Que esse é o ponto em que chegamos, é mais do que evidente. Que lhe joguem isso na cara como se fosse uma virtude é triste e deplorável.
Assista, antes de continuar, o vídeo acima.
O convite para a aventura que não abre mão do conforto é degradante, mas tolerável. Querem nos convencer que a vida é inseparável de um assento estofado de couro e que é possível aventurar-se sem sujar os pés de lama e a camisa de suor. Não creio, mas até engulo. Intragável mesmo, definitivamente nauseante, é argumentar, sob a segurança de freios ABS, que viver não é mais suficiente! Afinal de contas, meus caros amigos, a Amarok deixa orgulhosamente claro para todos nós que, melhor do que chegar longe, melhor do que viver, do que experimentar, é contar para todo mundo que você chegou. É a feicebuquização da humanidade. Dá pra fazer um downgrade no sistema?
Veja também:
- Queijo cremoso e o fim da humanidade
- Ratos
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terça-feira, 16 de setembro de 2014
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
O primeiro comunista
Estava sentado no lado esquerdo do sofá quando li mais um interessantíssimo, como era de se esperar, texto do Paulo Brabo sobre a política de direita e esquerda. Acontece que havia ali um inocente link que me levou até um texto incrível, no mal sentido, como era de se esperar, de Norma Braga, sobre o mesmo tema. Era também de se esperar que minha curiosidade masoquista me levasse até os comentários no rodapé de Norma. Inesperado, porém, foi encontrar ali a revelação que me desconcertou. Judas, o traidor, foi também o primeiro comunista. E isso ficou patente para aquele comentarista por ter Judas tido a pretensão de propor distribuir as riquezas advindas da venda do vaso de alabastro que uma mulher lhe despejava aos pés. Evidentemente o Cristo tratou logo de rechaçar a ideia daquele esquerdista distributivista (foi esse o termo usado no comentário - alterei para comunista no título por questões estéticas e por maldade - comunista dá mais arrepio na espinha) colocando-o no seu devido lugar.
Ironias à parte, é evidente que esse argumento é fraquíssimo e insustentável a ponto de a própria Norma, façamos jus a ela, não aceitá-lo, como ela mesma deixou claro em outro comentário no mesmo post. Mas é também evidente que argumentos fraquíssimos são usados por multidões e podem convencer incautos pegos de sopetão, chegando ao ponto de se tornarem quase uma unanimidade em determinados e desavisados grupos. Por esse motivo achei que valia a pena registrar aqui um fato pouco mencionado a respeito desse diálogo rápido entre Jesus e aquele comunistazinho traidor. Quem sabe algum desses que caiu no caldeirão da direita sem querer resolva pular para fora antes que o tempero pegue.
Segundo o relato dos evangelhos, Iscariotes, o traidor, teria ficado doido ao ver uma mulher derramando um perfume caro aos pés do mestre. Mais doido ainda ele ficou com o Mestre, que nada fez para coibir a moça. Judas então propõe ao seu Rabi e a rapaziada toda que o acompanhava que melhor seria vender o perfume e distribuir o dinheiro aos necessitados. Ao ouvir tamanha heresia, o mestre mandou a frase que está na ponta da língua de um número enorme de conservadores de direita conscientes ou não de o serem. Pois a frase de Jesus, que não duvido ser um ímã na geladeira de Olavo de Carvalho e seus seguidores, não foi nada mais do que a citação de um comprometedor texto do velho testamento.
Quando afirma, olhando no olho de Judas, que "sempre haverá pobres na terra ", Jesus está mencionando um trecho de Deuteronômio 15 à uma plateia que conhece muito bem o texto e o contexto. Ele faz referência a um pedaço de lei mosaica que todos à mesa sabiam bem qual era e o que exigia deles. Ele estava dizendo que aquele trocado arrecadado com a venda do perfume era irrisório diante da enormidade da exigência que lutar pelo fim da pobreza e por justiça social exigia. Ele está provocando-os a fazerem muito mais do que propôs o tesoureiro.
No final de cada sete anos as dívidas deverão ser canceladas. Isso deverá ser feito da seguinte forma: Todo credor cancelará o empréstimo que fez ao seu próximo. Nenhum israelita exigirá pagamento de seu próximo ou de seu parente, porque foi proclamado o tempo do Senhor para o cancelamento das dívidas.
Quer programa de distribuição de renda maior que esse? Pois o texto continua:
Assim, não deverá haver pobre algum no meio de vocês, pois na terra que o Senhor, o seu Deus, lhes está dando como herança para que dela tomem posse, ele os abençoará ricamente, contanto que obedeçam em tudo ao Senhor, ao seu Deus, e colocarem em prática toda esta lei que hoje lhes estou dando.
Ãhn? O Deus de Israel parece estar indicando que se tudo for feito conforme o figurino não haverá pobres entre eles e, portanto, se houver pobres entre eles é porque as coisas não estão andando como deviam, ou seja, alguns estão acumulando demais e outros empobrecendo. Não há aqui nenhuma referência à meritocracia, pelo contrário. A teoria do mérito prevê que quem enriquece, enriquece porque merece e, do ponto de vista teológico, merece porque obedece. O texto inverte, afirmando que se todo mundo obedecesse, ninguém enriqueceria porque tudo seria repetidamente redistribuído para o bem do coletivo.
É só depois de afirmar o que está dito acima que chegamos ao trecho citado por Jesus que, não custa lembrar, sabia muito bem o que estava dito acima.
Sempre haverá pobres na terra. Portanto, eu lhe ordeno que abra o coração para o seu irmão israelita, tanto para o pobre como para o necessitado de sua terra.
Aí está. O texto que afirma a existência eterna do pobre o faz não como quem observa um fato inevitável contra o qual não vale a pena lutar, mas como quem lamenta o fato de que nem Israel nem nós nem ninguém age como deveria agir, ao contrário, estamos todos lutando e nos devorando mutuamente na esperança de acumular um pouco mais, e conclui nos ordenando abrir o coração e deixar de lado essa antropofagia meritocrata (eu devoro você porque mereço, porque lutei pra subir uns degraus na cadeia alimentar social - se quiser me devorar faça o mesmo).
Judas, evidentemente, não foi o primeiro esquerdita distributivista da história. Antes dele houve Moisés, e Isaías, e todos os profetas e seus clamores. Depois dele vieram outros muitos, mas, infelizmente, nunca o suficiente.
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
Algoritmos - Os novos senhores do mundo
A internet (e isso, atualmente, é o mesmo que o Google e o Facebook) é o deus onipresente da sociedade contemporânea. O sujeito que se torna o feliz proprietário de um dispositivo móvel transforma-se, ele mesmo, em um gadget ambulante, tendo sua identidade absorvida pela conexão de uma forma assustadoramente matrixiana. E o faz absolutamente desprovido de medos e reservas, completamente confiante na bondade desse seu novo mestre.
Anunciamos e louvamos e comercializamos a internet como ferramenta libertária à nosso dispor. É o instrumento que derrubará as muralhas que nos separam e ampliará nossos horizontes até um limite jamais conhecido. Seremos todos libertos dos grandes, dos poderosos, dos senhores do mundo, que segregam, separam, excluem, principalmente através da manipulação da informação pelas grandes mídias que detinham, até pouco tempo, esse poder exclusivo e assombroso de informar. Mas não mais. Agora, é o que pensamos, temos acesso à tudo.
Será?
Na sua interessante palestra para o TED, Eli Pariser esclarece de forma bastante superficial e já um tanto assustadora a forma como trocamos os filtros impostos pelas grandes corporações de comunicação por filtros inexplicáveis e incompreensíveis de algoritmos (http://pt.wikipedia.org/wiki/Algoritmo) robóticos, usados nas ferramentas de pesquisa na internet, sejam elas quais forem. Se você deseja encontrar um livro, digamos, e digita na sua ferramenta de busca favorita o título do mesmo, acionará, no instante em que clicar no 'enter', uma lógica robótica que você mesmo nem imagina existir que fará a seleção automática e instantânea do que você busca. E qual é o motor que alimenta esses algoritmos? Baseado em que ele decide o que você gostaria de ver? Em marketing e vendas. Tão somente e simplesmente isso.
Sim, meus amigos, Google, Facebook e seus pares tem um único interesse e dedicam milhões e milhões no aprimoramento de suas ferramentas de busca para alcançá-lo. Todos os seus movimentos na world wide web são sistematicamente avaliados. Suas buscas, seus cliques, os movimentos de seu mouse ou dedo sobre a tela e monitorado com o único objetivo de gerar receita. Vender. Causar cliques que incrementem o consumo. E para isso, segregam sua busca, filtram, direcionam, ocultam, deflagram, suam bits aos cântaros, incansavelmente, colocando ao seu alcance somente aquilo que tenha potencial para induzi-lo a algum clique rentável.
Os senhores do mundo ainda estão por aí. Ainda seremos manipulados. Somente a forma é que mudou.
Anunciamos e louvamos e comercializamos a internet como ferramenta libertária à nosso dispor. É o instrumento que derrubará as muralhas que nos separam e ampliará nossos horizontes até um limite jamais conhecido. Seremos todos libertos dos grandes, dos poderosos, dos senhores do mundo, que segregam, separam, excluem, principalmente através da manipulação da informação pelas grandes mídias que detinham, até pouco tempo, esse poder exclusivo e assombroso de informar. Mas não mais. Agora, é o que pensamos, temos acesso à tudo.
Será?
Na sua interessante palestra para o TED, Eli Pariser esclarece de forma bastante superficial e já um tanto assustadora a forma como trocamos os filtros impostos pelas grandes corporações de comunicação por filtros inexplicáveis e incompreensíveis de algoritmos (http://pt.wikipedia.org/wiki/Algoritmo) robóticos, usados nas ferramentas de pesquisa na internet, sejam elas quais forem. Se você deseja encontrar um livro, digamos, e digita na sua ferramenta de busca favorita o título do mesmo, acionará, no instante em que clicar no 'enter', uma lógica robótica que você mesmo nem imagina existir que fará a seleção automática e instantânea do que você busca. E qual é o motor que alimenta esses algoritmos? Baseado em que ele decide o que você gostaria de ver? Em marketing e vendas. Tão somente e simplesmente isso.
Sim, meus amigos, Google, Facebook e seus pares tem um único interesse e dedicam milhões e milhões no aprimoramento de suas ferramentas de busca para alcançá-lo. Todos os seus movimentos na world wide web são sistematicamente avaliados. Suas buscas, seus cliques, os movimentos de seu mouse ou dedo sobre a tela e monitorado com o único objetivo de gerar receita. Vender. Causar cliques que incrementem o consumo. E para isso, segregam sua busca, filtram, direcionam, ocultam, deflagram, suam bits aos cântaros, incansavelmente, colocando ao seu alcance somente aquilo que tenha potencial para induzi-lo a algum clique rentável.
Os senhores do mundo ainda estão por aí. Ainda seremos manipulados. Somente a forma é que mudou.
Não deixe de assistir a palestra de Eli Pariser No TED. Menos de 10 minutos.
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Som da rua
"La muerte a mi no me coge,
no me coge descuidado"
Conheça o belíssimo projeto "Son Callejero".
A orquestra de salsa de moradores de rua de Bogotá.
Veja o site dos caras.
Ouça o CD.
Acompanhe a foto reportagem.
"Yo soy hijo del asfalto
Protegido de la noche
Yo tengo por dentro el cielo
Y los prados por colchón
Las calles son mias
Soy callejero"
"Camina caminador, no te detengas, el mundo tiene valor y mil belezas[...] Camina caminador, sigue el camino del amor"
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
A linha que tracei
Era torta a linha que tracei.
Não sinuosa. Não oblíqua.
Torta mesmo. Disforme. Mas tracei.
E tracei forte e de uma vez só.
Sem ficar remendando e passando por cima duas, cinco, dez vezes.
Não. Sem aquela neurose de consertar linha que já foi traçada.
E foi à caneta, em papel jornal.
Estava convicto, estava confiante.
Não de que fosse a linha certa no lugar certo,
ou que conseguiria traçá-la reta;
mas de que chegara a hora de tentar.
Respirei fundo. Enchi o peito.
E risquei.
Arrisquei.
Mais uma entre tantas.
Todas tortas.
Porque penso reto, mas traço torto.
Veja também:
Nada de nada
Não sinuosa. Não oblíqua.
Torta mesmo. Disforme. Mas tracei.
E tracei forte e de uma vez só.
Sem ficar remendando e passando por cima duas, cinco, dez vezes.
Não. Sem aquela neurose de consertar linha que já foi traçada.
E foi à caneta, em papel jornal.
Estava convicto, estava confiante.
Não de que fosse a linha certa no lugar certo,
ou que conseguiria traçá-la reta;
mas de que chegara a hora de tentar.
Respirei fundo. Enchi o peito.
E risquei.
Arrisquei.
Mais uma entre tantas.
Todas tortas.
Porque penso reto, mas traço torto.
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Nada de nada
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segunda-feira, 29 de julho de 2013
Engrenagem
Cada um tem seu lugar, nessa grande máquina de produção e consumo. Contente-se com o seu. É triste, mas é mais fácil.
Ou comece a reinventar a máquina. Será terrível, será perigoso, será incerto, será obscuro, haverá oposição, fará você estar entre os loucos, os desvairados, os insanos, os insensatos. Será um fracasso, a curto prazo. A longo prazo, não sei o que será. Imagino que valerá a pena.
O problema é ter coragem para tanto.
terça-feira, 18 de junho de 2013
Ouro e espelho
Comíamos pouco nos dias que passamos na Nigéria. O dia todo era pão com manteiga e água, e um chazinho quente de manhã que, com duas colheres de abençoado leite em pó, era adoçado como nos filmes. Me sentia em Londres tomando chá com 2 pedrinhas de açúcar. Depois disso era aquela correria de um lado para outro, registrando o trabalho diário da ONG Caminho Nações na luta contra a estigmatização de crianças naquele país. Só à noite é que parávamos num restaurantezinho para a refeição mais apimentada que já vi na vida. Se duvída, repare no temperinho de pimenta jogado sobre o frango no final desse vídeo.
O pão e a manteiga vinham de um mercadinho minúsculo, todo bagunçado, iluminado à velas e lampiões à querosene, próximo de onde estávamos hospedados. Até que chegou o dia em que decidimos tentar uma compra maior e mais diversificada, em algum lugar que inspirasse mais confiança e lembrasse um supermercado aqui da nossa terra. Foi quando descobrimos que não havia nenhum. Que, onde estávamos, os suprimentos, sejam quais fossem, deveriam ser comprados em algum dos muitos e muitos mercadinhos minúsculos e bagunçados, iluminados à vela. Não havia nenhuma alternativa mais 'civilizada' e confesso, envergonhado, que quando descobri isso senti uma pontada de horror. Que fim de mundo era aquele sem um supermercado de verdade?
Só depois de algum tempo é que fui me dando conta do quanto, como diria minha avó, o hábito faz o monge. Estava eu ali, um brasileiro classe média, no delta do Níger, acostumado à toda sofisticação do mundo moderno (e, acredite, somos um país avançadíssimo, coisa chique mesmo, se comparado à Nigéria) resmungando inconformado com a ausência de um supermercado decente naquele canto da África Ocidental.
Eu queria o Big, o Wall Mart, o Carrefour. Queria uma multinacional se instalando por ali, levando todas as centenas de mercadinhos à falência e contratado a massa falida a preço de banana. Queria que o grupo Sonae entrasse devorando tudo, abocanhando famílias, aumentando seu lucro às custas dos produtores locais, desde que me oferecesse um lugar bonito, climatizado, espaçoso e organizado. Queria o progresso à qualquer custo.
É incrível como somos moldados pelo meio.
Quero que a Nigéria cresça. Tem muita miséria por lá. Quero, acima de tudo, que a estigmatização infantil acabe e que crianças tenham esperança num futuro melhor. Quero educação, trabalho, renda e saneamento básico por lá tanto quando aqui, ou no sertão do Pajeú. Mas torço para que as melhorias não engulam o povo oferecendo em troca a ilusão do conforto. Que ninguém mais, em lugar nenhum, troque ouro por espelho.
-------
Conheça o trabalho do Caminho Nações na Nigéria
Saiba como você, como eu, está aos poucos tornando-se um rato
O pão e a manteiga vinham de um mercadinho minúsculo, todo bagunçado, iluminado à velas e lampiões à querosene, próximo de onde estávamos hospedados. Até que chegou o dia em que decidimos tentar uma compra maior e mais diversificada, em algum lugar que inspirasse mais confiança e lembrasse um supermercado aqui da nossa terra. Foi quando descobrimos que não havia nenhum. Que, onde estávamos, os suprimentos, sejam quais fossem, deveriam ser comprados em algum dos muitos e muitos mercadinhos minúsculos e bagunçados, iluminados à vela. Não havia nenhuma alternativa mais 'civilizada' e confesso, envergonhado, que quando descobri isso senti uma pontada de horror. Que fim de mundo era aquele sem um supermercado de verdade?
Só depois de algum tempo é que fui me dando conta do quanto, como diria minha avó, o hábito faz o monge. Estava eu ali, um brasileiro classe média, no delta do Níger, acostumado à toda sofisticação do mundo moderno (e, acredite, somos um país avançadíssimo, coisa chique mesmo, se comparado à Nigéria) resmungando inconformado com a ausência de um supermercado decente naquele canto da África Ocidental.
Eu queria o Big, o Wall Mart, o Carrefour. Queria uma multinacional se instalando por ali, levando todas as centenas de mercadinhos à falência e contratado a massa falida a preço de banana. Queria que o grupo Sonae entrasse devorando tudo, abocanhando famílias, aumentando seu lucro às custas dos produtores locais, desde que me oferecesse um lugar bonito, climatizado, espaçoso e organizado. Queria o progresso à qualquer custo.
É incrível como somos moldados pelo meio.
Quero que a Nigéria cresça. Tem muita miséria por lá. Quero, acima de tudo, que a estigmatização infantil acabe e que crianças tenham esperança num futuro melhor. Quero educação, trabalho, renda e saneamento básico por lá tanto quando aqui, ou no sertão do Pajeú. Mas torço para que as melhorias não engulam o povo oferecendo em troca a ilusão do conforto. Que ninguém mais, em lugar nenhum, troque ouro por espelho.
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Conheça o trabalho do Caminho Nações na Nigéria
Saiba como você, como eu, está aos poucos tornando-se um rato
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segunda-feira, 10 de junho de 2013
Luz e trevas

Elmiro caminhava sozinho no ermo da floresta escura que ladeava sua casa. A luz trêmula do lampião queimava banha de porco iluminando discretamente o caminho e temperando-o com o aroma pesado da gordura queimada. Era pouco óleo e Elmiro esperava alcançar os limites da floresta antes da luz extinguir-se. O som que ecoava no mato era vibrante, vivo, intenso e tenso.
A chama se apagou quando o velho já avistava adiante o azulado da luz da lua refletindo difuso no nevoeiro que lambia sereno o pasto verde do seu sítio. Elmiro parou no limite da floresta, sentou no tronco seco do cambucá que fora derrubado a machado pelo seu avô para fazer os moirões que cercavam a bicharada e permaneciam lá, firmes, há cinco décadas. Sentado na beira do tronco, ergueu a cabeça lentamente para deleitar-se na visão que lhe enlevava a alma.
Viajou os olhos solenemente pelas estrelas, constelações, nebulosas, planetas e meteoros enquanto sentia a brisa gelada e úmida da noite molhar sua face sulcada por um emaranhando incrível de rugas profundas. As gotas do orvalho escorriam lentamente pelos labirintos de seu rosto. Agora de olhos fechados, Elmiro lembrava do luar incrível que vira no ano anterior quando tropeirava solitário pelas serranias de Campos Novos. Salgou o orvalho com lágrimas pela simples lembrança do vapor azulado subindo do corpo quente de seu cavalo, dançando à luz do luar em movimentos imponderáveis, naquela noite belíssima.
O cheiro do café já alcançava a beirada da floresta. Era hora de aquecer-se em casa.
***
A partir do século 18, e de forma definitivamente empolgante, o iluminismo fez nossos olhos se abrirem para um universo novo de conhecimento. Os misticismos antigos foram um a um sendo iluminados pela luz das novas e incontestáveis descobertas. E viu o homem que isso era bom, diria com muito acerto a versão humanista da poesia de gênesis.
Um universo de escuridão se dissipa em um clique. Se não for no interruptor, será no google. E a luz deitará sobre nós. E todas as trevas serão dissipadas.
Mas a luz que a ciência nos lançou apagou as estrelas. Nos movimentos frenéticos de nossos centros urbanos não há mais espaço para nebulosas, estrelas cadentes e vapores azuis dançando ao luar. Nem para os mistérios que essas visões evocam. Nossas lâmpadas iluminam o ambiente que vivemos, e isso é uma bênção, mas apagam para sempre os mistérios indecifráveis da noite e os movimentos que suas asas suaves embalavam na alma do homem.
Um amigo me fez lembrar da frase de Carl Sagan: É melhor saber do que crer. Saber é bom, disso ninguém tem dúvida, mas jamais saberemos o suficiente. Crer e saber podem andar juntos, de mãos dadas, e dançar nas noites escuras e geladas, sob a luz do luar.
segunda-feira, 13 de maio de 2013
Quando sentir falta
Falávamos da figura do pastor, no debate organizado em Joinville sobre o livro "Igreja entre aspas". A questão era onde iria parar o pastor quando não houvesse estrutura e cargo e local e ordenação, conforme o livro parecia propor ser possível, talvez ideal. E surge de uma moça possivelmente solteira, talvez preocupada com seu futuro, a pergunta que lhe afligia a alma: "e quando alguém vai casar, quem faz a cerimônia?".
É incrível o ponto a que chegamos. Dependemos dessa figura misteriosa no mínimo para legitimar as cerimônias mais marcantes, aquelas que o catolicismo chama de sacramentos. Tudo bem não ser pastor para pregar domingo. É estranho, mas dá pra engolir. Mas e o casamento? E o batismo? E o funeral?
Se a pergunta tivesse sido hoje, eu responderia com outra: "quer chamar o Pastor Marcos Pereira pra fazer o casamento?". O cara é pastor ordenado. Estupra, manda matar desafetos e ganha uns trocados com tráfico de drogas, mas é ungido do Senhor, quem se levantará contra ele? Tem um número absurdo de gente saindo em defesa desse homem simplesmente pelo pressuposto que seu cargo religioso impõe. A função, a profissão, que há muito tempo não tem mais absolutamente nada a ver com dom, infere ao sujeito prerrogativas de santidade, de unção, de intocabilidade.
E os seus pares o defendem, o protegem ou se calam.
É claro que Marcos Pereira não é regra, apesar de ser assombroso o número de pastores envolvido em politicagens e bandidagens nos mais variados níveis. Esses são caso de polícia e, se tudo correr bem, serão desmascarados num efeito cascata. Ou não. Mas não é disso que falo aqui.
Me refiro aqui à aura que cerca a figura do pastor, mesmo nos ambientes religiosos mais saudáveis. E ao espírito mafioso de protecionismo corporativista que faz com que a imensa maioria dos mais bonzinhos se calem diante de absurdos. Desde os absurdos da bandidagem, até os absurdos sutis que tornam o 'rebanho' dependente do 'clero'.
Quem faz seu casamento, minha amiga? Pode ser seu pastor, se você for membra de uma igreja formal e assim você desejar. Caso contrário, que seja seu pai, seu irmão, sua tia, seu amigo mais chegado. Alguém que você respeite e admire. Peça para que ele fale algo, ponha as mãos sobre sua cabeça e de seu noivo, e carinhosamente abençoe suas vidas.
E faça o mesmo toda vez que sentir falta de um pastor.
O sacerdócio é universal.
É incrível o ponto a que chegamos. Dependemos dessa figura misteriosa no mínimo para legitimar as cerimônias mais marcantes, aquelas que o catolicismo chama de sacramentos. Tudo bem não ser pastor para pregar domingo. É estranho, mas dá pra engolir. Mas e o casamento? E o batismo? E o funeral?
Se a pergunta tivesse sido hoje, eu responderia com outra: "quer chamar o Pastor Marcos Pereira pra fazer o casamento?". O cara é pastor ordenado. Estupra, manda matar desafetos e ganha uns trocados com tráfico de drogas, mas é ungido do Senhor, quem se levantará contra ele? Tem um número absurdo de gente saindo em defesa desse homem simplesmente pelo pressuposto que seu cargo religioso impõe. A função, a profissão, que há muito tempo não tem mais absolutamente nada a ver com dom, infere ao sujeito prerrogativas de santidade, de unção, de intocabilidade.
E os seus pares o defendem, o protegem ou se calam.
É claro que Marcos Pereira não é regra, apesar de ser assombroso o número de pastores envolvido em politicagens e bandidagens nos mais variados níveis. Esses são caso de polícia e, se tudo correr bem, serão desmascarados num efeito cascata. Ou não. Mas não é disso que falo aqui.
Me refiro aqui à aura que cerca a figura do pastor, mesmo nos ambientes religiosos mais saudáveis. E ao espírito mafioso de protecionismo corporativista que faz com que a imensa maioria dos mais bonzinhos se calem diante de absurdos. Desde os absurdos da bandidagem, até os absurdos sutis que tornam o 'rebanho' dependente do 'clero'.
Quem faz seu casamento, minha amiga? Pode ser seu pastor, se você for membra de uma igreja formal e assim você desejar. Caso contrário, que seja seu pai, seu irmão, sua tia, seu amigo mais chegado. Alguém que você respeite e admire. Peça para que ele fale algo, ponha as mãos sobre sua cabeça e de seu noivo, e carinhosamente abençoe suas vidas.
E faça o mesmo toda vez que sentir falta de um pastor.
O sacerdócio é universal.
segunda-feira, 18 de março de 2013
A mais mesquinha das infâmias
Desapegar-se dos bens materiais pode parecer virtude louvável. É frase que saiu da boca de muitos santos e profetas que rasgaram o manto negro que costuma cobrir a humanidade e deixaram entrar um pouco de luz. Mas isso era em um tempo muito distante. É imperativo, agora, lembrar a todos e a mim mesmo que eles viveram em época venalmente distinta da nossa.
Desapegar-se dos bem materiais, hoje, parece ser a atitude mais banal do mais desligado dos homo-consumistas que infestam a superfície desse planeta. Chegamos (ou estamos bem próximos de chegar) à situação definitiva em que não há mais ninguém apegado a coisa alguma, a não ser a próxima. O desapego consumista nos faz abandonar o que temos em favor daquilo que ansiamos ter e assim sucessivamente, ad infinutum. É o desapego como a mais mesquinha das infâmias.
Aos santos resta agora bradar a plenos pulmões, de cima dos telhados, que cada objeto tem inestimável valor e é preciso apegar-se a eles como a menina a seu ursinho de pelúcia. Sua caneta Bic e os copinhos de plástico que você usou naquela festinha semana passada valem a vida de um operário que trabalha embarcado em alguma plataforma de petróleo em alto-mar, distante de sua esposa e filhos por duas longas e solitárias semanas. Sua bola de basquete vale as asas de uma borboleta lilás, verde neon e púrpura, que foi extinta e nunca mais será vista. Seu lápis (se é que você ainda tem um), vale o pinus que tirou a vida de uma imbuia e os pulmões de um minerador de grafite. Seu celular e sua tablet valem a vida de uma ou duas crianças trabalhando em condições absolutamente insalubres em algum buraco lamacento no interior do Congo, e a dor insuportável nas costas de algum taiwanês. Seu tênis bacana, com amortecedores e impulsionadores, custa as 14 horas de trabalho de uma menina nos subúrbios da China.
Isso não é pouco, suponho. Mas há muito mais. Cada objeto de consumo pelo qual pagamos uma bagatela (ou nem tanto) foi imerso em suor e sangue, em dor e lágrima, em saudade e lesão por esforço repetitivo.
Nenhuma promoção da Casas Bahia deveria ser capaz de calar esse grito.
Desapegar-se dos bem materiais, hoje, parece ser a atitude mais banal do mais desligado dos homo-consumistas que infestam a superfície desse planeta. Chegamos (ou estamos bem próximos de chegar) à situação definitiva em que não há mais ninguém apegado a coisa alguma, a não ser a próxima. O desapego consumista nos faz abandonar o que temos em favor daquilo que ansiamos ter e assim sucessivamente, ad infinutum. É o desapego como a mais mesquinha das infâmias.
Aos santos resta agora bradar a plenos pulmões, de cima dos telhados, que cada objeto tem inestimável valor e é preciso apegar-se a eles como a menina a seu ursinho de pelúcia. Sua caneta Bic e os copinhos de plástico que você usou naquela festinha semana passada valem a vida de um operário que trabalha embarcado em alguma plataforma de petróleo em alto-mar, distante de sua esposa e filhos por duas longas e solitárias semanas. Sua bola de basquete vale as asas de uma borboleta lilás, verde neon e púrpura, que foi extinta e nunca mais será vista. Seu lápis (se é que você ainda tem um), vale o pinus que tirou a vida de uma imbuia e os pulmões de um minerador de grafite. Seu celular e sua tablet valem a vida de uma ou duas crianças trabalhando em condições absolutamente insalubres em algum buraco lamacento no interior do Congo, e a dor insuportável nas costas de algum taiwanês. Seu tênis bacana, com amortecedores e impulsionadores, custa as 14 horas de trabalho de uma menina nos subúrbios da China.
Isso não é pouco, suponho. Mas há muito mais. Cada objeto de consumo pelo qual pagamos uma bagatela (ou nem tanto) foi imerso em suor e sangue, em dor e lágrima, em saudade e lesão por esforço repetitivo.
Nenhuma promoção da Casas Bahia deveria ser capaz de calar esse grito.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Almas à venda
Buda, ao enumerar suas verdades nobres, afirmou que a vida é sofrimento. O carpinteiro, filho de Maria, não se furtou a afirmar que nossa existência seria inegavelmente recheada de aflições. Essas afirmações, que são uma só verdade inevitável, já foram absorvidas com mais facilidade pela humanidade. Houve um tempo em que fugir da aflição, da dor, do sofrimento era tarefa muito mais complexa do que hoje, a ponto de não valera à pena o esforço. Salvo por um bom tonel de vinho, não havia como acobertar o sofrimento debaixo de analgésicos, drogas pesadas ou baladas movidas a músicas irritantes e repetitivas. Nem esconder a causa da dor em asilos ou leitos de hospital. Ela era vivida na carne, encarada face a face, amargamente chorada, dolorosamente superada. As pessoas morriam em nosso colo à noite e de manhã cedo nós mesmos cavávamos a cova onde lançaríamos o corpo inerte de um pai ou um filho. O alimento que produzíamos para o consumo era queimado em uma geada forte e passávamos fome e frio ao mesmo tempo. Mas tudo era real. Era verdade. Era parte essencial e inevitável da vida. Obstáculos naturais a serem enfrentados e superados. Sabíamos que viver é superar problemas.
Conhecereis a verdade e a verdade vos livertará é muito mais que um conceito religioso. Que a verdade é Cristo (o autor da frase em itálico, caso alguém não saiba) e ele é quem liberta, é o que se ouve sempre em púlpitos de igrejas cristãs. Mas o fato é que toda verdade é libertadora, assim como toda ilusão aprisiona. O rabi judeu não falava de ser ele mesmo uma encarnação mágica da verdade a ser aceita e adorada, mas escancarava que sua proposta para uma vida abundante só seria possível quando nossa própria vida fosse corajosamente desprovida de ilusões, sejam elas sociais, políticas ou religiosas. Conhecer a verdade é olhar para a vida do mestre, perceber o quão radicalmente desiludida ela foi, e igualmente desiludir-se por completo.
A humanidade, no entando, mergulha cada vez mais profundamente em um oceano de fantasia. Refestela-se na mais doce ilusão. Do carnaval aos albuns de fotos no facebook, tudo é alegria, festa, extravagância. Não há mais dor visível porque toda ela está varrida para baixo do tapete, armazenada no quarto escuro da alma de cada um. E quando ela insiste em aparecer, é tão vergonhosa e inconveniente que pode levar alguém como Paul Giamatti, no filme "Almas à Venda", a extrair a própria alma para livrar-se desse constrangimento.
O mundo do capital e do consumo, movido pela devastadora engrenagem da propaganda, é especialista em ilusão. Vivemos submersos nela sem absoultamente nos darmos conta, hipnotizados, desalmados, robotizados. Não como zumbis, mas como aquele coelhinho da duracell, batucando frenética, automática e eternamente. Nem nos momentos de lazer abrimos espaço para a verdade brotar. É o que mostram as raves, baladas noturnas, resorts e cruzeiros maritmos.
É evidente que o combustível dessa bagaça é o dinheiro, mas aquilo que chamamos de economia, a ciência que move o mundo do capital, é quase toda ela uma profunda e desoladora ilusão. Que o dinheiro não existe é fácil demonstrar. No entanto ele permanece sendo o centro da vida de qualquer um na sociedade capitalista que criamos.
Quando Paul Giamatti finalmente olha para dentro de sua alma já no final do filme (desculpe, mas vou contar), descobre que a verdade que restou, ali em algum canto, encontra-se nos silêncios, nas solitudes, nos toques sutis, nos olhares tênues. A dor que lhe fustigava a alma foi finalmente superada pelo encontro com a verdade. E a verdade era discreta.
Viver é superar problemas
Conhecereis a verdade e a verdade vos livertará é muito mais que um conceito religioso. Que a verdade é Cristo (o autor da frase em itálico, caso alguém não saiba) e ele é quem liberta, é o que se ouve sempre em púlpitos de igrejas cristãs. Mas o fato é que toda verdade é libertadora, assim como toda ilusão aprisiona. O rabi judeu não falava de ser ele mesmo uma encarnação mágica da verdade a ser aceita e adorada, mas escancarava que sua proposta para uma vida abundante só seria possível quando nossa própria vida fosse corajosamente desprovida de ilusões, sejam elas sociais, políticas ou religiosas. Conhecer a verdade é olhar para a vida do mestre, perceber o quão radicalmente desiludida ela foi, e igualmente desiludir-se por completo.
A humanidade, no entando, mergulha cada vez mais profundamente em um oceano de fantasia. Refestela-se na mais doce ilusão. Do carnaval aos albuns de fotos no facebook, tudo é alegria, festa, extravagância. Não há mais dor visível porque toda ela está varrida para baixo do tapete, armazenada no quarto escuro da alma de cada um. E quando ela insiste em aparecer, é tão vergonhosa e inconveniente que pode levar alguém como Paul Giamatti, no filme "Almas à Venda", a extrair a própria alma para livrar-se desse constrangimento.
O mundo do capital e do consumo, movido pela devastadora engrenagem da propaganda, é especialista em ilusão. Vivemos submersos nela sem absoultamente nos darmos conta, hipnotizados, desalmados, robotizados. Não como zumbis, mas como aquele coelhinho da duracell, batucando frenética, automática e eternamente. Nem nos momentos de lazer abrimos espaço para a verdade brotar. É o que mostram as raves, baladas noturnas, resorts e cruzeiros maritmos.
A verdade vos libertará
É evidente que o combustível dessa bagaça é o dinheiro, mas aquilo que chamamos de economia, a ciência que move o mundo do capital, é quase toda ela uma profunda e desoladora ilusão. Que o dinheiro não existe é fácil demonstrar. No entanto ele permanece sendo o centro da vida de qualquer um na sociedade capitalista que criamos.
Jackson reserva 10 mesas em um restaurante bacana para um jantar com amigos. Vai pessoalmente ao estabelecimento um dia antes e deixa tudo pago com um cheque. Mas Krueger, dono do restaurante, precisava pagar o representante de bebidas que estava fazendo a entrega. Paga-o com o cheque de Jackson, que é, no mesmo dia, repassado para o dono do apartamento onde mora representante. O dono do apartamento repassa o cheque ao pintor, que segue sorridente até a loja da Eleonor e compra a TV de led que havia prometido à esposa. Eleonor decide convidar os funcionários para um happy-hour no restaurante do Krueger e paga o consumo com o cheque que recebeu pela TV. No dia seguinte, de manhã cedo, Jackson passa no restaurante, desculpando-se com seu Krueger porque houve um imprevisto e precisa cancelar a reserva. Calmamente, Krueger puxa do caixa o cheque de Jackson, devolve ao rapaz e cancela a reserva.
Quando Paul Giamatti finalmente olha para dentro de sua alma já no final do filme (desculpe, mas vou contar), descobre que a verdade que restou, ali em algum canto, encontra-se nos silêncios, nas solitudes, nos toques sutis, nos olhares tênues. A dor que lhe fustigava a alma foi finalmente superada pelo encontro com a verdade. E a verdade era discreta.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Natal é de Noel
Talvez seja efeito colateral do meu trabalho. Sou publicitário, confesso. No meu mundinho criminoso de incentivar o consumo abestalhado, os primeiros projetos de natal me chegam às mãos lá por julho, agosto. Imagine você, que considera um absurdo o comércio se enfeitar de pinheirinhos e bonecos de neve em novembro, o que é ter que começar a pensar em natal em julho. Uma lástima. Uma tristeza.
O que salva, nessas horas, é a bendita figura do Papai Noel. O velhinho simpático que roubou a cena daquele bebezinho no berço de palha, apesar do desgosto que causa nos cristãos fundamentalistas, é minha redenção. Porque sendo obrigado a ver a figura daquele gorducho bonachão desde julho até dezembro, todo santo ano, já peguei nojo. É um chato de galocha aquele barrigudo, e é exatamente isso que faz dele meu herói. Porque graças à onipresença do Noel e sua roupa rídícula de inverno, a figura do menino deus, os pastores, os bichinhos do presépio e os magos do oriente continuam habitando uma parte imaculada e infantil da minha alma.
Sinceramente, se eu fosse o papa, ou um desses pastores metidos a donos do rebanho todo, tipo o descompensado Silas Malafaia, baixava um decreto mudando a data do nascimento de Jesus pra janeiro. E mudava o nome da festa. Sei lá, quem sabe poderia ser Dia da Manjedoura. Deixava o Natal lá com o Papai Noel e os presentes, e a correria, e o consumo, e os shopping centers, e as promoções, e a jornada dupla no comércio, e a ganância, e a inveja, e os desejos incontroláveis, e todos essas virtudes que impulsionam nosso natalzinho capitalista. O presépio iria lá pra calmaria de janeiro, em baixo de um pé de sombra na praia ou na beira de um rio, ou numa praça da cidade, nesse período do ano onde está todo mundo tão endividado que o comércio dá aquela parada, como se estivesse de ressaca depois de um porre de consumo.
ONatal Dia da Manjedoura merece ser lembrado de forma discreta, calma e silenciosa.
O que salva, nessas horas, é a bendita figura do Papai Noel. O velhinho simpático que roubou a cena daquele bebezinho no berço de palha, apesar do desgosto que causa nos cristãos fundamentalistas, é minha redenção. Porque sendo obrigado a ver a figura daquele gorducho bonachão desde julho até dezembro, todo santo ano, já peguei nojo. É um chato de galocha aquele barrigudo, e é exatamente isso que faz dele meu herói. Porque graças à onipresença do Noel e sua roupa rídícula de inverno, a figura do menino deus, os pastores, os bichinhos do presépio e os magos do oriente continuam habitando uma parte imaculada e infantil da minha alma.
Sinceramente, se eu fosse o papa, ou um desses pastores metidos a donos do rebanho todo, tipo o descompensado Silas Malafaia, baixava um decreto mudando a data do nascimento de Jesus pra janeiro. E mudava o nome da festa. Sei lá, quem sabe poderia ser Dia da Manjedoura. Deixava o Natal lá com o Papai Noel e os presentes, e a correria, e o consumo, e os shopping centers, e as promoções, e a jornada dupla no comércio, e a ganância, e a inveja, e os desejos incontroláveis, e todos essas virtudes que impulsionam nosso natalzinho capitalista. O presépio iria lá pra calmaria de janeiro, em baixo de um pé de sombra na praia ou na beira de um rio, ou numa praça da cidade, nesse período do ano onde está todo mundo tão endividado que o comércio dá aquela parada, como se estivesse de ressaca depois de um porre de consumo.
O
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terça-feira, 28 de agosto de 2012
Igreja. CBF ou pelada?
Tente imaginar o seguinte. Sujeito vai chegando devagar num descampado plano de terra, com uma bola embaixo do braço. Para no meio do campo, dá uma olhada geral, solta a bola, deixa bater seco no chão, enfia o pé por baixo, levanta a danada, dá uns toquinhos, se embanana todo e deixa ela rolar pra longe. Corre atrás, pisa firme na redonda, endireita a coluna e vasculha o horizonte de novo. Tem alguém vindo de lá. E mais três, do outro canto. Os olhos se revezam entre a bola e os que vêm chegando. Mais umas embaixadas até que o primeiro chegue perto o suficiente. Aí mete um passe longo, que é ao mesmo tempo a confirmação do convite e uma carta de boas vindas. Os outros três chegam e também recebem a bola no pé. Tocam um pro outro, se olham, se aproximam. Derrepende dois pares de chinelos já estão posicionados. Os times foram divididos. A bola já está rolando. Camisa contra sem camisa. E vai-se a tarde naquela correria. Entra mais um pra cada lado. Mais dois. Junta um time de fora. Dez minutos ou dois gols. Às vezes dá uma briga, um bate-boca, é claro. Mas na tarde seguinte estão todos lá de novo, no corre-corre de sempre, com um sorrisão estampado no rosto.
Agora imagine a CBF, a FIFA, as Federações. Pense nos cartolas, nas cotas de patrocínio, nos direitos de transmissão, na compra e venda de passes, nos grandes times, nos salários faraônicos. E pode ficar por aí. Não precisa nem considerar as picaretagens e os subornos. Fique só com a burocracia e os jogos simples de poder.
Ora. Futebol não é CBF nem FIFA. Futebol é pelada! Se a CBF deixar de existir, não estará, de forma alguma, decretado o desaparecimento do futebol da face desse planeta. Será o fim do grande negócio que envolve o esporte. Será a falência de um mercado milionário. Mas a gurizada que estiver batendo bola no campo de terra estará jogando futebol, como sempre. Aliás, como antigamente. Porque futebol é praticamente uma unanimidade planetária exatamente porque é um mercado milionário. Caso contrário teria uns e outros praticantes salpicados por aí, jogando por que gostam do jogo e nada mais, como os abnegadossofredores jogadores do Rugby nacional.
Percebe onde estou tentado chegar? Não estou aqui para iniciar um movimento contra a CBF, um motim para destruir a FIFA. Não. Quero é enaltecer a pelada, o pé no chão, a bola de couro surrada e os chinelos formando traves. Quero é dizer que futebol é gostoso, é divertido, é leve, é simples, é amizade, é comunhão. É partilhar uma mesma bola com quem quer que venha chegando.
Se dois ou três estiverem reunidos em torno da bola, ali haverá futebol, independente das determinações da FIFA.
Agora imagine a CBF, a FIFA, as Federações. Pense nos cartolas, nas cotas de patrocínio, nos direitos de transmissão, na compra e venda de passes, nos grandes times, nos salários faraônicos. E pode ficar por aí. Não precisa nem considerar as picaretagens e os subornos. Fique só com a burocracia e os jogos simples de poder.
Ora. Futebol não é CBF nem FIFA. Futebol é pelada! Se a CBF deixar de existir, não estará, de forma alguma, decretado o desaparecimento do futebol da face desse planeta. Será o fim do grande negócio que envolve o esporte. Será a falência de um mercado milionário. Mas a gurizada que estiver batendo bola no campo de terra estará jogando futebol, como sempre. Aliás, como antigamente. Porque futebol é praticamente uma unanimidade planetária exatamente porque é um mercado milionário. Caso contrário teria uns e outros praticantes salpicados por aí, jogando por que gostam do jogo e nada mais, como os abnegados
Percebe onde estou tentado chegar? Não estou aqui para iniciar um movimento contra a CBF, um motim para destruir a FIFA. Não. Quero é enaltecer a pelada, o pé no chão, a bola de couro surrada e os chinelos formando traves. Quero é dizer que futebol é gostoso, é divertido, é leve, é simples, é amizade, é comunhão. É partilhar uma mesma bola com quem quer que venha chegando.
Se dois ou três estiverem reunidos em torno da bola, ali haverá futebol, independente das determinações da FIFA.
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quarta-feira, 18 de julho de 2012
Cicatrizes
Adélia tem razão. A redenção encontra-se na capacidade do homem fazer florescer profunda gratidão dentro de si, justamente no momento solitário em que percebe tudo que possivelmente não valeu à pena. Na escuridão do instante em que lucidez suficiente nos revela que não passamos de um fiapo miserável de sensações e sentimentos, quando enfim damo-nos de cara com nossa fragilidade e nenhuma virtude resiste à dor dessa descoberta, é aí que se revela - e não num momento de vitória, num instante de conquista - a redenção daquele que, inexplicavelmente, encontra improváveis motivos para agradecer.
A redenção, quando a vida desequilibra na corda bamba - e ela haverá de desequilibrar, disso não resta nenhuma dúvida - é revelada àquele que percebe que os detalhes mais banais, mais corriqueiros, mais inócuos, mais irrelevantes, mais triviais, mais ordinários, estão inundados de beleza, transpirando graça, revelando presença, embebidos no sagrado e suave sopro do amor e da providência. Como produto de sincera observação retrospectiva, brota gratidão imensa pelo que, tempos atrás, não fora nada nem tivera valor algum.
Quem percebe a enormidade da beleza que há naquela insistente rachadura na parede, no bolor de um casaco que sai do armário para receber as primeiras lufadas do inverno, no muco que escorre do nariz de um menino de rua, numa semente seca, num banho quente ou num copo de água fresca, haverá de sobreviver, apesar das cicatrizes, aos impiedosos solavancos que a vida nos reserva.
E as cicatrizes serão belas.
Veja também:
No olho de quem olha
A redenção, quando a vida desequilibra na corda bamba - e ela haverá de desequilibrar, disso não resta nenhuma dúvida - é revelada àquele que percebe que os detalhes mais banais, mais corriqueiros, mais inócuos, mais irrelevantes, mais triviais, mais ordinários, estão inundados de beleza, transpirando graça, revelando presença, embebidos no sagrado e suave sopro do amor e da providência. Como produto de sincera observação retrospectiva, brota gratidão imensa pelo que, tempos atrás, não fora nada nem tivera valor algum.
Quem percebe a enormidade da beleza que há naquela insistente rachadura na parede, no bolor de um casaco que sai do armário para receber as primeiras lufadas do inverno, no muco que escorre do nariz de um menino de rua, numa semente seca, num banho quente ou num copo de água fresca, haverá de sobreviver, apesar das cicatrizes, aos impiedosos solavancos que a vida nos reserva.
E as cicatrizes serão belas.
Bendito
(Adélia Prado)
Louvados sejas Deus meu Senhor,
porque o meu coração está cortado a lâmina,
mas sorrio no espelho ao que,
à revelia de tudo, se promete.
Porque sou desgraçado
como um homem tangido para a forca,
mas me lembro de uma noite na roça,
o luar nos legumes e um grilo,
minha sombra na parede.
Louvado sejas, porque eu quero pecar
contra o afinal sítio aprazível dos mortos,
violar as tumbas com o arranhão das unhas,
mas vejo Tua cabeça pendida
e escuto o galo cantar
três vezes em meu socorro.
Louvado sejas porque a vida é horrível,
porque mais é o tempo que eu passo recolhendo despojos,
– velho ao fim da guerra como uma cabra –
mas limpo os olhos e o muco do meu nariz,
por um canteiro de grama.
Louvados sejas porque eu quero morrer,
mas tenho medo e insisto em esperar o prometido.
Uma vez, quando eu era menino, abri a porta de noite,
a horta estava branca de luar
e acreditei sem nenhum sofrimento.
Louvado sejas!
Veja também:
No olho de quem olha
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Chuvarada

Foto surrupiada do Flickr de Graciela Dias
Num dia frio e chuvoso é preciso sair de casa.
Expor o corpo quentinho à molhadeira da chuvarada.
É inverno, seu Santos dorme na rua, corpo extendido no chão duro, ninguém sabe porque. Ninguém nem quer saber.
É inverno e eu cozinho pinhão na panela de ferro, o sofá vazio, a casa quentinha e vazia.
É inverno lá fora, e sempre será. Tanta gente vagando no frio, mesmo que seja verão.
A chuvarada castiga, o inverno não passa.
Entra ano, sai ano, o inverno não passa.
E eu aqui, casa quentinha, café na mesa.
Por quê não ponho a cara pra fora e trago de lá um corpo encharcado?
Por quê, se tenho a casa seca e quentinha, não seco e aqueço meu irmão?
Hoje é frio e chuvoso e sei que preciso sair de casa.
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segunda-feira, 5 de março de 2012
O anarquista de Nazaré
Para alguns, Jesus é um anarquista, pois não tem nenhuma noção de governo civil. O governo lhe parece pura e simplesmente um abuso. Ele fala disso em termos vagos e como uma pessoa do povo, que não tem idéia alguma de política. Todo magistrado lhe parece um inimigo natural dos homens de Deus; anuncia aos seus discípulos rixas com a polícia, sem imaginar sequer que isso fosse motivo para se envergonhar. Mas nunca se nota nele a intensão de tomar o lugar dos poderosos e ricos. Ele quer aniquilar a riqueza e o poder, e não se apoderar deles. Prediz a seus discípulos perseguições e suplícios, mas não deixa entrever uma única vez o pensamento de uma resistência armada (...). Os fundadores do reino de Deus serão simples. Nada de ricos, nada de doutores, nada de padres: apenas mulheres, homens do povo, humildes, crianças. O grande sinal do messias é a “boa nova anunciada aos pobres” A natureza idílica e doce de Jesus chegava aqui ao seu auge. Uma imensa revolução social, em que as classes serão alteradas, em que tudo quanto é oficial neste mundo será humilhado, eis seu sonho. O mundo não acreditará nele; o mundo o matará. (Renan, 2004)
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Tensão
Sei que tudo vai dar certo no final. O que me preocupa é que certamente muita coisa haverá de dar errado no caminho. E prossigo nessa tensão entre a confiança em um final feliz e os acidentes inevitáveis do percurso.
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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Paradigmas da publicidade
Acabo de me dar conta de mais um dos paradigmas abestalhados da publicidade. Eu, me aproximando dos quarenta anos de idade, tendo que ler sobre o comportamento da agora chamada "geração Z", a gurizada de 12 a 19 anos, pra descobrir maneiras de oferecer a eles tudo que eles querem (e muito mais) da forma que mais lhes agrada.
Assim caminha a humanidade.
Assim caminha a humanidade.
Salpicado do Facebook.
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quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Paradigmas da publicidade
Acabo de me dar conta de mais um dos paradigmas abestalhados da publicidade. Eu, me aproximando dos quarenta anos de idade, tendo que ler sobre o comportamento da agora chamada "geração Z", a gurizada de 12 a 19 anos, pra descobrir maneiras de oferecer a eles tudo que eles querem (e muito mais) da forma que mais lhes agrada.
Assim caminha a humanidade.
Assim caminha a humanidade.
Respingado do Facebook.
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segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Sistema
Todo dia, às 18h30, quando desligo meu micro, aparece na tela uma mensagem:
"Deseja realmente sair do sistema?"
E o que mais quero é gritar a plenos pulmões: "Sim!"
"Deseja realmente sair do sistema?"
E o que mais quero é gritar a plenos pulmões: "Sim!"
Respingado do twitter.
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