Quando trabalhava como office boy numa imobiliára na Carlos de Carvalho, entre um e outro banco parava para ouvir o Viento Sur no calçadão da Boca Maldita. Ouvia até chegar à clássica Guantanamera, quando um dos integrantes do grupo começava a passar o chapéu sem parar de cantar. Comprei todos os seus cassetes e escutei até gastar. Ouvir aquele coro de 5 vozes cantando El Condor Pasa na correria da rua XV era como ser transportado para algum ponto distante da América Andina e lá desfrutar do vento gelado que desce do alto da cordilheira.
E agora, quase 20 anos depois, os encontro por acaso nesse mundo virtual e, inevitavelmente, lembro de tudo como ontem. Lembro das jarras de suco que tomei nos dias quentes, no boteco ao lado do Cine Plaza. Das vezes que fugi correndo da piazada de rua, pela Jesuino Marcondes ou pela Comendador Araújo, com os bolsos cheio da grana que fui trocar para o Osni naquele doleiro do edifício Asa. Do Fliperama que tinha em frente ao Bradesco e das fichas que encontrei no chão. Do cobrador do Detran-Vicente Machado, que me viu esquecer um envelope da imobiliária cheio de dinheiro e o guardou para mim, e da bronca que levei quando, no dia seguinte (porque eu pegava aquele ônibus todos os dias), ele me devolveu o envelope. E da alegria que me deu. Dos maços de cigarros que comprava para Sônia na banca da Praça da Espanha. Dos picolés que ela algumas vezes me pagou em gratidão. Do corpo mole do Mola, o outro office boy que enrolava enquanto eu trabalhava. Do Eduardo, meu professor de física na sétima e oitava séries, que encontrei hippie vendendo artesanato na praça Zacarias.
Mas de todas as lembranças dessa rotina do meu primeiro emprego, nenhuma se compara ao som suave e latino do Viento Sur soprando para longe o barulhento frenesi do centro urbano e comercial da capital paranaense, sussurrando para mim, sem que me desse conta, que há um outro caminho. É possível que tenha sido deles o som original que é hoje o eco dentro de mim, sussurrando sempre a mesma coisa.
No teatro da UFPR, quando eu já havia deixado o planalto araucano.
Em 1993, quando eu ainda caminhava todos os dias pelo centro de Curitiba.
A canção "Encontro", parceria com Silvestre Kuhlmann, recebeu carinhosos cuidados de Clauber Ramos e apareceu aí, gravada na casa dele. Voz de Clauber, violões dele e de Juan Sierra.
Uma tentativa de descrever como imagino que deveria ser todo encontro de amigos/irmãos, toda reunião dos seguidores de Jesus, toda ecklesia, toda igreja. De porta sempre aberta pra qualquer um, a qualquer momento, em qualquer lugar. Na leveza displicente do vento, feito poesia, feito arte. Um encontro jamais suficiente em si mesmo, mas sempre engajado na transformação do mundo e sempre consciente que qualquer transformação começa por dentro.
Já dizia o poetinha: A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. E encontro que é sempre bom, é encontro regado com a sanfona do Abianto.
O menino saiu mão no bolso ensaiando assobio E desceu lá do morro cantando e pulando vadio No caminho encontrou um atalho, e a pressa o levou por ali O menino saiu mão no bolso a caminho do rio
Sobe e desce a ladeira e ele na brincadeira sorri Nem sequer desconfia os perigos que tem por ali Caminhando feliz ele vai, sem lembrar dos avisos do Pai Sobe e desce a ladeira pensando somente em seguir
Lá na beira do rio o menino vadio ao chegar Tava até meio frio, mas nada o fazia parar Se jogou na corrente das águas e deixou-se por ela levar Já na beira do rio o guri começou se afogar
Era um roda moinho, um puxão, tava forte demais Essa chuva danada que deu alguns dias atrás O menino tentou, mas não deu, eis que um grande milagre ocorreu A mão forte do pai o puxou e ele é hoje um rapaz
Dá pra acreditar que isso já conteceu um dia? Literalmente. E dá pra acreditar que ainda acontece hoje?
CLIQUE E OUÇA A MÚSICA LEILÃO LeilãoPor Ana Salvagni De Hekel Tavares / Joracy Camargo De manhã cedo, num lugar todo enfeitado Nóis ficava amontoado pra esperá os compradô Depois passava pela frente do palanque Afincado ao pé de um tanque que chamavam bebedô.
E nesse dia minha véia foi comprada Numa leva separada de um sinhô mocinho ainda Minha veínha era frô dos cativeiro Foi inté mãe de terreiro da famía dos Cambinda.
No mesmo dia em que levaram minha preta Me botaram nas grieta que é pro mó de eu não fugir E desde então, preto véio percurô Ficou véio como eu tô, mas como é grande esse Brasil.
E quando veio de Isabel as alforria Percurei mais quinze dia, mas a vista me faltô Só peço agora que me leve Sá Isabel Quero vê se está no céu minha véia, meu amô.
Haverá um dia em que você não haverá de ser feliz Sem tirar o ar, sem se mexer, sem desejar como antes sempre quis Você vai rir, sem perceber, felicidade é só questão de ser Quando chover, deixar molhar pra receber o sol quando voltar
Lembrará os dias que você deixou passar sem ver a luz Se chorar, chorar é vão porque os dias vão pra nunca mais
Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você Chorar, sorrir também e depois dançar, na chuva quando a chuva vem Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você Chorar, sorrir também e dançar. Dançar na chuva quando a chuva vem
Tem vez que as coisas pesam mais do que a gente acha que pode aguentar Nessa hora fique firme, pois tudo isso logo vai passar
Você vai rir, sem perceber, felicidade é só questão de ser Quando chover, deixar molhar pra receber o sol quando voltar
É gente nossa Homem, mulher Espelho de nós Mistérios da fé
Espelho de nós Milton Nascimento
Traz a farinha Traz é o peixe Traz é o pão Que quer dividir
Quem vem de lá, o que nos traz? Quem vem de lá, que gente é? Quem vem de lá, vem é de paz? Quem vem de lá sabe o que quer?
Traz a farinha Traz é o peixe Traz é o pão Que quer dividir
É gente nossa Homem, mulher Espelho de nós Mistérios da fé
Quem vem assim vestido de céu? Quem vem assim filho de Deus? Luz na manhã, cor no papel Flor no jardim, fruta no mel
Traz na viagem Sonho, esperança pra alimentar quem quer resistir
É gente amiga Homem, mulher Estrela, farol na noite do mar
Sei que enquanto amar a vida me valerá gostar pra mim é o ar que busco na atmosfera É o princípio e é o fim Eu quero tocar, eu quero saber qual é a mais bela verdade que há
Quem vem de lá, que mares cruzou? Quem vem de lá, que povo que é? Quem vem de lá, o que nos traz? Quem vem de lá sabe o que quer?
Traz a farinha Traz é o peixe Traz é o pão que quer dividir
É gente nossa Homem, mulher espelho de nós mistério e fé
Traz na viagem Sonho, esperança pra alimentar quem quer resistir
É gente amiga Homem, farol estrela, farol na noite do mar ♫ Conheça as outras músicas do Hinário da Trilha.
Amarre os sapatos Aperte os cintos Prepare-se para a batalha Carregue seu fardo Com pasta em mãos E decisão firme Dominaremos o mundo
Assim funciona o mundo Continue Seu destino te espera
Eles dormem com um olho aberto Ficar para trás não é uma opção Trabalhe o máximo que puder Do jeito que lhe dizem
Eles vivem de omeletes Vitaminas e tônicos Um regime estrito de trabalho e descanso Esforçando-se, dando duro Abra caminho
Mas aqui chegamos a outro assunto O de acordar com as músicas de um sonho Quando o tempo para e a fantasia se liberta Eles sempre se perguntam Porque o lema do mundo é "continue assim"? Porque essa luta maluca para chegar a um destino?
Eles não são escravos do tempo São livres Tem reuniões com as borboletas E debates com as árvores Passam seu tempo brincando com o vento E contando histórias às gotas de chuva Enquanto pintam um novo mundo na tela do céu
Porque o lema do mundo é "continue assim"? Porque essa luta maluca para chegar a um destino?
Teve o Sarau Facamolada. Depois o sarauzinho do Caminho lá em casa, ambos com Silvestre Kuhlmann. Depois um fim de semana em Rio do Sul no sítio do Léo, com fogão a lenha e muita conversa boa. Em seguida o sarau com pinhão no frio do Sítio Vilarejo em Campo Magro, acompanhado de Diego, Sara, Stenio, Selma e Gladir, mais amigos e família. Então saiu um poeminha. E já veio, de presente do Silvestre, uma música pra ele.
Encontro Letra minha, música do Silvestre Kuhlmann. O poeminha eu garanto aí em baixo. A música, por enquanto, só na memória. Quem sabe uma hora dessa pinta um audio bacana.
A porta está sempre aberta As trancas do lado de fora A brisa entra pela janela O cheiro do mato com ela E música ao som da viola
Vem quem está a fim Vem quem tiver vontade Assim displicentemente Como vento levando semente Simplesmente vem pela amizade
É assim que o encontro se dá Dois ou três é suficiente Num canto da casa onde mora Ou à sombra de um pé de amora Importante é que tenha gente
E gente com algo em comum Algo que brota do fundo Um amor que se faz latente Que vem como desejo ardente De, quem sabe, mudar o mundo
Mas mundo se muda por dentro E não labutando a esmo Passou da hora do treino Se quer habitar novo Reino Ama o outro como a ti mesmo
Emmanuel De Michel Colombier e Murilo Antunes Por Flávio Venturini e Milton Nascimento Eu não tenho asas pra voar Nem sonho nada que não seja de sonhar Sou um homem simples que nasceu Das entranhas de um ato de amor
Seria primavera feliz Se a voz dos homens entoasse a paz Se o dom dos homens fosse a arte de amar Se a luz dos homens Fosse emmanuel
Se o bem e o mal existem Você pode escolher É preciso saber viver
Se o bem ou mal existem Roberto Carlos
Quem espera que a vida Seja feita de ilusão Pode até ficar maluco Ou morrer na solidão É preciso ter cuidado Pra mais tarde não sofrer É preciso saber viver
Toda pedra do caminho Você pode retirar Numa flor que tem espinhos Você pode se arranhar Se o bem e o mal existem Você pode escolher É preciso saber viver
É preciso saber viver É preciso saber viver É preciso saber viver Saber viver, saber viver!
Essa me faz lembrar aquela do João Alexandre: "Enquanto se canta e se dança de olhos fechados / Tem gente morrendo de fome por todos os lados..."
O Vento e o Tempo Almir Sater e Paulo Simões
Por mais que tente Não entendo Todo mundo enlouquecendo Quem é que está com a razão
E tanta gente ainda lendo Velho e novo testamento Sem compreender a lição
Verdade é voz que vem de dentro E mata a sede dos sedentos O pior entre os meus sentimentos De mim foi levado enfim pelo tempo
Mais um milênio vem nascendo De repente se perdendo A melhor das ocasiões É só questão de investimento Em vez de armas Alimento Deixar viver, dar o pão
Nesse universo tão imenso O meu caminho eu mesmo penso E se um dia restar meu silêncio É que as minhas canções Se perderam no vento
José Cláudio Riberio da Silva, o Zé Castanha, vivia em Nova Ipixuna, num canto esquecido do Pará. Vivia na floresta e da floresta. Colhia castanhas, fazia cestos, extraía óleos, sustento e alimento da generosidade graciosa e farta da floresta. Mas insistia em denunciar aqueles que, ao redor dele, botavam tudo no chão e faziam impiedosa e gananciosamente da floresta pó.
Terça-feira, 24 de maio de 2011, Zé Castanha e sua esposa foram mortos a tiros por pistoleiros a mando das madeiriras e carvoeiras da região.
Como havia profetizado na sua palestra no TEDx Amazônia, Zé Castanha seguiu os passos resolutos de Chico Mendes e irmã Dorothy e teve o mesmo fim que eles. Até quando?
À nós fica o lembrete, quando formos comprar nossos belos móveis de madeira de lei, que eles podem vir manchados de sangue.
PS: E agora nossos deputados queridos aprovaram o insaciável Novo Código Florestal brasileiro. Três vivas para as madeireiras, agronegócio e a ganância. Impunidade e destruição venceram mais uma.
[Zé Castanha] tá de prova
Naquele lugar tem cova
Gente enterrada no chão
Saga da Amazônia Vital Farias
Era uma vez na Amazônia, a mais bonita floresta Mata verde, céu azul, a mais imensa floresta No fundo d'água as Iaras, caboclo lendas e mágoas E os rios puxando as águas
Papagaios, periquitos, cuidavam das suas cores Os peixes singrando os rios, curumins cheios de amores Sorria o Jurupari, Uirapuru, seu porvir Era fauna, flora, frutos e flores
Toda mata tem caipora para a mata vigiar Veio caipora de fora para a mata definhar E trouxe dragão-de-ferro, prá comer muita madeira E trouxe em estilo gigante, prá acabar com a capoeira.
Fizeram logo o projeto sem ninguém testemunhar Prá o dragão cortar madeira e toda mata derrubar: Se a floresta meu amigo tivesse pé prá andar Eu garanto meu amigo, com o perigo não tinha ficado lá.
O que se corta em segundos gasta tempo prá vingar E o fruto que dá no cacho prá gente se alimentar?? Depois tem passarinho, tem o ninho, tem o ar Igarapé, rio abaixo, tem riacho e esse rio que é um mar.
Mas o dragão continua a floresta devorar E quem habita essa mata prá onde vai se mudar?? Corre índio, seringueiro, preguiça, tamanduá Tartaruga, pé ligeiro, corre-corre tribo dos Kamaiurá
No lugar que havia mata, hoje há perseguição Grileiro mata posseiro só prá lhe roubar seu chão Castanheiro, seringueiro já viraram até peão Afora os que já morreram como ave-de-arribação Zé da Nana tá de prova, naquele lugar tem cova Gente enterrada no chão
Pois mataram índio que matou grileiro que matou posseiro Disse um castanheiro para um seringueiro que um estrangeiro Roubou seu lugar
Foi então que um violeiro chegando na região Ficou tão penalizado e escreveu essa canção E talvez desesperado com tanta devastação Pegou a primeira estrada sem rumo, sem direção Com os olhos cheios de água, sumiu levando essa mágoa Dentro do seu coração.
Aqui termina essa história para gente de valor Prá gente que tem memória muito crença muito amor Prá defender o que ainda resta sem rodeio, sem aresta Era uma vez uma floresta na linha do Equador