocidade pelo ponto culminante do relevo, logo atrás deste cria-se uma espécie de vácuo que suga o próprio vento para baixo. O ar então se choca novamente contra o relevo e sobe outra vez, mas no sentido contrário. Isso é tecnicamente chamado de rotor. Dá pra imaginar que nem urubus e muito menos parapentes - que não podem bater asas pra se safar - gostariam de entrar em uma região de rotor. Esclarecido isso, podemos continuar.

Como o vento não tinha, naquele momento, intensidade suficiente para me levar acima do cume à uma distância segura dele, aproximei-me para forçar essa altura. Manobra de sucesso. Observei todo faceiro as praias do norte, considerando-me um espertalhão. Foi quando meu aguçado senso de responsabilidade lembrou-me que o almoço no sogro já deveria estar quase sendo servido. Aprumei o parapente na direção do pouso e... nada. Não saí do lugar. Misteriosamente, bem na linha do cume, a poucos e ameaçadores metros da região de rotor, exatamente naquele infeliz momento, o vento aumentou de intensidade. Um parapente não pode voar contra o vento se a intensidade dele for maior que a velocidade da vela. Pois foi justamente o que aconteceu. O vento começou a levar-me para trás, em direção ao rotor, enquanto meu olhos arregalavam-se.

Daí em diante, iniciou-se um devastador processo de afloramento do mais puro desespero. Cerca de cem metros à frente e alguns abaixo de mim, estava meu parceiro de vôo. Tomado de incontrolável pavor, iniciei com ele um profundo diálogo, aos berros:

- Tô indo pro rotor!
- Acelera!
- Tô acelerando!
- Acelera com tudo!
- *@#&!
- Vira!
- Já virei! Tô entrando no rotor!
- Acelera!!!
- *@#&!!!!! Rotor! Rotor!

Com um leve solavanco, iniciou-se a fase 1 da máquina de lavar roupa, quando o motor aos poucos vence a inércia e começa a chacoalhar aquele monte de tecido. A partir daí, a roupa sabe que não há como escapar. Depois de longos segundos de chacoalhões e solavancos, a vela, que antes me sustentava graciosamente, transformou-se em um horrível pano de chão, que batia ao vento como a bandeirinha que penduramos na antena do carro em época de copa do mundo. Abaixo de mim cresciam loucamente as árvores, com suas bocas escancaradas e dentes a mostra, salivando, prontas pra me devorar.

Eu devia estar a pouco mais de cem metros de altura no momento em que a vela fechou e comecei a despencar como aquela maçã que caiu na cabeça de Isaac Newton. Quando, de olhos espremidos e com todos os músculos tensionados, estava pronto para libertar meu espírito do corpo espatifado, milagrosamente a mão de um anjo puxou a ponta da vela pra fora do emaranhado de linhas. Senti inesperada e redentora pressão no corpo e, ao invés de cair como uma pedra, fui lançado à frente, atravessando algumas copas de árvores, rompendo galhos, rasgando a pele, comendo folhas, até encontrar de frente o suave tronco de uma palmeira.

Os segundo que se seguiram foram inundados de profunda paz, até que a pele, os nervos e especialmente o joelho, que foi a primeira parte do corpo a encontrar-se com o tronco da palmeira, começaram a gritar.

Era perto do meio-dia. Meus pais em uma casa e meus sogros e minha noiva em outra, com o almoço quase pronto, observavam de longe a dança dos parapentes no céu, quando um deles, estranhamente, desapareceu. O almoço, definitivamente, iria atrasar.

Esperei cerca de meia hora até que o corpo tivesse novamente condições de responder às ordens do cérebro sem vibrar como uma taquara verde. A vela havia enroscado na copa das árvores e eu estava pendente, há 3 metros do chão. Imaginei absolutamente improvável que me encontrassem ali. Apesar da dor, cri que a melhor saída seria tentar chegar à praia por conta própria. Caminhei por 6 horas, chegando bem próximo do desespero quando a noite caía. Tive que atravessar imensas ilhas de ‘capim navalha’. Estava tão cortado que lembraria de longe a figura do Cristo do Mel Gibson. O sangue coagulado na pele, misturado com mato, poeira, lama e suor, me dava o aspecto de algum personagem de filme de terror trash.

Quando eu já não suportava mais o cansaço e os últimos lampejos de claridade eram vencidos pela noite, dei de cara com uma enorme pedra cercada de bromélias espinhentas bloqueando completamente o caminho. Teria que fazer uma grande volta para desviar essa parede de rocha e espinhos. Procurei, completamente desanimado, por alguma outra alternativa, e percebi um pequeno buraco na base da rocha. Olhando de perto, pude ver um fiapo de claridade do outro lado, alguns metros abaixo de onde eu estava. Sem forças para refletir, me joguei buraco adentro e deslizei até a luz do outro lado. Parei numa espécie de gruta e já pensava seriamente em só levantar dali no dia seguinte quando, com o canto do olho, encontrei a salvação.

Uma boa dose de novo ânimo me encheu de forças. Um cano de captação de água saía debaixo da grande rocha e descia a encosta do morro absolutamente à mostra. Segui o caninho por uns 20 minutos até uma caixa d´água, que dava no quintal de uma casa. Alguns homens que tomavam chimarrão no quintal, jogando conversa fora, me viram descer rolando o barranco e atravessar seu quintal cambaleante. Me acompanharam com os olhos arregalados e ainda me permitiram beber uns goles de água na torneira do jardim. Eu sabia exatamente onde estava agora. Há 200 metros dali estava meu carro, e a chave permanecia heroicamente no bolso da bermuda.

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O sol já havia desaparecido no poente, e o denso azul petróleo subia do mar começando a descortinar as primeiras estrelas. Desci do carro e caminhei pela praia até a pousada onde meus pais estavam hospedados. Passava das 19 horas. Vi meu pai em pé, com a água do mar lambendo seus pés e o olhar perdido no horizonte. Meu sobrinho estava em seu colo. Cheguei mancando mansamente até ele e toquei suas costas, sem dizer uma palavra. Estava cansado demais para falar. Meu pobre, sensível e pessimista pai, que a essas alturas já imaginava como seria a vida dali para frente sem o filho caçula, não resistiu àquela estranha visão. O corpo disforme, sujo, ensangüentado e descabelado, na penumbra do poente, deve ter-lhe parecido com alguma aparição bizarra. Despencou no chão levando junto meu sobrinho. Mas no instante seguinte já estava em pé, me deixando na praia com a criança enquanto corria para avisar os outros sobre a novidade.

Em seguida tomei o mais dolorido banho de mar da minha vida, e um terrível banho de água oxigenada para purificar.

No dia seguinte, com as calças e meias grudando nas feridas das pernas e pés, ainda fui com meu parceiro fiel buscar os restos mortais do parapente.

Nunca mais voei de sandálias.

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Incríveis histórias medíocres de montanha – a série
1. Apresentação
2. O menino de asas
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