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quinta-feira, 18 de abril de 2013

Viva o progresso

Rapaziada tá em campanha no Facebook pelo novo acesso para Bombinhas pela BR 101. "Ninguém aguenta aquele trânsito" - é a reclamação geral. A solução que se propões é essa: ampliar o acesso.

A estrada rasgaria aquele mato besta de Zimbros. Valorizaria pra caramba os terrenos daquelas bandas. Faria girar uns bons milhões por lá e, de quebra, acabaria com os bichos desagradáveis que habitam a região. Além, é claro, de levar um pouco de alegria para aquelas praias tão deprimentes. Lá, hoje, ouve-se o barulhinho das marolas quebrando na areia e só. Nada dos hits do verão tocando nas pickups dos turistas. Nem das buzinas tão festivas varando a noite, embalando o sono dos nativos.

Zimbros

À noite, naquelas praias sinistras, você corre o risco de encontrar siris correndo pela areia. Imagina o perigo!

E tem ainda aquele sol quente distribuindo câncer de pele em que ousar reclinar-se na areia limpinha. Precisamos ampliar as soluções de Balneário Camboriú e Itapema, que reduzem os custos de saúde pública livrando-nos dos melanomas através das sombras dos edifícios enormes à beira-mar. Com piscina, que é pra não ter que se melar na água salgada.

O agito e a deliciosa sombra dos prédios de Balneário

"Não podemos sair prejudicados", como tão bem frisou o vereador blumenauense Zeca Bombeiro, ao voltar todo animadinho do debate sobre o Novo Código [des]Florestal. "Precisamos melhorar o nosso Estado", frisou o Zequinha, feliz porque cada município poderá desenvolver o próprio código, de acordo com seus próprios interesses. Pensa bem que alegria.

Seguindo assim, logo vamos deixar o Paraná para trás como Estado brasileiro que mais dizimou floresta atlântica. Seremos os maiorais. E os bolsos de alguns estarão recheados.

Viva o progresso!

segunda-feira, 18 de março de 2013

A mais mesquinha das infâmias

Desapegar-se dos bens materiais pode parecer virtude louvável. É frase que saiu da boca de muitos santos e profetas que rasgaram o manto negro que costuma cobrir a humanidade e deixaram entrar um pouco de luz. Mas isso era em um tempo muito distante. É imperativo, agora, lembrar a todos e a mim mesmo que eles viveram em época venalmente distinta da nossa.

Desapegar-se dos bem materiais, hoje, parece ser a atitude mais banal do mais desligado dos homo-consumistas que infestam a superfície desse planeta. Chegamos (ou estamos bem próximos de chegar) à situação definitiva em que não há mais ninguém apegado a coisa alguma, a não ser a próxima. O desapego consumista nos faz abandonar o que temos em favor daquilo que ansiamos ter e assim sucessivamente, ad infinutum. É o desapego como a mais mesquinha das infâmias. 

Aos santos resta agora bradar a plenos pulmões, de cima dos telhados, que cada objeto tem inestimável valor e é preciso apegar-se a eles como a menina a seu ursinho de pelúcia. Sua caneta Bic e os copinhos de plástico que você usou naquela festinha semana passada valem a vida de um operário que trabalha embarcado em alguma plataforma de petróleo em alto-mar, distante de sua esposa e filhos por duas longas e solitárias semanas. Sua bola de basquete vale as asas de uma borboleta lilás, verde neon e púrpura, que foi extinta e nunca mais será vista. Seu lápis (se é que você ainda tem um), vale o pinus que tirou a vida de uma imbuia e os pulmões de um minerador de grafite. Seu celular e sua tablet valem a vida de uma ou duas crianças trabalhando em condições absolutamente insalubres em algum buraco lamacento no interior do Congo, e a dor insuportável nas costas de algum taiwanês. Seu tênis bacana, com amortecedores e impulsionadores, custa as 14 horas de trabalho de uma menina nos subúrbios da China.

Isso não é pouco, suponho. Mas há muito mais. Cada objeto de consumo pelo qual pagamos uma bagatela (ou nem tanto) foi imerso em suor e sangue, em dor e lágrima, em saudade e lesão por esforço repetitivo.

Nenhuma promoção da Casas Bahia deveria ser capaz de calar esse grito.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Belo Monte

Em 1989, após passar por 21 anos de ditadura militar, o Brasil se preparava para as primeiras eleições diretas para presidente desde 1960. Cerca de três mil pessoas se reuniram na cidade de Altamira, no Pará, para participar do I Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, um marco democrático da luta em defesa da Amazônia. Quando o então presidente da Eletronorte apresentou as intenções do Governo de construir a mega-usina hidrelétrica de Kararaô, na Volta Grande do rio Xingu, a índia Tuíra se aproximou da mesa e, em um gesto emblemático, encostou o facão nas faces do “homem branco”. A imagem correu o mundo, e sua força e dramaticidade serviram para disseminar o grito de indignação dos indígenas contra as intenções de governantes e empresários de construir um complexo hidrelétrico em uma das regiões de maior biodiversidade da Amazônia.

Tuíra e Muniz Lopes, então presidente da Eletronorte


Há poucos anos, seria difícil imaginar que aquele projeto, desenvolvido quando vivíamos páginas infelizes de nossa História e praticamente sepultado durante o processo de redemocratização do país, seria ressuscitado com outro nome: Belo Monte. Pior: que, justamente em um momento de afirmação e consolidação de nossas conquistas democráticas, este projeto seria imposto de forma autoritária, desrespeitando a vontade dos povos da Amazônia, violando a legislação brasileira e ignorando tratados e mecanismos internacionais de proteção aos direitos humanos.

Surrupiado de global.org.br
Via @rondinellysm

A Rio+20 já está em pauta na mídia, mas o evento estará às sombras do Novo Código (des)Florestal, e do rasgo enorme da Belo Monte no coração da Amazônia. Triste.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Só o que interessa

Esqueçam as 780 mil crianças da Somália à beira da morte. Uma nova crise econômica se avizinha, e é somente isso que interessa. O estopim da crise? Os EUA, maiores consumidores da Terra, estão com problemas financeiros e, portanto, estão comprando menos. Se compram menos, tudo de ruim pode acontecer e nosso mundinho besta fica apreensivo; o que será de nós?

Agora, alguém me explique, por favor. O discurso planetário não é pela diminuição do consumo, sustentabilidade e essas banalidades? Os EUA finalmente consumindo menos não seria motivo de retunbante alegria para o planeta?

Balela!

Temos é que comprar adesivos ecológicos e colar em nossos carros novos. Comprar camisetas de malha PET, e muitas, sem esquecer de trocar o modelito sempre que sair de moda. Vamos manter o discurso encerado nos adesivos, estampas e postagens de blogs. Mas façam-me o favor, não parem de consumir. Quanto mais, melhor.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Ratos

Nada afasta de mim a convicção de que o homem era muito mais homem antes de inventarem o controle remoto e o ar-condicionado. Fomos criados para o desconforto.

O luxo, a sofisticação, a tecnologia, os sofás, as almofadas, os carros, as poltronas anatômicas, o isolamento térmico e acústico, a tintura para cabelo e a escada rolante são elementos importantíssimos na metamorfose terrível que nos transformou em ratos.

Haverá de chegar o dia em que, olhando para o espelho, perceberemos os pelos grossos e duros que tomaram conta de nosso corpo e nos assustaremos com a cauda pelada balançando atrás de nós enquanto corremos pelos cantos escuros e levamos a vida enfurnados em nossos buraquinhos climatizados.

Nesse dia teremos uma lembrança vaga e embaçada de que o homem um dia sentiu calor insuportável, e suou até exalar o cheiro forte de gente. Que houve também o frio e a pele rachada pelo ar seco. Que se ia a muitos lugares à pé. Que se dormia no chão ou no colchão de palha de uma hospedaria de madeira velha e se acordava com a orelha cheia de pó de cupim. E que distâncias longas demais eram cobertas em carros com manivelas para abrir o vidro, ou ainda no lombo de cavalos ou mulas e que as pernas assavam e o suor do animal se misturava com o nosso.

Haveremos de lembrar que os cabelos das mulheres tornavam-se brancos, sua pele enrugava e os seios cansavam-se de manter a pose e elas eram lindas assim.

Lembraremos que as crianças corriam soltas pelas ruas, rolavam na grama e na lama, tinham várias cicatrizes e marcas de todas as cores nas pernas e joelhos e cotovelos.

Mas estaremos tão acostumados com o conforto absurdo que nos cerca que tudo nos parecerá pura fantasia. E mesmo que sejamos avisados que nossos confortos estão nos matando de câncer ou dando um fim em todas as abelhas do planeta (e, consequentemente, em todo ecosistema), não abriremos mão de nada.
Até o dia em que tudo será arrancado de nós.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Insustentável

Quem é que gosta de crise? Eu não, que não sou besta. Mas gosto do meu planetinha. Sou metido a ecologistazinho. Não jogo nada no chão. Consumo relativamente pouco. Reciclo. Meu lixo orgânico, ao invés de ir pro aterro, vira adubo. Coisas assim. Mas se falarem em crise, tremo na base. Ai meu emprego. Ai meu sossego.

Sou, como você, escravo do paradigma do capital, da máxima do consumo. Só sobreviveremos se crescermos. E crescimento é produção, é PIB, é consumo, é mercado girando, é comércio bombando. Bombando feito bomba relógio.

O máximo que consigo desejar é um "desenvolvimento sustentável". Mesmo sabendo que, como afirmou Viveiros de Castro, isso é conversa pra boi dormir:
“A noção tão louvada de “desenvolvimento sustentável” — não se pode negar as boas intenções de quase todos que a formularam e defendem — é, no fundo, apenas um modo de tornar sustentável a noção de desenvolvimento, a qual já deveria ter ido para a usina de reciclagem das idéias. Ela é uma contradição em termos. Não existe desenvolvimento capitalista sustentável; e, salvo engano, a imensa maioria dos defensores do desenvolvimento sustentável não imagina uma alternativa ao capitalismo.“
E cá estamos nós, à mercê do capitalismo, tentando sustentar a noção de desenvolvimento que nos consome, como um louva-deus compondo poemas à sua amada enquanto é devorado por ela durante o acasalamento. Sustentamos o absurdo argumento de que, para o mundo não implodir é preciso consumir.

“O desenvolvimento é sempre suposto ser uma necessidade antropológica, exatamente porque ele supõe uma antropologia da necessidade (idem).”

A Europa e os EUA encolhem apavorados. O Brasil cresce à revelia da crise e cantarolando, cheio de si, na expectativa de ocupar em breve o merecido lugar entre os grandes. E, como sempre fizemos, vamos indo lentamente pro beleléu enquanto fazemos festa. O código florestal que se explôda, é o que nos diz confiante a bancada ruralista, e as matérias da Veja. É hora de crescer.

Quem é que vai ter coragem, diante de uma chance como essa, com os olhos brilhosos cobiçando o anel do poder, de abrir mão de tudo e abraçar uma outra lógica?
“[Precisamos da] improdução como meta, a involução intensiva como projeto coletivo de vida. Contra o mundo do “tudo é necessário, nada é suficiente”, e a favor de um mundo onde “muito pouco é necessário, quase tudo é suficiente”. Quem sabe assim tenhamos um mundo a deixar para nossos filhos (idem).”


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O Rondinelly tuitou a dica e fui conferir
o
texto preciso do Eduardo Viveiros de Castro.
Me vi forçado a escrever sobre o assunto,
e acabei lembrando de uns outros textos relacionados:
- Teologia de Balú
- Contexto
- Nossa única esperança de redenção
- Gafanhotos

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Gente enterrada no chão

José Cláudio Riberio da Silva, o Zé Castanha, vivia em Nova Ipixuna, num canto esquecido do Pará. Vivia na floresta e da floresta. Colhia castanhas, fazia cestos, extraía óleos, sustento e alimento da generosidade graciosa e farta da floresta. Mas insistia em denunciar aqueles que, ao redor dele, botavam tudo no chão e faziam impiedosa e gananciosamente da floresta pó.

Terça-feira, 24 de maio de 2011, Zé Castanha e sua esposa foram mortos a tiros por pistoleiros a mando das madeiriras e carvoeiras da região.

Como havia profetizado na sua palestra no TEDx Amazônia, Zé Castanha seguiu os passos resolutos de Chico Mendes e irmã Dorothy e teve o mesmo fim que eles. Até quando?

À nós fica o lembrete, quando formos comprar nossos belos móveis de madeira de lei, que eles podem vir manchados de sangue.

PS: E agora nossos deputados queridos aprovaram o insaciável Novo Código Florestal brasileiro. Três vivas para as madeireiras, agronegócio e a ganância. Impunidade e destruição venceram mais uma.


[Zé Castanha] tá de prova
Naquele lugar tem cova
Gente enterrada no chão



Saga da Amazônia
Vital Farias

Era uma vez na Amazônia, a mais bonita floresta
Mata verde, céu azul, a mais imensa floresta
No fundo d'água as Iaras, caboclo lendas e mágoas
E os rios puxando as águas

Papagaios, periquitos, cuidavam das suas cores
Os peixes singrando os rios, curumins cheios de amores
Sorria o Jurupari, Uirapuru, seu porvir
Era fauna, flora, frutos e flores

Toda mata tem caipora para a mata vigiar
Veio caipora de fora para a mata definhar
E trouxe dragão-de-ferro, prá comer muita madeira
E trouxe em estilo gigante, prá acabar com a capoeira.

Fizeram logo o projeto sem ninguém testemunhar
Prá o dragão cortar madeira e toda mata derrubar:
Se a floresta meu amigo tivesse pé prá andar
Eu garanto meu amigo, com o perigo não tinha ficado lá.

O que se corta em segundos gasta tempo prá vingar
E o fruto que dá no cacho prá gente se alimentar??
Depois tem passarinho, tem o ninho, tem o ar
Igarapé, rio abaixo, tem riacho e esse rio que é um mar.

Mas o dragão continua a floresta devorar
E quem habita essa mata prá onde vai se mudar??
Corre índio, seringueiro, preguiça, tamanduá
Tartaruga, pé ligeiro, corre-corre tribo dos Kamaiurá

No lugar que havia mata, hoje há perseguição
Grileiro mata posseiro só prá lhe roubar seu chão
Castanheiro, seringueiro já viraram até peão
Afora os que já morreram como ave-de-arribação
Zé da Nana tá de prova, naquele lugar tem cova
Gente enterrada no chão

Pois mataram índio que matou grileiro que matou posseiro
Disse um castanheiro para um seringueiro que um estrangeiro
Roubou seu lugar

Foi então que um violeiro chegando na região
Ficou tão penalizado e escreveu essa canção
E talvez desesperado com tanta devastação
Pegou a primeira estrada sem rumo, sem direção
Com os olhos cheios de água, sumiu levando essa mágoa
Dentro do seu coração.

Aqui termina essa história para gente de valor
Prá gente que tem memória muito crença muito amor
Prá defender o que ainda resta sem rodeio, sem aresta
Era uma vez uma floresta na linha do Equador

quinta-feira, 12 de maio de 2011

O Deus moribundo

"Não olhamos para as árvores como Dríades ou como belos objetos quando as cortamos em feixes para lenha: o primeiro homem que fez isso deve ter sentido o preço agudamente... As estrelas perderam sua divindade à medida que a astronomia se desenvolveu, e o Deus Moribundo não tem lugar na agricultura química. (...). Reduzimos as coisas à mera natureza de modo a que possamos 'conquistá-las'."

C. S. Lewis em A Abolição do Homem.



Veja também:
Apesar de Copérnico, todo cosmos gira ao redor de nosso pequeno globo

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Sustentabilidade de consumo

Dia 29 de outubro de 2010.

Gerência Geral

Carta Circular nº 1001

ASSUNTO: Sustentabilidade do Consumo

Pelo bem de um mundo sustentável, o Deus Mercado concede às indústrias a graça de produzir artefatos que utilizem matéra-prima reciclada, porém não abre mão de que o montante produzido seja comercializado com urgência e aos milhões - quanto mais melhor.

Para tanto, exige propaganda massificada, usando os mais variados meios, especialmente aqueles que dão ao consumidor a ilusão de estar participando ativamente de um processo consciente e sensato de decisão de compra, chamados mídias sociais.

Estabelece também que os termos, 'sustentabilidade', 'ecológico' e 'verde' devem ser exaustivamente repetidos em toda peça publicitária e todas as convenções de venda e marketing, mesmo que seja evidente que a intenção única é alavancar vendas e aumentar o consumo tanto quanto possível - quanto mais melhor.
Qualquer menção à uma vida mais simples, pautada na diminuição do consumo, em viver com menos, no incentivo à produção de bens robustos e duráveis, na crítica aos modismos, todos eles criados tão somente para tornar obsoleto aquilo que ainda funciona muito bem, incentivando assim o aumento do consumo, deve ser reservada àquela revistinha bonitinha da editora Abril, a ser sempre comercializada em conjunto com a Cláudia e a VIP.

Fica definido, por fim, que somente o ser-humano possuidor de muitos bens - quanto mais e mais luxuosos melhor - será considerado feliz, ficando à cargo de todos o desejo eterno de possuir aquilo que ainda não possuem e depositar em um ponto futuro toda a esperança de descanso, desfrute e deleite pessoal, desde que saboreado sozinho sobre um luxo de poltrona em forma de concha e diante de uma TV 3D de 51 polegadas.


Atenciosamente.
D. M.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Como fica?

"Sabemos que toda a natureza criada geme até agora, como em dores de parto." Rm 8.22



"Pois vejam! Criarei novos céus e nova terra, e as coisas passadas não serão lembradas. Jamais virão à mente!" Is 65.17

"Todavia, de acordo com a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, onde habita a justiça." 2Pe 3.13

"Então vi novos céus e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham passado; e o mar já não existia." Ap 21.1

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O comentário do Rubinho (abaixo) me fez lembrar de um texto importantíssimo que colei aqui no blog em 2007. Não deixe de ler: Apesar de Copérnico, todo cosmos gira ao redor de nosso pequeno globo.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Lixo eletrônico X Lixo Político

Políticos costumam fazer com bons projetos de lei o mesmo que o cristianismo fez com a mensagem de Jesus. Modificá-los sutilmente até que se tornem irrelevantes.

Acontece agora, enquanto tramita na Câmara dos Deputados o PL 203/91 sobre a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Lixo.

"Sem qualquer consulta ou justificativa plausível, um "grupo de trabalho" alterou a redação do artigo 33, que regulamenta a logística reversa e a reciclagem, e retirou a menção aos produtos eletro-eletrônicos. Com essa alteração, o projeto de lei que deveria criar a Política Nacional de Resíduos Sólidos passa a ignorar a existência do lixo eletrônico, problema crescente e de alto custo sócio-ambiental.

Por esta razão o 'Coletivo Lixo Eletrônico' toma a iniciativa de pressionar os deputados e senadores para a re-inclusão dos produtos eletro-eletrônicos no PL 203/91 através da criação e divulgação do "Manifesto Lixo Eletrônico: pela inclusão dos produtos eletro-eletrônicos na Política Nacional de Resíduos Sólidos".

Se concordar com os termos deste Manifesto, assine a petição online e ajude-nos a divulgá-lo."


Via Rubinho
Conheça o site lixoeletronico.org

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Disse e salvei a minha alma

(...) Os encaminhamentos do G-20 mantêm a acumulação do capital como o principal motor do funcionamento da economia e o mercado livre como o lugar de sua reprodução. Isso simplesmente é mais do mesmo. Não ataca as causas que levaram à crise. A crise econômico-financeira é vista fora do contexto global de crise: social, alimentária, energética, climática e ecológica. Todas estas crises são consideradas como externalidades, quer dizer, fatores que não entram na contabilidade do capital, como o deslocamento de milhões de pessoas do campo para as cidades, o desflorestamento, a contaminação do solo, do mar e do ar. Estes fatores só são tomados em consideração quando se revelam empecilho para os ganhos do capital.

Mas não há como evitar a questão ética: trata-se de uma solução que contempla a humanidade como um todo e que garante a vitalidade ao planeta Terra? Ou simplesmente se trata de salvar o sistema do capital para beneficiar os que acumulam? (...)

Tudo indica que se trata de uma crise do sistema. As duas externalidades maiores – a social e a ambiental – não ganham centralidade. Mas elas são de tal gravidade que põem em xeque as soluções propostas, possuindo somente sustentabilidade a curto e a médio prazo. Depois voltará a crise, possivelmente, sob a forma de tragédia ou de farsa (Marx).

(...) A crise ecológica não é menor. Estamos já dentro do aquecimento global, que vai ser devastador para milhões de pessoas e para a biodiversidade. E. Wilson, renomado biólogo, denunciou que a cada ano a voracidade capitalista elimina definitivamente 3.500 espécies de seres vivos. Diante deste quadro dramático, só nos resta repetir o que deixou escrito em latim o gênio da crítica ao capital: "Dixi et salvavi animam meam".

Leonardo Boff, no Jornal do Brasil. Via Pavablog.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A nova tragédia de Santa Catarina

Texto escrito por Marina Silva dia 30 de março. No dia seguinte a proposta do novo código foi aprovado pelos deputados catarinenses. Agora ainda terá que passar pelas mão do governador.

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NO FINAL de 2008, as imagens da grande tragédia de Santa Catarina impregnaram de dor e perplexidade os olhos e corações de todos os brasileiros. Enchentes acontecem, mas o impacto foi muito maior devido à destruição sistemática do ambiente no Estado, campeão nacional de desmatamento dos remanescentes da mata atlântica na última década.

Agora, mais precisamente amanhã, nova tragédia ameaça Santa Catarina e o Brasil. Desta vez ela é política.

A Assembleia Legislativa votará, em meio a um megaesquema de propaganda agressiva contra os ambientalistas, projeto de lei que inacreditavelmente pretende, entre outros absurdos, reduzir a faixa de proteção das matas ciliares, nas margens dos cursos d'água, de 30 para apenas 5 metros!

Desde 2001 há iniciativas para elaborar um código ambiental estadual. Em 2006, entidades do setor produtivo recomendaram que ele se fundamentasse na "estrutura fundiária do Estado e em suas peculiaridades regionais". O que isso queria dizer vê-se agora.

Ao longo de 2007, debates coordenados pelo órgão ambiental estadual (Fatma) resultaram em proposta encaminhada à Secretaria de Desenvolvimento Sustentável e entregue solenemente ao governador em março de 2008. Desde então, governo e membros da Assembleia desfiguraram de tal modo o texto que ele pode ser chamado de Código Antiambiental.

Retira competências e responsabilidades dos órgãos estaduais na proteção ambiental, reduz áreas protegidas e atenta contra a Constituição e a legislação federal, numa verdadeira desobediência civil às avessas, em nome de um pretenso desenvolvimento. Bons tempos em que a desobediência civil era praticada em favor da sociedade.

Desse tipo de desenvolvimento já conhecemos os resultados, tanto no nível global quanto no local, como muito bem sabem os catarinenses que perderam suas famílias e casas nas enchentes de 2008.

Aonde querem chegar? Impossível não associar o que acontece em Santa Catarina com as reiteradas tentativas, no Congresso Nacional, de mudança no Código Florestal para flexibilizar normas ambientais. Como a pressão da sociedade e a atenção da mídia nacional têm empatado essas articulações em Brasília, parte-se agora para uma estratégia de minar o código nos Estados, apostando no fato consumado de "leis estaduais" sob encomenda, que desfigurem a legislação federal.

Santa Catarina deu a senha para arrombar a porta. Agora é o momento de saber de que substância é feito o Estado brasileiro.

contatomarinasilva@uol.com.br

Marina Silva
Gentilmente surrupiado do excelente
blog blumenauense Um escambau.


Veja também:
Aprovação é preocupante - entrevista com Marina Silva
Código anti-ambiental - O eco
SC chafurda em Novo Código - blog da terra
Mexeram no código - de olho na capital

A trilha - Em todos os cantos
A trilha - O monstro

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Ecofonte

Quem não recebeu um email com o sugestivo texto de assinatura parecido com esse?

Antes de imprimir pense em sua responsabilidade com o meio ambiente.

Interessante, sem dúvida. Um pequeno hábito de grandes consequências. Agora, porém, a agência de comunicação Spranq levou a idéia adiante e desenvolveu, para quando imprimir é a única saída, uma fonte ecologicamente (ou economicamente, dependendo do ponto de vista) correta.

Na onda da computação verde, a agência de comunicação SPRANQ da Holanda desenvolveu uma fonte de caracteres TrueType ecologicamente correta: o Spranq Eco Sans — ou apenas Ecofont — que, segundo seus criadores, pode economizar até 20% de tinta numa impressão.

Baseada no Vera Sans (uma fonte open source) a grande sacada da Ecofont é que seus caracteres são vazados com pequenos furos que, na hora de imprimir, diminui a área de cobertura de tinta.

Já instalei a minha.

Fonte: ZumoBlog

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Gênesis

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

11.

No princípio criou Deus as montanhas, os vales e as falésias. E neles plantou os pequenos afloramentos rochosos, as paredes colossais, as fendas, fissuras, chaminés e tetos, e as espantosas plantas rupestres endêmicas. E cercou-os com o vôo provocante dos urubus, os mares de nuvens e o efeito alucinante provocado pela refração dos raios de sol na densa neblina que envolve os corpos dos montanhistas solitários, cercando-os de uma aura multicolorida, em eventos tão físicos quanto espirituais. E criou também os mocós, as tempestades, as nuvens galopantes abraçando carinhosamente o contorno do relevo, o vento gelado, os platôs improváveis e abençoados, as agarras exatas nos lugares exatos e aquele pequeno arbusto impossível, isolado em centenas de metros de rocha vertical, agarrado à parede com milhares de raízes, como fios de cabelo, presas em saliências minúsculas. E viu Deus que isso era bom. Ah, e como era bom.

Depois fez o homem e a mulher, e colocou-os em um jardim, no vale entre dois grandes rios, mas os fez olhar para os montes e disse-lhes: “Andem por todos os vales e bebam de todos os rios, mas saibam que somente no cume desses montes encontrarão a parte que lhes falta. Pois quando os fiz, retirei parte de vocês, e plantei em algum ponto de alguma dessas montanhas.” E foi nesse dia que nasceu no homem o desejo de conhecer todos os cumes e faces e paredes de todas as montanhas. Jamais, em qualquer das aventuras, travessias e escaladas que o homem empreendeu desde sua criação, pretendeu ele algo mais do que encontrar-se a si mesmo.

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Eu abri os olhos para esse desejo latente quando observava, em uma pedreira abandonada, alguns cabeludos com calças de lycra ridículas, presos à cordas coloridas, pendurados pela ponta das mãos e dos pés, movendo-se com precisão felina pelas paredes de granito cinza. Depois daquele dia, uma sucessão de fatos coincidentes conduziram-me definitivamente à prática desse esporte não-esporte.

Naqueles tempos remotos, não tínhamos acesso a informação alguma. Equipamentos custavam tanto quanto nosso próprio fígado. Não sabíamos nada sobre cursos e não havia internet, nem google (santo Deus, como sobrevivíamos?). As informações estavam devidamente escondidas em locais secretos e inacessíveis. Cavocávamos onde podíamos para encontrar algo que nos conduzisse com segurança, nos tortuosos e confusos caminhos que trilhávamos, mas dependíamos muito mais da nossa imaginação. Em muitos casos, nossas criações eram absolutamente absurdas. Vou lhes contar, em segredo, algumas delas.

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Nossa primeira escalada foi na mesma pedreira onde encontramos aqueles alienígenas cabeludos. Amarramos a corda, em cima do bloco rochoso, em vários pontos de concreto que estavam abandonados por lá. Tínhamos adquirido, à muito custo, um único mosquetão mimado por todos, e uma única cadeirinha. Amarramos uma vítima na ponta da corda, que passava pelo mosquetão, lá em cima, e descia até a tampa de um bueiro. Passava por lá e seguia até nosso grupo. Amarramos a corda na cintura do mais pesado de nós e o restante segurou firmemente. Enquanto a vítima tentava escalar alguma coisa, a turma agarrada na corda em fila indiana caminhava para mantê-la tensionada. Em várias situações, içávamos a vítima que não conseguia vencer determinados pontos da parede. Feche os olhos e tente imaginar a cena, sem rir, nem chorar.

Depois dessa lamentável experiência, começamos a evoluir rapidamente. Eu e meu parceiro fiel (irmão camarada) compramos um único par de tênis de escalada. Íamos para montanha com nossos três mosquetões e encarávamos as vias que nos pareciam mais fáceis. Tínhamos também um freio oito e um maione feito em casa (que hoje em dia ninguém sabe mais o que é). Um mosquetão ficava com o segurança e o guia escalava com os outros dois. A cada duas costuras, o infeliz tinha que buscar o mosquetão de baixo. Chegando na parada, quando a via era mais difícil, o tênis era lançado para o segundo. Num desses lançamentos, o par caiu dentro de uma fenda estreita, uns dois metros rocha adentro, entalado entre as paredes, à dois metros do chão. Filho único de pai solteiro, aquele par de calçados tinha valor inestimável. Acreditei que seria possível resgatá-lo e entrei de cabeça na fenda. O peito e as costas roçavam na pedra áspera enquanto puxava o meu próprio corpo em direção àquele funil, sem parar para pensar no retorno. E sucedeu conforme o previsível. Alcancei o calçado, mas entalei.

Com o tronco travado firmemente entre as duas paredes de rocha, praticamente perdi a capacidade de dilatar o peito e encher o pulmão de ar. Clamei por socorro com desespero suficiente para fazer meu irmão rapelar com certa urgência para o resgate da sardinha enlatada. Com goles pequenos e rápidos de ar, como a gestante aprende a fazer no curso ‘parto sem medo’, mantive a mente oxigenada enquanto desenvolvíamos em conjunto alguma engenharia capaz de me sacar daquela situação humilhante. Acabei, depois de muito esforço, e sem soltar o par de tênis da mão, conseguindo a liberdade. Apesar da estupidez da situação, minha vida, ali, esteve por um fio.

O próximo passo na nossa vertiginosa ascensão no mundo das escaladas era natural. Encontramos aquela parede virgem cercada por um pântano fétido e ouvimos o clamor da rocha, ansiando ser escalada. Lançamo-nos em detalhada investigação sobre os mistérios da conquista. Clifs, rurps, nuts, estribos e uma série de novos termos passaram a enriquecer nosso vocabulário. Obviamente tínhamos acesso somente às palavras. Para a primeira via que abrimos, tivemos que usar nossa criatividade e inconseqüência. Entortamos algumas chapas de metal e fizemos nossos próprios clifs. Muito bons, por sinal. Compramos brocas com ponta de vídea e uma bela marreta... de 3 kg. Além disso, selecionamos algumas chaves de boca bem robustas da nossa caixa de ferramentas, que usamos como proteção em algumas fissuras. Os primeiros furos foram feitos assim mesmo. Clifs caseiros, chaves de boca, estribos feitos com corda de varal e uma marreta de 3kg batendo diretamente sobre as brocas, sem mandril. Além de terminarmos o dia com o braço latejando pelo peso da marreta, quebramos todas as brocas. Nas semanas seguintes descobrimos que uma marretinha de 300g seria suficiente, e conseguimos um belo mandril emprestado. Com esse arsenal abrimos três vias de 15 a 20 metros onde hoje se encontra um famoso teatro. O pântano virou um lago repleto de peixes e patos, e tem até uma cachoeirinha. Mas o acesso às vias foi proibido.

O engraçado foi ver, semanas depois da proibição, uma campanha publicitária convidando o Brasil inteiro para fazer turismo em Curitiba. Uma das cenas de destaque era o recém inaugurado teatro, com a bela parede de granito ao fundo. Então a câmera viajava em direção à uma dupla de escaladores na via que abrimos com nosso suor e sangue, mostrando, em um momento mágico, a fusão de cultura, esporte, lazer e meio-ambiente. Politicagem miserável. Propaganda enganosa. Ninguém nunca mais pode escalar ali.

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Acompanhe:
Incríveis histórias medíocres de montanha – a série
1. Apresentação
2. O menino de asas
3. Queda livre

4. Às vezes falha
5. O Raio que o parta
6. Sopão
7. Cadê o caroço
8. Do piso ao teto
9. A chave da terra de Malboro
10. Meia lua inteira

11. Gênesis

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Quarto Mundo

Iluminado pela melodia do Rubens, ofereço minha seleção de louvores ao meio ambiente.

Abrimos com a fabulosa ‘Quarto Mundo’ de Egberto Gismontti. Depois vem Xangai em ‘Matança’, sua louvação às árvores e Vital Farias na terrível ‘Saga Amazônica’. Para encerrar com chave de ouro, o mestre Elomar entoando o ‘Canto de um guerreiro Mongoió’.

Especialmente selecionadas para se ouvir na rede, tomando um tererê.




quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Astros bailando

E começa um novo ano.

Terra e sol seguem bailando.
O astro rei com a mão estendida,
tocando a pequenina mão da terra,
apoiando suavemente a moça
que gira em torno dele e de si.

Não sei como não ficamos tontos.
Aliás, ficamos, e cada vez mais.
Na roda-viva da vida, de tanto bailar,
a humanidade entorta e leva o planeta consigo.
Alguém, por favor, desligue a música.

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Todo novo ano exige alguma reflexão. Exige também um telefonema, um email, um torpedo, um cartão ou, pelo menos, uma postagem no blog, desejando que dê tudo certo.

Um bom ano a todos.

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Leia também:
Apesar de Copérnico, todo o Universo
gira ao redor de nosso pequeno globo.


A Natureza tal como ela é.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Arborismo Clandestino


Arborismo Clandestino
Upload feito originalmente por Tuco Egg
Era uma tarde quente de domingo quando Gilvan e Arnaldo* entraram clandestinamente na trilha, caminhando como quem observa bromélias, borboletas e colibris. Juntos, imaginavam a melhor forma de vencer a série de obstáculos proibidos que se impunha acima deles, entre cordas e cabos de aço, vários metros acima do solo. Tinham que ser discretos. Não podiam ser vistos. Juntos, já haviam feito muita coisa em tempos idos.

Na juventude, transpuseram montanhas e paredes de rocha. Desceram encostas pendurados em finas cordas como pêndulos regidos pelo vento. Acamparam mantendo-se com sanduíches de presunto amarelado e beberam água de caraguatás. Na infância, venceram exércitos inimigos, monstros, dragões, terroristas, seqüestradores, os mais temíveis vilões e piratas caolhos, tatuados e repletos de cicatrizes. Mas já há alguns anos não caminhavam juntos. O tempo, senhor cruel da história, une e separa quem bem entende, das formas mais inesperadas e absurdas, como não poderíamos jamais compreender – ao menos não enquanto as coisas acontecem. Gilvan sabia disso melhor do que ninguém.

Mas naquele instante não pensavam nisso. Concentravam-se apenas nas cordas, nas amarras, nos degraus, nos troncos pendentes e na amizade que os uniu sempre e que os unia de novo naquele momento. Clandestinos nas copas das árvores, ambos sabiam que o tempo é também senhor gracioso da história e oferece cura aos males que causa.

* Os nomes foram alterados para preservar a identidade dos infratores.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Eu vi Deus em uma nuvem

Por Vinicius em 9/08/06

Sinto-me sensível, o que quer que isso possa significar para um homem feito como eu, de barba desgranhada na cara. Minha inspiração para esse texto, e para todo o resto que virá a seguir, pode não ser divina, mas eu estou impulsionado a falar do céu.

Quero começar contando que eu já chorei algumas vezes na montanha. Admito e não vejo problema algum em assumir isso. Já vi muita gente chorando na montanha, seja por alegria ou por dor. Você, quem sabe, já tenha passado por essa situação também. A minha primeira vez foi numa ocasião há vários anos, quando eu estava indo sozinho para um lugar que não conhecia direito, e a noite, com uma chuva torrencial, cai em lágrimas muito tristes. Eu me perguntava:
- Vinicius, o que você está fazendo aqui nesse fim de mundo, ainda por cima sozinho? Olha essa chuva lá fora!

Mas a noite em algum momento acaba, tão certo quanto a leveza do ar. E ao amanhecer, sem a chuva e com o sol aparecendo entre as nuvens, eu já não estava mais amedrontado. Passou, a vida continuou e eu lembro com saudades daquele tempo de descobertas. Hoje, eu uso essa passagem em conversas de bar, com outros montanhistas:

- Cara, então, teve uma vez que eu fui pra esse lugar aí, e caí no maior choro a noite… bruta fiasco!
- Ah, sério?
- Sério véio. Eu comia bolacha Maria, tomava um gole de suco e chorava muito.
- Hahaha… Ei Fulano, ouve aqui o que o Vinicius está falando, vê se é possível… Vai, explica de volta essa história.

Mas as lágrimas mais significativas, as que até hoje me dão arrepio e emoção, foram as que rolaram pelo mais espetacular mar de nuvens que eu vi em toda a minha vida de montanhista. Algo grandioso, infinito. Eu estava numa grande montanha aqui do nosso estado, e até onde a vista alcançava, estava tudo tomado pelo branco, e sutil era o espaço onde acabavam as nuvens e começava o céu. Uma espessa cobertura de aparência fofa e banhada pelo entardecer, com as sombras das grandes montanhas projetadas sobre ela. Admirei aquela cena com espanto, e a surpresa, pouco a pouco, foi dando lugar a uma enorme insignificância. Senti-me pequeno, dá pra dizer que foi isso. E um estalo abriu meu cérebro, e eu chorei, pois estava vendo Deus. Sim, diante de mim estava Deus, mesmo que eu não soubesse disso no momento.

Por estalo também, me vi inspirado a fazer um vídeo sobre o assunto. Essa inspiração dizia que Deus assume muitas formas quando quer se comunicar conosco. Para Moisés, na passagem do deserto no Velho Testamento, Ele apareceu com uma sarça ardente. Para você, Deus pode se manifestar como um segredo; para outro, como a coisa mais óbvia do mundo. Para alguns, até, Ele tenta se mostrar, mas não consegue simplesmente porque não pode forçar a barra. E eu acabei descobrindo que para mim, Deus se manifesta como nuvem. Eu já tinha sido tocado sobre esse aspecto no passado, dentro da relação Criador/criatura, mas a minha visão ainda estava bloqueada. Agora não, esse pedaço que explica minha vida na Terra, principalmente como montanhista, não me é mais mistério. Foi essa revelação que norteou a construção desse vídeo, que representa a pura intenção de mostrar uma busca espiritual. Se você for assisti-lo, peço que preste atenção à seqüência inicial, pois é a cena que descrevo nesse texto. Você, certamente, não verá as nuvens com os mesmos olhos que eu vi, mas essa é a imagem primordial, a que dá razão às demais. Claro, veja o resto do filme, mas fique atento ao início.

Todas as seqüências utilizadas estão impregnadas de nuvens. Desta vez não pretendo contar muito sobre as imagens, exceto que elas são de minha autoria, que são todas paisagens paranaenses e que apenas uma delas não foi feita nas montanhas. Algumas cenas são óbvias, outras não. A música é a perfeita Tema da Montanha, do filme Extremo Sul. Como essa música foi feita para um filme de montanha, coube certinha para o meu vídeo também. Ademais, incluí uns trechos da Bíblia para compor o material. Pra fechar, deixo um pequeno alerta: esse vídeo merecia ficar em qualidade máxima, portanto, serão milhões de bytes para baixar. Sugiro até, que você primeiro espere o filme carregar inteiro, antes de assitir.

Agora eu estou olhando pela janela e o céu está totalmente limpo. A Serra do Mar está ali e suas montanhas me convidam a um passeio. E eu aqui, me sentindo tão só… Como posso continuar vivendo sem ver as nuvens do céu?




Texto do Vinicius Ribeiro, consentidamente sugado para cá.
http://amontanha.com.br

quinta-feira, 21 de junho de 2007

A magnífica expedição ao quintal de casa

Passei alguns anos da minha vida aproveitando todo tempo livre para dedicar-me a subir montanhas. Desde trilhas leves até paredes verticais de rocha, com alto grau de comprometimento, passando pelas maravilhas do vôo livre, lançando-me no vazio do cume de algumas serras por aí.

Recentemente, com o advento das responsabilidades paternas, afastei-me desse meio, salvo por uma ou outra incursão, como a travessia do ano passado.

Mas continuo fazendo planos mirabolantes em minha mente. E sempre penso em como incluir meus pequenos bacuris nas minhas andanças. É verdade que já subi o humilde Spitzkopf algumas vezes. Recentemente estivemos também no cume do Morro dos Perdidos, em Tijucas do Sul – um excelente passeio em família. Mas minha mania de grandeza me faz sempre pensar em feitos extravagantes e raramente observar as oportunidades simples e adoráveis ao meu redor.

Felizmente meus filhos têm a cabeça muito mais no lugar que eu, e me convidaram para uma irrecusável aventura no quintal de casa. Nos armamos de botas de caminhada, mochila, lanche, água, chapéu e binóculos e nos lançamos nas emoções e perigos da terrível floresta no nosso quintal.

Quintal de casa

Quintal de casa

Quintal de casa

Nunca teria pensado nisso, não fosse o eterno apetite da infância.


Mais fotos aqui e aqui.