Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Traçando o trajeto

E se por força de decreto
O sul pra fora do Brasil arremetesse
O nordeste e seus interêsse
Meu amigo sulista dileto
Arrumava minhas trôxa, discreto
Não haveria que me detêsse
Largava esse sul desafeto
E pro norte traçava o trajeto
Melhor não fosse, mas se sêsse
O meu destino era esse

Incidentalmente inspirado no poema "Ai se sêsse", de Zé da Luz e obviamente motivado nas reações exacerbadas de alguns habitantes do sul/sudeste no pós-eleição presidencial.

Caminhando faceiro com a família no interior da Bahia.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Coisa esquisita no ar


Há alguma coisa esquisita no ar
Um vento pesado, denso e forte
Um cheiro estranho e a amargo de morte
Um gosto afiado de faca e corte
Um golpe de espada, uma cruz, uma chaga
Uma longa risada, um punhal, uma adaga
Um corpo caído, um homem traído
Um frio desgraçado, um sorriso gelado
Uma cheia, tempestade de areia
Um toró, gente fria, sem dó
Chutando, empurrando, passando por cima
Uma canção sem acorde, poesia nem rima
Uma coisa, enfim, esquisita no ar
Como fosse uma vaga, sem piedade
Que nasce no umbigo da humanidade
E escorre vazia, sem amor, remorso nenhum
Da boca, das mãos e dos olhos
De cada um

Tuco Egg
23/07/2014

quinta-feira, 13 de março de 2014

A parte maior e melhor

"Eu sei de muito pouco. Mas tenho a meu favor tudo o que não sei e – por ser um campo virgem – está livre de preconceitos. Tudo o que não sei é a minha parte maior e melhor: é minha largueza. É com ela que eu compreenderia tudo. Tudo o que eu não sei é que constitui a minha verdade."
 
Clarice Lispector

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Miúda e Branca



Não há mentira que se aprume
E atravesse ilesa a barra do tempo
Que permaneça em pé, impune
Dançando louca em seu tormento
Pois haverá de se expor ao lume
Do dia claro com forte vento

        [ E depois do vendaval ]

Descansará tranquilamente
Sobre os destroços, com suavidade
Uma florzinha miúda e branca
Com o doce e forte cheiro da verdade

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Mensagem à poesia

Para Léo, Gito, Tony, para toda rapaziada do Caminho Nações e todos aqueles
"a quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante"


----------

De Vinícius de Moraes
Rio de Janeiro , 1954



Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.
Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas,
E há legiões delas carpindo a saudade de seus homens;

Contem-lhe que há um vácuo nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema;

Contem-lhe que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares,
E é preciso reconquistar a vida.
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado — não a magoem... — que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes,
Que meus ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem deixar intimidar,
Que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora;
Digam-lhe, no entanto que sofro muito,
Mas não posso mostrar meu sofrimento aos homens perplexos;
Digam-lhe que me foi dada a terrível participação,
E que possivelmente deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.

Se ela não compreender, oh! procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu;
Mas digam-lhe que, no fundo, tudo o que estou dando é dela,
E que me dói ter de despojá-la assim, neste poema;
Que por outro lado não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado há fome e mentira;
E um pranto de criança sozinha numa estrada junto a um cadáver de mãe;

Digam-lhe que há um náufrago no meio do oceano,
Um tirano no poder, um homem arrependido;
Digam-lhe que há uma casa vazia com um relógio batendo horas;

Digam-lhe que há um grande aumento de abismos na terra,

Há súplicas, há vociferações, há fantasmas que me visitam de noite
e que me cumpre receber,
Contem a ela da minha certeza no amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre;
Por isso, peçam-lhe que tenha paciência,
Que não me chame agora com a sua voz de sombra;
Que não me faça sentir covarde de ter de abandoná-la neste instante

Em sua imensurável solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.
Mas não a traí.
Em meu coração vive a sua imagem pertencida,
E nada direi que possa envergonhá-la.
A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim.
Vivo do desejo de revê-la
Num mundo em paz.
Minha paixão de homem resta comigo;
Minha solidão resta comigo;
Minha loucura resta comigo.
Talvez eu deva morrer sem vê-la mais,
Sem sentir mais o gosto de suas lágrimas,
Olhá-la correr livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia.
Digam-lhe que é esse o meu martírio;

Que às vezes pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade
E as poderosas forças da tragédia abastecem-se sobre mim,
E me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação estática
Num amor cheio de renúncia.
Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

A trilha



Há uma trilha onde ninguém põe os pés a não ser que chore.
A não ser que sofra, que se derrame em lágrimas, que se desmonte.
Ela leva até os lugares mais altos, mas passa pelos mais profundos vales.
Tange despenhadeiros e se lança inconsequente em abismos escuros.
Cruza planícies infinitas de areia e sol, e se arrasta em grotas úmidas.
Não foi traçada em mapa algum e percorrê-la é andar às cegas, é um calvário, é cruz.

Mas ah... como é linda!
Como dança entre vales e montes, sinuosa, leve, sutil.
Como canta, feito sereia e sussurra segredos.

Há uma trilha onde ninguém põe os pés a não ser que cante.
A não ser que deite-se humildemente sob as estrelas.
Ela percorre vales e desertos, mas toca o céu e abraça nuvens.
Banha-se em véus de noivas e flutua leve sobre colinas e campos floridos.
Desliza em dunas de areias pra lançar-se alegre e viçosa ao mar.
Não foi traçada em mapa algum e percorrê-la é voar livre, é eternidade, é ressurreição.

Há uma trilha onde ninguém põe os pés a não ser que ame.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Caiu na rede

Onde está minha caneta
Meu bloco de anotação
Passarinho azul levou
Só ficou rato na mão

Onde estão meus companheiros
Abraço do meu irmão
Onde foi parar Suzana
Amadeu, Tatá, Joana
Juarez, Raul, Novaes
Todos pegos como peixes
Pelas redes sociais

Amizade está na barra
Lateral do Facebook
São centenas, são milhares
Não trocamos mais olhares
Mas curtimos novo look

Cento e quarenta e quatro
Letras são suficientes
Para deixar meu recado:
Nesse tempo tão non sense
Cuide para que não pense
Que é clicando que se vence

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Esse piá

Ah! Esse piá, esse menino, esse guri
Pé de chinelo, brinca sem rumo, some daqui
Moleque travesso, virado do avesso, cabeça de vento
Me olha o arteiro, cheio de dengo com cara de bento

Agora quer colo, e chora
Depois quer lutar, e bate
Correr no quintal, e corre
De perna de pau, e morre

Foi tiro no peito, foi bala perdida, passou por ali
Pegou o menino de costas pra vida e agora quem ri?
Quem corre faceiro, quem chega primeiro, quem dança no vento?
Me diz, meu amigo, quem corre na chuva, quem canta ao relento?

Preciso de colo, e choro
Já anoiteceu, lá fora
O céu tá de luto, e dentro
Tá tudo no breu, meu Deus
Menino morreu

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

[Meio]

Não há lugar para afeto
         No [meio] do concreto

Se duvida, leia essa notícia.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Que dizer


Como é que eu vou explicar
Pro menino no berço de palha
Que Natal agora é consumo
E nada mais que o valha

Como vou contar para os anjos
Pros pastores que ouviram louvores
Que o Natal transubstanciou-se
Numa festa de fartos horrores

Que dizer aos reis do oriente
Aqueles magos d'astronomia
Que fizeram-se de retirantes
Loucos atrás de uma estrela guia

Adornai-vos de luxos e ouros
Da mais alta tecnologia
Afogai-vos em seus crediários
Que é chegado tão grandioso dia

Lambuzai-vos em farto banquete
Até a derradeira migalha
Entoando os mais altos louvores
Ao menino no berço de palha

quinta-feira, 29 de março de 2012

O menino vadio

Já dizia o poetinha: A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.
 
E encontro que é sempre bom, é encontro regado com a sanfona do Abianto.



Menino Vadio by Tuco Egg


E surgiu uma letra:

O menino saiu mão no bolso ensaiando assobio
E desceu lá do morro cantando e pulando vadio
No caminho encontrou um atalho, e a pressa o levou por ali
O menino saiu mão no bolso a caminho do rio

Sobe e desce a ladeira e ele na brincadeira sorri
Nem sequer desconfia os perigos que tem por ali
Caminhando feliz ele vai, sem lembrar dos avisos do Pai
Sobe e desce a ladeira pensando somente em seguir

Lá na beira do rio o menino vadio ao chegar
Tava até meio frio, mas nada o fazia parar
Se jogou na corrente das águas e deixou-se por ela levar
Já na beira do rio o guri começou se afogar

Era um roda moinho, um puxão, tava forte demais
Essa chuva danada que deu alguns dias atrás
O menino tentou, mas não deu, eis que um grande milagre ocorreu
A mão forte do pai o puxou e ele é hoje um rapaz



segunda-feira, 26 de março de 2012

Inauguração

Poeminha dedicado à "via expressa", em Blumenau.

Inauguração
Aos moradores dessa cidade
E autoridades aqui reunidas
Depois de tantos anos de espera
Declaro, enfim, concluída
Essa tão importante via
Expressamente proibida
Ao ciclista e ao caminhante
Por aqui, só ao volante
Que o progresso quer ir adiante
Sem tempo pra despedida

Bicicleta ou sair caminhando?
Tenha santa paciência
Um carro possante é que eu quero
E motor três ponto zero
Pra na hora do trânsito lento
Poder sair buzinando
Pois se tem algo que não aguento
É o maldito congestionamento

E agora sem mais delongas
Corto de uma vez essa fita
E que os carros passem à vontade
Porque, afinal de contas
É deles a nossa cidade

tuco egg

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Corajosamente

A calamidade avança galopante
Indiscutivelmente
Enquanto prossigo galante
Abestalhadamente silente
Como não fora com a gente
O caos que permeia o espaço
Outrora são e forte
Agora abatido e doente
Desacorsoadamente
Deitado em seu leito de morte
Esperando, quem sabe, com sorte
Que alguém encare de frente
A sombra que como o poente
Derrama escuridão somente
Sobre toda e qualquer semente
Pra que não brote da terra esperança
Enquanto prossegue a matança
De tanta criança inocente

Quiçá me levante agora
E rompa essa besta corrente
Arrebente já, sem demora
Ostracismo insano e demente
E enlouquecidamente
Como o sol rompendo na aurora
Me lance em volumosa vertente
De luz rebentando na flora
Fazendo eclodir a semente
Que a sombra sofocou lá fora
Trazendo vida novamente
À bestidão prevalente
Tingindo de cores o cinza
Com canções egolindo gemidos
Levante do chão os oprimidos
E ombro a ombro comigo
Caminhemos de peito aberto
E então corajosamente
Acabemos com esse deserto

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Motivo

Tem gente que foge do choro
Quer viver a vida na boa
Eu já não consigo mais
Ouço um choro, corro atrás
E choro junto
Um choro que escorre à toa

Se querem saber o motivo
Da dor que fustiga a pessoa
Eu já mudo de assunto
Pois uma lágrima que faz
Chorar sem saber porquê
É choro compadecido
De lágrima companheira
Rola aqui como pinga lá
O porquê outra hora se vê

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Megafone

Absurdamente equivocado
Amalucado em sua vertente
De pensamento desconjuntado
Sobe no banco da praça
E megafonicamente
Despeja no transeunte
Seu ódio acorrentado
Religiosamente disfarçado
Como um cristão penitente
Sem jamais haver assimilado
Do mestre, sua semente
De amor e perdão despejado
A todos graciosamente


Humildemente dedicado ao pregador das ruas de
Blumenau e seu incansável intragável megafone
instrumento de condenação compulsória de almas.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Pés cansados

Ouço a batida sem ritmo
Dos pés que cansados
Conduzem o corpo
Que o tempo arcou

Vejo a poeira que sobe
Do passo arrastado
Empasta no rosto
Que o choro molhou

E o homem faz sua jornada
Passos pesados, mas fortes
A espera de um descanso
Não precisa muita coisa
Só comida, abrigo e abraço

Mas leva sozinho seu passo
Pois não há quem ofereça
Na correnteza remanso
No sofrimento uma sorte
Em pleno naufrágio, jangada

E segue a batida sem ritmo
Dos pés calejados
Do corpo surrado
Que um dia sonhou

E saiu na poeira da estrada
Procurando esperança
Amor e morada
Mas nada encontrou

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

No olho de quem olha

Vi o belo no miserável
O roto, maltrapilho e desconjuntado
Também possui olhos que brilham
E um sorriso desdentado
Derrama alegria na alma
De quem sabe que a beleza está muito além
Da simetria das faces

Vi o belo no velho
Rosto murcho e cabelo acinzentado
Com uma história em cada ruga
E ai de quem se dispuser a ouvi-las
Será lindo de fazer chorar
E saberá que a beleza também
É muito mais que juventude

Vi o belo no feio
E percebi então que nem feio era
E vi beleza espalhada por todo canto
Até nos becos escondidos
Que ninguém mais quer olhar
E descobri que a feiura
Está no olho de quem olha

E só havia beleza
Em todo canto que eu olhava
Até no espelho pude vê-la
E desde então é o que peço
Que eu veja sempre primavera
E a beleza encha meus olhos
Onde menos se espera


Publicado primeiro no interessantíssimo SobrePensar

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O rio e o vale

Por incrível que pareça
Há beleza até no rio que enche
Que sobe descontrolado
Invade as calhas urbanas
Entra nas casas pelos vãos das portas
Empapa carpetes
Destrói pisos e móveis
Carrega junto consigo roupas e eletrodomésticos
Até que num fim de tarde de sexta
Majestosamente esparramado por toda cidade
Reflete, senhor do vale, o dourado o sol
Que surge só pra mostrar a imensidão do rio
E este anuncia solene:

Sou rio e tu és vale
Tu determinas meu caminho
Tua função é me reter
Conduzir-me até o mar
A minha é forçar passagem


E a voz ecoa nos morros pela eternidade
Como espírito vagando sobre a face das águas



Para o povo do Vale do Itajaí
Reverentemente

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Sussuro

Sussurrei
Cansado
  Extenuado
    Fatigado
      Arrasado
        Acabado

Murmurei
  Não aguento mais

Mas levantei
  E segui caminhando
    Pra tão longe
      Que nem sei