A ausência do Deus presente
Há entre os cristãos (especialmente os de linha protestante/evangélica), uma dificuldade enorme de lidar com a ausência do Deus presente por eles anunciado. A maior parte do mundo evangélico brasileiro contemporâneo prega e busca esse Deus que está sempre à disposição. Evidentemente há uma dificuldade enorme de encontrá-lo de fato nessa forma de Deus-que-me-serve-sempre-que-preciso, o que acaba gerando uma inevitável reação. Os cristãos que julgam servir o Deus presente acabam, uma hora ou outra, criando mentalmente respostas às suas demandas, enganando a si mesmos quando as atribuem à Deus.
Essas respostas podem ser conscientemente criadas ou não.
Quando são conscientes, costumam ser fruto de hipocrisia religiosa - preciso mostrar aos outros que
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sexta-feira, 22 de agosto de 2014
sexta-feira, 11 de julho de 2014
O que ele disse
Jesus nos ensinou como viver, mas agimos como se tivesse nos ensinado como pregar.
Ele veio para que tivéssemos vida, mas agimos como se fosse para que tivéssemos o discurso correto.
Nos ensinou a servir, mas queremos convencer.
Nos ensinou a amar incondicionalmente, mas aprendemos a incluir uns e excluir outros do nosso abraço.
Foi amigo de pecadores, nós só nos aproximamos de santos.
O representante típico do cristianismo retira da boca de Jesus parte de seu mais famoso sermão e a aplica contra o mestre: vocês ouviram o que Ele disse, eu porém vos digo.
Ele veio para que tivéssemos vida, mas agimos como se fosse para que tivéssemos o discurso correto.
Nos ensinou a servir, mas queremos convencer.
Nos ensinou a amar incondicionalmente, mas aprendemos a incluir uns e excluir outros do nosso abraço.
Foi amigo de pecadores, nós só nos aproximamos de santos.
O representante típico do cristianismo retira da boca de Jesus parte de seu mais famoso sermão e a aplica contra o mestre: vocês ouviram o que Ele disse, eu porém vos digo.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Esse mistério natural e terreno
Umberto Eco e Jesus Cristo
Extraído de 'Cinco Escritos Morais' Recorte do texto: “Quando o outro entra em cena”
Procure... para o bem da discussão e do conforto em que acredita, aceitar, mesmo que por um só instante, a hipótese de que Deus não exista: que o homem, por um erro desajeitado do acaso, tenha surgido na Terra entregue a sua condição de mortal e, como se não bastasse, condenado a ter consciência disso e que seja, portanto, imperfeitíssimo entre os animais. [...]
Esse homem, para encontrar coragem para esperar a morte, tornou-se forçosamente um animal religioso, aspirando construir narrativas capazes de fornecer-lhe uma explicação e um modelo, uma imagem exemplar. E entre tantas que consegue imaginar – algumas fulgurantes, outras terríveis, outras ainda pateticamente consoladoras – chegando à plenitude dos tempos, tem, num momento determinado, a força religiosa, moral e poética de conceber o modelo do Cristo, do amor universal, do perdão aos inimigos, da vida ofertada em holocausto pela salvação do outro.
Se fosse um viajante proveniente de galáxias distantes e visse-me diante de uma espécie que soube propor-se tal modelo, admiraria, subjugado, tanta energia teogônica e julgaria redimida esta espécie miserável e infame, que tantos horrores cometeu, apenas pelo fato de que conseguiu desejar e acreditar que tal seja a verdade. Abandone agora também a hipótese e deixe-a para os outros: mas admita que, se Cristo fosse realmente apenas o sujeito de um conto, o fato de que esse conto tenha sido imaginado e desejado por bípedes implumes que sabem apenas que não sabem, seria tão milagroso (milagrosamente misterioso) quanto o fato de que o filho de um Deus real tenha realmente encarnado. Este mistério natural e terreno não cessaria de perturbar e adoçar o coração de quem não crê.
Extraído de 'Cinco Escritos Morais' Recorte do texto: “Quando o outro entra em cena”
Procure... para o bem da discussão e do conforto em que acredita, aceitar, mesmo que por um só instante, a hipótese de que Deus não exista: que o homem, por um erro desajeitado do acaso, tenha surgido na Terra entregue a sua condição de mortal e, como se não bastasse, condenado a ter consciência disso e que seja, portanto, imperfeitíssimo entre os animais. [...]
Esse homem, para encontrar coragem para esperar a morte, tornou-se forçosamente um animal religioso, aspirando construir narrativas capazes de fornecer-lhe uma explicação e um modelo, uma imagem exemplar. E entre tantas que consegue imaginar – algumas fulgurantes, outras terríveis, outras ainda pateticamente consoladoras – chegando à plenitude dos tempos, tem, num momento determinado, a força religiosa, moral e poética de conceber o modelo do Cristo, do amor universal, do perdão aos inimigos, da vida ofertada em holocausto pela salvação do outro.
Se fosse um viajante proveniente de galáxias distantes e visse-me diante de uma espécie que soube propor-se tal modelo, admiraria, subjugado, tanta energia teogônica e julgaria redimida esta espécie miserável e infame, que tantos horrores cometeu, apenas pelo fato de que conseguiu desejar e acreditar que tal seja a verdade. Abandone agora também a hipótese e deixe-a para os outros: mas admita que, se Cristo fosse realmente apenas o sujeito de um conto, o fato de que esse conto tenha sido imaginado e desejado por bípedes implumes que sabem apenas que não sabem, seria tão milagroso (milagrosamente misterioso) quanto o fato de que o filho de um Deus real tenha realmente encarnado. Este mistério natural e terreno não cessaria de perturbar e adoçar o coração de quem não crê.
descaradamente surrupiado do site do Ricardo Gondim,
graças à dica do João Marcos @jo_marcos
http://www.ricardogondim.com.br/perolas/umberto-eco-e-jesus-cristo/
domingo, 20 de abril de 2014
Poema pascal
Isso está ficando repetitivo, mas simplesmente não consigo evitar. Toda páscoa coloco aqui a mesma música, e de novo, e de novo.
É que não existe maior poema pascal que esse.
E não existe nada mais pascal que um poema.
A poesia da ressurreição chama-se "O Amor", porque não há nada diferente do amor que possa gerar vida. Tragar das sombras o corpo inerte e colocá-lo de novo em pé é o benefício maior do amor que alcança e abraça o desgraçado em uma de suas mortes, e o faz eternamente, e de novo, e de novo.
Clique no play e feche os olhos, prostrado ao chão, em reverência e adoração.
Música e Caetano Veloso sobre adaptação de poema de Maiakovski, na voz de Renato Braz.
Ressuscita-me
Lutando contra as misérias do cotidiano
É que não existe maior poema pascal que esse.
E não existe nada mais pascal que um poema.
Ressuscita-me
Quero acabar de viver o que me cabe
A poesia da ressurreição chama-se "O Amor", porque não há nada diferente do amor que possa gerar vida. Tragar das sombras o corpo inerte e colocá-lo de novo em pé é o benefício maior do amor que alcança e abraça o desgraçado em uma de suas mortes, e o faz eternamente, e de novo, e de novo.
Clique no play e feche os olhos, prostrado ao chão, em reverência e adoração.
Música e Caetano Veloso sobre adaptação de poema de Maiakovski, na voz de Renato Braz.
quarta-feira, 16 de abril de 2014
Páscoa é quarto de adolescente
É verdade que o Natal virou o feriado mais famoso do calendário cristão. Mérito maior do Papai Noel e todo aparato comercial em torno dele, é claro, além das férias que acompanham a festividade. Você me dirá que a universalização da Páscoa também é fruto de aparatos comerciais, com seus coelhos e ovos, e eu não terei como negar, mas não é isso que vem ao caso agora.
O que é preciso salientar é que é a Páscoa, e não o Natal, o Grande Evento que virou o mundo de pernas para o ar. Deus entre nós em carne e osso (o Natal), teria sido história razoável para a humanidade não tivesse ele morrido esfolado e solitário em humilhante evento público. É esse o evento que inverte tudo, que revira tudo, que descontrói tudo, que deixa tudo de pernas pro ar, feito quarto de adolescente. O nascimento do menino Deus é belíssimo e cativante. Deus nu e em farrapos na cruz é rude e revoltante.
"Salvou a outros e a si mesmo não pode salvar", é o que diziam, orgulhosos de si, os fariseus ao pé da cruz. E estavam certos. De fato não podia. A cruz não é só Deus em farrapos. É Deus fraco e sem poder. Porque se salvasse a si mesmo, seria o triunfo da força e o consequente fim de sua mensagem de graça e amor irrestritos. Se salvasse a si mesmo, condenaria a humanidade a seguir o caminho da do poder, da opressão do forte sobre o fraco. Mas o amor o colocou nessa incrível sinuca de bico: para salvar os outros, não poderia salvar a si.
O amor é o sentimento dos fracos, era argumento recorrente de Nietzsche. E ele não podia estar mais certo. Foi o amor que levou Deus à insanidade de esvaziar-se de si e, portanto, fragilizar-se por completo, tornando-se um de nós e obedecendo até a morte a voz interior que lhe dizia que a vitória do amor faria tudo valer à pena.
Sim, Cristo ressuscitou, mas só depois de haver vivido e morrido. É assustadoramente ridículo ter que afirmar o óbvio mas é, acima de tudo, necessário. Porque seguir o mestre é seguir seus passos enquanto vivo. É portanto, fragilizar-se como ele, para que triunfe o amor.
O que é preciso salientar é que é a Páscoa, e não o Natal, o Grande Evento que virou o mundo de pernas para o ar. Deus entre nós em carne e osso (o Natal), teria sido história razoável para a humanidade não tivesse ele morrido esfolado e solitário em humilhante evento público. É esse o evento que inverte tudo, que revira tudo, que descontrói tudo, que deixa tudo de pernas pro ar, feito quarto de adolescente. O nascimento do menino Deus é belíssimo e cativante. Deus nu e em farrapos na cruz é rude e revoltante.
"Salvou a outros e a si mesmo não pode salvar", é o que diziam, orgulhosos de si, os fariseus ao pé da cruz. E estavam certos. De fato não podia. A cruz não é só Deus em farrapos. É Deus fraco e sem poder. Porque se salvasse a si mesmo, seria o triunfo da força e o consequente fim de sua mensagem de graça e amor irrestritos. Se salvasse a si mesmo, condenaria a humanidade a seguir o caminho da do poder, da opressão do forte sobre o fraco. Mas o amor o colocou nessa incrível sinuca de bico: para salvar os outros, não poderia salvar a si.
O amor é o sentimento dos fracos, era argumento recorrente de Nietzsche. E ele não podia estar mais certo. Foi o amor que levou Deus à insanidade de esvaziar-se de si e, portanto, fragilizar-se por completo, tornando-se um de nós e obedecendo até a morte a voz interior que lhe dizia que a vitória do amor faria tudo valer à pena.
Sim, Cristo ressuscitou, mas só depois de haver vivido e morrido. É assustadoramente ridículo ter que afirmar o óbvio mas é, acima de tudo, necessário. Porque seguir o mestre é seguir seus passos enquanto vivo. É portanto, fragilizar-se como ele, para que triunfe o amor.
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PEDRA
Tuco Egg / Gladir Cabral
Eu era pedra e ainda sou
Eu era vidro, eu era seda
Eu era cera, cristal
Quem dera
Eu era pedra e ainda sou
Era menino, era criança
Era esperança, amor
Pudera
Eu era pedra e ainda sou
Eu era hoje, seda e cristal
criança e amor, eu era
e ainda sou
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
A lista
— Cara, mas a bíblia é muito doida. Fica falando de graça, perdão e reconciliação, de um Deus amoroso e tal. Mostra Jesus perdoando todo mundo, a torto e a direito, com aquela frase tipo, "alguém te condenou? eu também não te condeno" e essas coisas todas. Aí, do nada, aparece uma lista de condenados, gente que não pode entrar no Reino de Deus. Tem de tudo lá, mentiroso, ciumento, fofoqueiro e sei lá mais o quê. É uma loucura isso.
— O que gera tanta confusão é o histórico, meu velho. A gente tá imerso em dois mil anos de cultura cristã. O ocidente todo está. Não tem um que se escape. Dois mil anos de rituais, doutrinas, hierarquias e medos. A gente já lê a bíblia condicionado. Até ateu faz assim, porque cristianismo não é só religião, fé, crença; cristianismo é cultura ocidental. O que nos chama a atenção é o que a igreja oficial gritou do alto dos púlpitos esse tempo todo. E a mensagem oficial é política. Tem a ver com controle de massas, com jogos de poder, com grana, com vaidades de todo tipo. Os dois mil anos de discurso oficial nos tornaram cegos para o fato mais assombroso da mensagem bíblica. O que não somos mais capazes de ver é que a bíblia é toda ela subversiva. Mas é um livro inserido na história e que precisa ser lido entendendo esse vínculo profundo de cada parte dela com o tempo em que foi escrito. A lei de Moisés era um grito de justiça e igualdade atravessando a opressão das lanças e escudos da idade do bronze. Séculos depois os profetas levantam a voz relendo a lei sobre novos olhos, reinterpretando a lei e confrontando reis e sacerdotes. "Misericórdia quero e não sacrifícios", é a reformulação do grito da lei para uma nova geração. Jesus lendo Isaías na sinagoga é o novo grito, agora encarnado, agora definitivo.
— Mas a lista de condenados é posterior a Jesus.
— É verdade. Mas veja bem. A história da bíblia é a história das interpretações humanas a respeito da revelação discreta de Deus na alma confusa do homem. Primeiro Abraão, depois Moisés, depois os profetas, cada um reinterpretando e resignificando a mesma mensagem de graça, perdão, reconciliação, de um Deus amoroso, como podia, a seu tempo. Aí vem Jesus, o Emmanuel, o Deus conosco, a encarnação desse Deus que vinha sendo interpretado durante toda história. Depois de Jesus, começa tudo de novo. Novas interpretações e resignificações dessa mensagem, com a diferença que, agora, a mensagem é observável, tem carne e osso. Mas as reinterpretações prosseguem. Paulo e Tiago, por exemplo, reinterpretam-se a tal ponto que um parece contrariar o outro às vezes. Lutero queria tirar a carta de Tiago da bíblia porque ele reinterpretava e resignificava Paulo. Mas mais do que isso, Paulo reinterpreta e resignifica a si mesmo em diferentes situações. Num momento somos todos iguais e já não há judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher - coisa que é subversão ainda hoje, imagine na época - em seguida as mulheres devem se calar porque não é bom que falem em público.
— Mas e a lista?
— Não há uma lista de condenados, amigo. Pelo menos não como você imagina. Você lê como se houvesse porque lê a partir da cultura cristã de dois milênios. Para Jesus a coisa é simples. O Reino de Deus é como um rei que queria cobrar as dívidas dos seus súditos, é o que diz aquele contador de histórias. Porque, não custa lembrar, a bíblia é essencialmente um livro de histórias, e histórias tem muito mais a dizer do que doutrinas a ensinar. O Reino é como um rei que, para cobrar uma dívida, chama um súdito sabendo que o que ele deve é muito maios do que jamais poderia pagar. É o reino de um rei que vê o súdito olhar nos seus olhos desesperado porque sabe não ter como pagar, e crê que há uma pena natural para quem não paga. Mas é, acima de tudo, o reino de um rei que com voz mansa e olhar amoroso derrama graça, perdão e reconciliação sobre o devedor. Anula o débito. Já não há nada a ser pago. Assim é o Reino de Deus, é o que afirma Jesus em sua parábola. Acontece que o súdito perdoado também tem alguém que deve a ele, e a história prossegue. E do ponto de vista desse súdito, perdoar não é algo aceitável. Ele aceita o perdão, mas não perdoa. Receber e admissível, mas oferecer é ofensivo. O sujeito manda prender seu credor e executar a dívida. Mas o reino é lugar de perdão, graça, amor e reconciliação. Essa é a mensagem. É lugar de perdão e graça mútuos. Basta ao discípulo ser como o mestre é o mesmo que dizer basta ao súdito agir como o rei. A sua confusão, amigo, é entender que a lista de condenados indica gente que não pode entrar. Não é isso que indica a lista. O ambiente do Reino é perdão, graça e amor. Essa é a atmosfera, o ar que se respira nesse Reino. Esse é o reino sussurrado em toda bíblia, de capa a capa. A lista não indica quem não pode. Indica quem não quer.
— O que gera tanta confusão é o histórico, meu velho. A gente tá imerso em dois mil anos de cultura cristã. O ocidente todo está. Não tem um que se escape. Dois mil anos de rituais, doutrinas, hierarquias e medos. A gente já lê a bíblia condicionado. Até ateu faz assim, porque cristianismo não é só religião, fé, crença; cristianismo é cultura ocidental. O que nos chama a atenção é o que a igreja oficial gritou do alto dos púlpitos esse tempo todo. E a mensagem oficial é política. Tem a ver com controle de massas, com jogos de poder, com grana, com vaidades de todo tipo. Os dois mil anos de discurso oficial nos tornaram cegos para o fato mais assombroso da mensagem bíblica. O que não somos mais capazes de ver é que a bíblia é toda ela subversiva. Mas é um livro inserido na história e que precisa ser lido entendendo esse vínculo profundo de cada parte dela com o tempo em que foi escrito. A lei de Moisés era um grito de justiça e igualdade atravessando a opressão das lanças e escudos da idade do bronze. Séculos depois os profetas levantam a voz relendo a lei sobre novos olhos, reinterpretando a lei e confrontando reis e sacerdotes. "Misericórdia quero e não sacrifícios", é a reformulação do grito da lei para uma nova geração. Jesus lendo Isaías na sinagoga é o novo grito, agora encarnado, agora definitivo.
— Mas a lista de condenados é posterior a Jesus.
— É verdade. Mas veja bem. A história da bíblia é a história das interpretações humanas a respeito da revelação discreta de Deus na alma confusa do homem. Primeiro Abraão, depois Moisés, depois os profetas, cada um reinterpretando e resignificando a mesma mensagem de graça, perdão, reconciliação, de um Deus amoroso, como podia, a seu tempo. Aí vem Jesus, o Emmanuel, o Deus conosco, a encarnação desse Deus que vinha sendo interpretado durante toda história. Depois de Jesus, começa tudo de novo. Novas interpretações e resignificações dessa mensagem, com a diferença que, agora, a mensagem é observável, tem carne e osso. Mas as reinterpretações prosseguem. Paulo e Tiago, por exemplo, reinterpretam-se a tal ponto que um parece contrariar o outro às vezes. Lutero queria tirar a carta de Tiago da bíblia porque ele reinterpretava e resignificava Paulo. Mas mais do que isso, Paulo reinterpreta e resignifica a si mesmo em diferentes situações. Num momento somos todos iguais e já não há judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher - coisa que é subversão ainda hoje, imagine na época - em seguida as mulheres devem se calar porque não é bom que falem em público.
— Mas e a lista?
— Não há uma lista de condenados, amigo. Pelo menos não como você imagina. Você lê como se houvesse porque lê a partir da cultura cristã de dois milênios. Para Jesus a coisa é simples. O Reino de Deus é como um rei que queria cobrar as dívidas dos seus súditos, é o que diz aquele contador de histórias. Porque, não custa lembrar, a bíblia é essencialmente um livro de histórias, e histórias tem muito mais a dizer do que doutrinas a ensinar. O Reino é como um rei que, para cobrar uma dívida, chama um súdito sabendo que o que ele deve é muito maios do que jamais poderia pagar. É o reino de um rei que vê o súdito olhar nos seus olhos desesperado porque sabe não ter como pagar, e crê que há uma pena natural para quem não paga. Mas é, acima de tudo, o reino de um rei que com voz mansa e olhar amoroso derrama graça, perdão e reconciliação sobre o devedor. Anula o débito. Já não há nada a ser pago. Assim é o Reino de Deus, é o que afirma Jesus em sua parábola. Acontece que o súdito perdoado também tem alguém que deve a ele, e a história prossegue. E do ponto de vista desse súdito, perdoar não é algo aceitável. Ele aceita o perdão, mas não perdoa. Receber e admissível, mas oferecer é ofensivo. O sujeito manda prender seu credor e executar a dívida. Mas o reino é lugar de perdão, graça, amor e reconciliação. Essa é a mensagem. É lugar de perdão e graça mútuos. Basta ao discípulo ser como o mestre é o mesmo que dizer basta ao súdito agir como o rei. A sua confusão, amigo, é entender que a lista de condenados indica gente que não pode entrar. Não é isso que indica a lista. O ambiente do Reino é perdão, graça e amor. Essa é a atmosfera, o ar que se respira nesse Reino. Esse é o reino sussurrado em toda bíblia, de capa a capa. A lista não indica quem não pode. Indica quem não quer.
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
O primeiro comunista
Estava sentado no lado esquerdo do sofá quando li mais um interessantíssimo, como era de se esperar, texto do Paulo Brabo sobre a política de direita e esquerda. Acontece que havia ali um inocente link que me levou até um texto incrível, no mal sentido, como era de se esperar, de Norma Braga, sobre o mesmo tema. Era também de se esperar que minha curiosidade masoquista me levasse até os comentários no rodapé de Norma. Inesperado, porém, foi encontrar ali a revelação que me desconcertou. Judas, o traidor, foi também o primeiro comunista. E isso ficou patente para aquele comentarista por ter Judas tido a pretensão de propor distribuir as riquezas advindas da venda do vaso de alabastro que uma mulher lhe despejava aos pés. Evidentemente o Cristo tratou logo de rechaçar a ideia daquele esquerdista distributivista (foi esse o termo usado no comentário - alterei para comunista no título por questões estéticas e por maldade - comunista dá mais arrepio na espinha) colocando-o no seu devido lugar.
Ironias à parte, é evidente que esse argumento é fraquíssimo e insustentável a ponto de a própria Norma, façamos jus a ela, não aceitá-lo, como ela mesma deixou claro em outro comentário no mesmo post. Mas é também evidente que argumentos fraquíssimos são usados por multidões e podem convencer incautos pegos de sopetão, chegando ao ponto de se tornarem quase uma unanimidade em determinados e desavisados grupos. Por esse motivo achei que valia a pena registrar aqui um fato pouco mencionado a respeito desse diálogo rápido entre Jesus e aquele comunistazinho traidor. Quem sabe algum desses que caiu no caldeirão da direita sem querer resolva pular para fora antes que o tempero pegue.
Segundo o relato dos evangelhos, Iscariotes, o traidor, teria ficado doido ao ver uma mulher derramando um perfume caro aos pés do mestre. Mais doido ainda ele ficou com o Mestre, que nada fez para coibir a moça. Judas então propõe ao seu Rabi e a rapaziada toda que o acompanhava que melhor seria vender o perfume e distribuir o dinheiro aos necessitados. Ao ouvir tamanha heresia, o mestre mandou a frase que está na ponta da língua de um número enorme de conservadores de direita conscientes ou não de o serem. Pois a frase de Jesus, que não duvido ser um ímã na geladeira de Olavo de Carvalho e seus seguidores, não foi nada mais do que a citação de um comprometedor texto do velho testamento.
Quando afirma, olhando no olho de Judas, que "sempre haverá pobres na terra ", Jesus está mencionando um trecho de Deuteronômio 15 à uma plateia que conhece muito bem o texto e o contexto. Ele faz referência a um pedaço de lei mosaica que todos à mesa sabiam bem qual era e o que exigia deles. Ele estava dizendo que aquele trocado arrecadado com a venda do perfume era irrisório diante da enormidade da exigência que lutar pelo fim da pobreza e por justiça social exigia. Ele está provocando-os a fazerem muito mais do que propôs o tesoureiro.
No final de cada sete anos as dívidas deverão ser canceladas. Isso deverá ser feito da seguinte forma: Todo credor cancelará o empréstimo que fez ao seu próximo. Nenhum israelita exigirá pagamento de seu próximo ou de seu parente, porque foi proclamado o tempo do Senhor para o cancelamento das dívidas.
Quer programa de distribuição de renda maior que esse? Pois o texto continua:
Assim, não deverá haver pobre algum no meio de vocês, pois na terra que o Senhor, o seu Deus, lhes está dando como herança para que dela tomem posse, ele os abençoará ricamente, contanto que obedeçam em tudo ao Senhor, ao seu Deus, e colocarem em prática toda esta lei que hoje lhes estou dando.
Ãhn? O Deus de Israel parece estar indicando que se tudo for feito conforme o figurino não haverá pobres entre eles e, portanto, se houver pobres entre eles é porque as coisas não estão andando como deviam, ou seja, alguns estão acumulando demais e outros empobrecendo. Não há aqui nenhuma referência à meritocracia, pelo contrário. A teoria do mérito prevê que quem enriquece, enriquece porque merece e, do ponto de vista teológico, merece porque obedece. O texto inverte, afirmando que se todo mundo obedecesse, ninguém enriqueceria porque tudo seria repetidamente redistribuído para o bem do coletivo.
É só depois de afirmar o que está dito acima que chegamos ao trecho citado por Jesus que, não custa lembrar, sabia muito bem o que estava dito acima.
Sempre haverá pobres na terra. Portanto, eu lhe ordeno que abra o coração para o seu irmão israelita, tanto para o pobre como para o necessitado de sua terra.
Aí está. O texto que afirma a existência eterna do pobre o faz não como quem observa um fato inevitável contra o qual não vale a pena lutar, mas como quem lamenta o fato de que nem Israel nem nós nem ninguém age como deveria agir, ao contrário, estamos todos lutando e nos devorando mutuamente na esperança de acumular um pouco mais, e conclui nos ordenando abrir o coração e deixar de lado essa antropofagia meritocrata (eu devoro você porque mereço, porque lutei pra subir uns degraus na cadeia alimentar social - se quiser me devorar faça o mesmo).
Judas, evidentemente, não foi o primeiro esquerdita distributivista da história. Antes dele houve Moisés, e Isaías, e todos os profetas e seus clamores. Depois dele vieram outros muitos, mas, infelizmente, nunca o suficiente.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
Se, de fato, aconteceu...
Se a encarnação aconteceu, foi o evento central na história da terra — é o evento em torno do qual toda história gira. [...] É mais fácil argumentar, no campo histórico, que a encarnação realmente ocorreu, do que mostrar, no campo filosófico, a probabilidade da sua ocorrência.
A dificuldade histórica em dar uma explicação para a vida, para os pronunciamentos e as influências de Jesus, que não seja mais dura do que a explicação cristã, é muito notável. A discrepância entre a profundidade, a sanidade e (deixe-me acrescentar) a astúcia do ensino moral de Jesus e a megalomania descontrolada que estaria por trás do seu ensino teológico se ele não fosse de fato Deus, nunca foi satisfatoriamente superada.
Surrupiado do site da Ultimato, que surrupiou do livro da Ed Ultimado, que surrupiou de algum livro de C. S. Lewis
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
Um Novo e Subversivo Reino
Um ramo surgirá do tronco de Jessé,
e das suas raízes brotará um renovo.
(Isaías 11...)
(Isaías 11...)
O velho profeta anunciava a chegada do menino, o ramo no tronco de Jessé, como a chegada de um novo Reino. Na boca de Isaías, o nascimento do ungido que seria chamado Emanuel - Deus conosco - era a aurora de uma revolução sem precedentes.
E o bebê que surge nos evangelhos, 600 anos depois do profeta, surge arrebentando a boca do balão. No que diz respeito à subversão (Subverter = perverter; pertubar; desordenar; corromper; sublevar; conturbar; convulsionar; tumultuar), o primogênito de Maria entra de sola. Rei nascido entre os bichos e deitado na palha dura de um cocho, em uma cidadezinha esquecida num canto da palestina, o surgimento do rebento por pouco não passou despercebido de quem quer que fosse, à exceção de umas vaquinhas e jumentos que, naquela noite, não tiveram onde comer. Os poucos afortunados que souberam do fato histórico que viria a dividir para sempre o calendário ocidental, foram gente de terceira categoria. Pastoreando ovelhas à noite, fora dos holofotes e do agito da cidade, funcionários do turno 3 ouviram anjos e foram ver o pequenino. Depois deles, José e Maria, quando levaram o guri para apresentá-lo ao Deus judeu, como mandava a tradição, foram abordados por um velhinho aposentado e uma senhora amalucada no pátio do templo. Sacerdotes, levitas e fariseus também estavam por lá, mas viram somente mais um bebê entre tantos. Aí vieram os astrólogos, observadores de estrelas, de algum canto não registrado do oriente, pagãos incircuncisos, que não eram reis coisa nenhuma, sei lá de onde tiraram isso. Depois desses, somente trinta anos depois é que surge o doido varrido do João, o primeiro vegano (veganos comeriam insetos?), berrando do meio do rio Jordão - "eis o cordeiro de Deus!". Só gente da periferia, párias distantes dos holofotes é que reconheceram naquele indivíduo o Renovo, a raiz de Jessé evocada por Isaías.
É subversão a dar com o pau. Tudo errado. Tudo fora do protocolo. Parece até provocação. O rei revolucionário que surge, surge revolucionariamente.
Ninguém à exceção dessa gente distante da oficialidade, da respeitabilidade vinda do status, dos diplomas e das indicações, conseguiu enxergar naquele Jesus, o Cristo. E porquê? Ora, os respeitáveis temem qualquer coisa que surja de outros que não seus pares. Que não seus iguais. Por isso os respeitáveis oprimem, calam e, se preciso, matam aqueles que, não sendo respeitáveis como eles, surgem clamando por justiça, igualdade e "julgando a favor dos pobres" (Is 11). Os respeitáveis, não raro, assumem a forma de lobos, leopardos, leões e cobras. O que mais temem é perder sua posição de predadores e serem forçados a deitar lado a lado com os pequeninos, com os frágeis.
O anúncio da vinda do messias é o anúncio de um sonho maravilhoso materializado no esvaziamento de Deus, na fragilização do criador, no Deus bebê deitado na manjedoura. O anúncio do fim da lógica de presa e predador como mola propulsora da humanidade.
"O lobo viverá com o cordeiro.
(...) Uma criança os guiará".
O Reino que nasce em Cristo é o reino daqueles que submetem-se a ser guiados por uma criança. Que abrem mão de um sistema que está todo ele fundamentado em predadores e presas. Que se satisfazem com a ausência das hierarquias de controle, com a fraternidade, com o irmanamento de todos. Que, sendo fortes, abrem mão de sua força e, sendo fracos, não querem uma revolução que os coloque no poder e inverta a opressão. Querem caminhar ombro a ombro, lado a lado. É o sonho de Isaías, o delírio de Mandela.
Mas isso, e aí está o ponto mais subversivo de toda essa subversão, não pode surgir por meio da força, das lutas armadas, dos gritos de guerra. É convulsão interior armada apenas com aquilo que Nietsche definiu como a maior fraqueza: o amor. Não qualquer amorzinho abobado, romântico e chorão, mas o amor de Jesus, o amor que aquele bebezinho deitado no cocho levaria às últimas consequências.
O Reino é, enfim, silenciosa e discreta semente procurando solo fértil no coração do homem, buscando aqueles que a recebam com o solo irrigado e sigam os passos do Mestre.
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Deus?
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| Tirinha de Laerte |
Tem gente que grita, briga, esperneia, ora, reza, faz promessa, vai no culto, vai na missa, faz campanha, clama, reclama, suplica, se ajoelha, jejua, sacrifica, pega passe, faz mandinga, corrente de oração e não se toca que Deus está do nosso lado, em todos os cantos, e gosta de falar baixinho.
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Não entendeu porque Deus gosta de falar baixinho? Então leia também:
A moita onde Deus se esconde
A moita onde Deus se esconde
sexta-feira, 7 de junho de 2013
Um convite à desilusão
Eventualmente surge alguém com a cara azeda me dizendo que aquele livro que escrevi é contra a igreja. O sujeito resmunga um pouco, fala sobre tradição, fala que não é possível viver qualquer coisa comunitária que não se torne uma instituição. E sai ofendido com qualquer resposta que eu tente formular. Acho engraçado, porque o livro não é contra igreja nenhuma, nem as entre aspas. A intenção do texto nunca foi lutar contra as igrejas até que todas fechem suas portas. Nunca foi uma cruzada contra coisa alguma. A única coisa que se propõe ali é que tiremos a venda dos olhos, demos nomes aos bois e paremos de nos iludir mutuamente dentro de qualquer que seja o modelo de igreja que se ofereça. É um convite à desilusão.
"Conhecereis a verdade e ela vos liertará" é uma forma diversa de dizer: pare de se iludir e encare a vida como ela é. Será mais fácil seguir os passos de Jesus se tudo for colocado às claras.
Tendo sido esclarecido de uma vez por todas que igreja é a partir de dois ou três, que não exige hierarquia nenhuma, nem lugar, nem data, nem liturgia; que é guiada pelo vento, que é livre e selvagem; que está debaixo tão somente do espírito de Cristo e nunca, jamais, em hipótese alguma, submissa à algum líder, alguém que a cubra espiritualmente, ou que lhe valide, ou que lhe dite as regras, ou que lhe represente; que não exige ministérios formais, nem líderes de ministérios, nem reuniões dominicais; que não depende de clero, nem de pastores formados e ordenados em cerimônia formal com imposição das mãos de outros pastores formados e ordenados; que não impõe sobre ninguém o recolhimento de dízimos para si, nem de ofertas, nem de primícias ou o que quer que seja, mas que simplesmente incentiva a generosidade e a partilha fundamentada unicamente no amor; que igreja nenhuma tem autoridade sobre a vida de niguém, muito menos o poder de excluir alguém da comunhão com Cristo, da ceia, ou do céu, etcétera, etcétera, etcétera.
Tendo tudo isso ficado claro e evidente (e o novo testamento deixa isso claro e evidente) não haverá enfim impedimento algum para que as instituições se formem com suas hierarquias, cargos, normas, estatutos e liturgias. E cada um poderá optar em filiar-se à essa ou aquela instituição ciente de que terá de se submeter a algumas regras impostas pelos regimentos internos. E saberá sempre e sem sombra de dúvida que essas normas são circunstanciais, e que a igreja de Jesus não tem nada a ver com nenhuma delas, ainda que naquela hora, lugar e circunstância, elas façam bem àqueles que ali se reúnem. Sim, sempre que dois ou três se reúnem haverá de se instituir algo entre eles. Tudo bem. Desde que isso jamais predomine sobre a essência, que é o amor e a liberdade. Assim se saberá que em tudo isso, no horários estabelecidos e nas normas e ritos habituais, poderá sempre haver encontros humanos na presença de Cristo e, portanto, poderá haver igreja reunida. Tanto quanto em bares, quartos, praças, salas, becos escuros e sujos, quintais, montanhas, escritórios e bocas de fumo.
O espírito de Cristo é livre e absolutamente desprovido de preconceitos. É o espírito do amor, do perdão, da reconciliação, do abraço, do bem, do serviço humilde em favor do outro. E por onde esse espírito passe, onde sopre, onde pouse, se houverem dois ou três, seja lá quais forem as roupas que usem, seus pecados egressos ou futuros, suas neuroses, seus vícios, suas liturgias, seus estatutos e atas, ou sua profissão de fé, ali haverá igreja.
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Veja também: Almas à venda
"Conhecereis a verdade e ela vos liertará" é uma forma diversa de dizer: pare de se iludir e encare a vida como ela é. Será mais fácil seguir os passos de Jesus se tudo for colocado às claras.
Tendo sido esclarecido de uma vez por todas que igreja é a partir de dois ou três, que não exige hierarquia nenhuma, nem lugar, nem data, nem liturgia; que é guiada pelo vento, que é livre e selvagem; que está debaixo tão somente do espírito de Cristo e nunca, jamais, em hipótese alguma, submissa à algum líder, alguém que a cubra espiritualmente, ou que lhe valide, ou que lhe dite as regras, ou que lhe represente; que não exige ministérios formais, nem líderes de ministérios, nem reuniões dominicais; que não depende de clero, nem de pastores formados e ordenados em cerimônia formal com imposição das mãos de outros pastores formados e ordenados; que não impõe sobre ninguém o recolhimento de dízimos para si, nem de ofertas, nem de primícias ou o que quer que seja, mas que simplesmente incentiva a generosidade e a partilha fundamentada unicamente no amor; que igreja nenhuma tem autoridade sobre a vida de niguém, muito menos o poder de excluir alguém da comunhão com Cristo, da ceia, ou do céu, etcétera, etcétera, etcétera.
Tendo tudo isso ficado claro e evidente (e o novo testamento deixa isso claro e evidente) não haverá enfim impedimento algum para que as instituições se formem com suas hierarquias, cargos, normas, estatutos e liturgias. E cada um poderá optar em filiar-se à essa ou aquela instituição ciente de que terá de se submeter a algumas regras impostas pelos regimentos internos. E saberá sempre e sem sombra de dúvida que essas normas são circunstanciais, e que a igreja de Jesus não tem nada a ver com nenhuma delas, ainda que naquela hora, lugar e circunstância, elas façam bem àqueles que ali se reúnem. Sim, sempre que dois ou três se reúnem haverá de se instituir algo entre eles. Tudo bem. Desde que isso jamais predomine sobre a essência, que é o amor e a liberdade. Assim se saberá que em tudo isso, no horários estabelecidos e nas normas e ritos habituais, poderá sempre haver encontros humanos na presença de Cristo e, portanto, poderá haver igreja reunida. Tanto quanto em bares, quartos, praças, salas, becos escuros e sujos, quintais, montanhas, escritórios e bocas de fumo.
O espírito de Cristo é livre e absolutamente desprovido de preconceitos. É o espírito do amor, do perdão, da reconciliação, do abraço, do bem, do serviço humilde em favor do outro. E por onde esse espírito passe, onde sopre, onde pouse, se houverem dois ou três, seja lá quais forem as roupas que usem, seus pecados egressos ou futuros, suas neuroses, seus vícios, suas liturgias, seus estatutos e atas, ou sua profissão de fé, ali haverá igreja.
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Veja também: Almas à venda
segunda-feira, 13 de maio de 2013
Quando sentir falta
Falávamos da figura do pastor, no debate organizado em Joinville sobre o livro "Igreja entre aspas". A questão era onde iria parar o pastor quando não houvesse estrutura e cargo e local e ordenação, conforme o livro parecia propor ser possível, talvez ideal. E surge de uma moça possivelmente solteira, talvez preocupada com seu futuro, a pergunta que lhe afligia a alma: "e quando alguém vai casar, quem faz a cerimônia?".
É incrível o ponto a que chegamos. Dependemos dessa figura misteriosa no mínimo para legitimar as cerimônias mais marcantes, aquelas que o catolicismo chama de sacramentos. Tudo bem não ser pastor para pregar domingo. É estranho, mas dá pra engolir. Mas e o casamento? E o batismo? E o funeral?
Se a pergunta tivesse sido hoje, eu responderia com outra: "quer chamar o Pastor Marcos Pereira pra fazer o casamento?". O cara é pastor ordenado. Estupra, manda matar desafetos e ganha uns trocados com tráfico de drogas, mas é ungido do Senhor, quem se levantará contra ele? Tem um número absurdo de gente saindo em defesa desse homem simplesmente pelo pressuposto que seu cargo religioso impõe. A função, a profissão, que há muito tempo não tem mais absolutamente nada a ver com dom, infere ao sujeito prerrogativas de santidade, de unção, de intocabilidade.
E os seus pares o defendem, o protegem ou se calam.
É claro que Marcos Pereira não é regra, apesar de ser assombroso o número de pastores envolvido em politicagens e bandidagens nos mais variados níveis. Esses são caso de polícia e, se tudo correr bem, serão desmascarados num efeito cascata. Ou não. Mas não é disso que falo aqui.
Me refiro aqui à aura que cerca a figura do pastor, mesmo nos ambientes religiosos mais saudáveis. E ao espírito mafioso de protecionismo corporativista que faz com que a imensa maioria dos mais bonzinhos se calem diante de absurdos. Desde os absurdos da bandidagem, até os absurdos sutis que tornam o 'rebanho' dependente do 'clero'.
Quem faz seu casamento, minha amiga? Pode ser seu pastor, se você for membra de uma igreja formal e assim você desejar. Caso contrário, que seja seu pai, seu irmão, sua tia, seu amigo mais chegado. Alguém que você respeite e admire. Peça para que ele fale algo, ponha as mãos sobre sua cabeça e de seu noivo, e carinhosamente abençoe suas vidas.
E faça o mesmo toda vez que sentir falta de um pastor.
O sacerdócio é universal.
É incrível o ponto a que chegamos. Dependemos dessa figura misteriosa no mínimo para legitimar as cerimônias mais marcantes, aquelas que o catolicismo chama de sacramentos. Tudo bem não ser pastor para pregar domingo. É estranho, mas dá pra engolir. Mas e o casamento? E o batismo? E o funeral?
Se a pergunta tivesse sido hoje, eu responderia com outra: "quer chamar o Pastor Marcos Pereira pra fazer o casamento?". O cara é pastor ordenado. Estupra, manda matar desafetos e ganha uns trocados com tráfico de drogas, mas é ungido do Senhor, quem se levantará contra ele? Tem um número absurdo de gente saindo em defesa desse homem simplesmente pelo pressuposto que seu cargo religioso impõe. A função, a profissão, que há muito tempo não tem mais absolutamente nada a ver com dom, infere ao sujeito prerrogativas de santidade, de unção, de intocabilidade.
E os seus pares o defendem, o protegem ou se calam.
É claro que Marcos Pereira não é regra, apesar de ser assombroso o número de pastores envolvido em politicagens e bandidagens nos mais variados níveis. Esses são caso de polícia e, se tudo correr bem, serão desmascarados num efeito cascata. Ou não. Mas não é disso que falo aqui.
Me refiro aqui à aura que cerca a figura do pastor, mesmo nos ambientes religiosos mais saudáveis. E ao espírito mafioso de protecionismo corporativista que faz com que a imensa maioria dos mais bonzinhos se calem diante de absurdos. Desde os absurdos da bandidagem, até os absurdos sutis que tornam o 'rebanho' dependente do 'clero'.
Quem faz seu casamento, minha amiga? Pode ser seu pastor, se você for membra de uma igreja formal e assim você desejar. Caso contrário, que seja seu pai, seu irmão, sua tia, seu amigo mais chegado. Alguém que você respeite e admire. Peça para que ele fale algo, ponha as mãos sobre sua cabeça e de seu noivo, e carinhosamente abençoe suas vidas.
E faça o mesmo toda vez que sentir falta de um pastor.
O sacerdócio é universal.
quinta-feira, 9 de maio de 2013
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Fábulas (3)
3. Os hereges
Seria muita mamata mastigar e cuspir aqui mesmo para quem interessar, uma singela lista de cristãos que honraram o nome de Cristo. Além disso, seria preciso antes de mais nada lembrar que entre eles não haveria nenhum santo, no sentido popular do termo. O mais marcante sinal de um seguidor do mestre judeu é, e será sempre, sua humanidade aprofundada ao extremo.
O próprio Jesus de Nazaré não foi em vida visto como santo. Sua fama era de glutão, festeiro e beberrão. Santo era Caifás. Jesus era proscrito. Santo, hoje, é o Malafaia, o Feliciano e essa pastorada besta que se vende como 'ungidos' do senhor. Jesus não tem nada a ver com eles. A lista de seguidores de Jesus incluiria, sem dúvida, alguns cristãos da ala protestante, reformada. Encontraríamos católicos também, é óbvio. Pelo menos um hindú muito conhecido estaria entre os selecionados. Sem dúvida alguns agnósticos e ateus. E por aí vai.
Eu tenho em mente pelo menos meia-dúzia de nomes famosos, além, é claro, da tia Aci. Mas para vasculhar entre alguns recentes, nada melhor que consultar o excelente Alma Sobrevivente: Sou cristão, apesar da igreja, de Philip Yancey. Fica registrado ainda aqui, como observação final, que na lista abaixo temos pelo menos um representante de cada um dos seguintes ítens: protestantes, católicos, hindus, alcoólatras, fumantes, ortodoxos orientais, gente que negou cristo, que teve casos extra-conjugais, agnósticos e homossexuais. Coisa de arrepiar a espinha dos 'ungidos' de hoje.
Segue a lista do sumário do livro, e o link para o PDF do primeiro capítulo.
MARTIN LUTHER KING JR
G. K. CHESTERTON
DR. PAUL BRAND
DR. ROBERT COLES
LEON TOLSTOI E FYODOR DOSTOIEVSKI
MAHATMA GANDHI
DR. C. EVERETT KOOP
JOHN DONNE
ANNIE DILLARD
FREDERICK BUECHNER
SHUSAKU ENDO
HENRI NOUWEN
PDF no site da editora
[ continua... ou não ]
Seria muita mamata mastigar e cuspir aqui mesmo para quem interessar, uma singela lista de cristãos que honraram o nome de Cristo. Além disso, seria preciso antes de mais nada lembrar que entre eles não haveria nenhum santo, no sentido popular do termo. O mais marcante sinal de um seguidor do mestre judeu é, e será sempre, sua humanidade aprofundada ao extremo.
O próprio Jesus de Nazaré não foi em vida visto como santo. Sua fama era de glutão, festeiro e beberrão. Santo era Caifás. Jesus era proscrito. Santo, hoje, é o Malafaia, o Feliciano e essa pastorada besta que se vende como 'ungidos' do senhor. Jesus não tem nada a ver com eles. A lista de seguidores de Jesus incluiria, sem dúvida, alguns cristãos da ala protestante, reformada. Encontraríamos católicos também, é óbvio. Pelo menos um hindú muito conhecido estaria entre os selecionados. Sem dúvida alguns agnósticos e ateus. E por aí vai.
Eu tenho em mente pelo menos meia-dúzia de nomes famosos, além, é claro, da tia Aci. Mas para vasculhar entre alguns recentes, nada melhor que consultar o excelente Alma Sobrevivente: Sou cristão, apesar da igreja, de Philip Yancey. Fica registrado ainda aqui, como observação final, que na lista abaixo temos pelo menos um representante de cada um dos seguintes ítens: protestantes, católicos, hindus, alcoólatras, fumantes, ortodoxos orientais, gente que negou cristo, que teve casos extra-conjugais, agnósticos e homossexuais. Coisa de arrepiar a espinha dos 'ungidos' de hoje.
Segue a lista do sumário do livro, e o link para o PDF do primeiro capítulo.
MARTIN LUTHER KING JR
G. K. CHESTERTON
DR. PAUL BRAND
DR. ROBERT COLES
LEON TOLSTOI E FYODOR DOSTOIEVSKI
MAHATMA GANDHI
DR. C. EVERETT KOOP
JOHN DONNE
ANNIE DILLARD
FREDERICK BUECHNER
SHUSAKU ENDO
HENRI NOUWEN
PDF no site da editora
[ continua... ou não ]
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Fábulas (2)
2. Zeitgeist
Evidentemente crer em duendes e fadas pode ser um bom começo, mas não será suficiente.
É estranho que seja argumento para inviabilizar a factualidade de uma história, a descoberta de que a mesma esteja presente em mitos antigos. É um argumento comum, mas fundamenta-se em uma lógica que não consigo alcançar. O fato de que várias culturas distintas, em épocas e lugares imensamente distintos, tenham desenvolvido mitos comuns de redenção, me parece reforçar, para não dizer confirmar definitivamente, que há um anseio comum latente, pulsante e esperançoso que contaminou a humanidade desde seus estágios embrionários e varou os séculos e os milênios em angustiante espera por sua realização.
Encontrar em mitos antigos, então, histórias semelhantes à narrada nos evangelhos, está longe de ser uma descoberta que fragiliza a fé. Pelo contrário, é descoberta que a reforça, a fortalece, a deixa ainda mais assustadoramente universal. O fato de essa história ter sido sonhada, contada, cantada e poetizada por séculos e séculos, nas mais diferentes formas, pelos mais diferentes povos e culturas, entrega à narrativa da vida de Jesus ainda mais sentido, força e espanto.
A própria bíblia dá a entender essa universalidade das narrativas nela contidas em vários pontos. De Melquisedeque, ainda no livro de Gênesis, ao Deus desconhecido descortinado por Paulo no Aerópago.
Mas encontrar mitos semelhantes ao mito encarnado de Cristo tornou-se tão estimulante aos céticos, ateus e místicos das ondas new age, que até factóides e distorções da história antiga passaram a ser criados, produzidos e divulgados, gerando espanto em multidões que, por algum raciocínio enviesado, deixaram cair por terra a mais documentada das histórias antigas, trocando-a pelos exageros e desvarios de vídeos como Zeitgeist.
Chega a ser engraçado que a história cristã, que foi muitas vezes desacreditada justamente pelas várias mentiras que o cristianismo de fato criou para fundamentar seus interesses doutrinários, esteja agora vendo o mesmo acontecendo do outro lado. Uma rapaziadinha descabeçada criando mentiras abobalhadas para desacreditar a fé e promover, ora o ateismo cientificista, ora o misticismo novaerista.
Enfim, para levar a sério a estranha fé cristã, basta olhar para as histórias de seus seguidores. Mas é claro que será preciso, evidentemente e de uma vez por todas, entender que o cristianismo oficial não tem nada a ver com essas histórias. Cristianismo, desde Constantino, é projeto político, de poder e controle. A fé cristã, ou o espírito de Cristo, varou os séculos discretamente, nas periferias e entre os hereges. Deixe de lado os relatos oficiais. Será preciso garimpar para encontrá-los.
[ continua ]
Veja também: Fábulas (1)
Evidentemente crer em duendes e fadas pode ser um bom começo, mas não será suficiente.
É estranho que seja argumento para inviabilizar a factualidade de uma história, a descoberta de que a mesma esteja presente em mitos antigos. É um argumento comum, mas fundamenta-se em uma lógica que não consigo alcançar. O fato de que várias culturas distintas, em épocas e lugares imensamente distintos, tenham desenvolvido mitos comuns de redenção, me parece reforçar, para não dizer confirmar definitivamente, que há um anseio comum latente, pulsante e esperançoso que contaminou a humanidade desde seus estágios embrionários e varou os séculos e os milênios em angustiante espera por sua realização.
Encontrar em mitos antigos, então, histórias semelhantes à narrada nos evangelhos, está longe de ser uma descoberta que fragiliza a fé. Pelo contrário, é descoberta que a reforça, a fortalece, a deixa ainda mais assustadoramente universal. O fato de essa história ter sido sonhada, contada, cantada e poetizada por séculos e séculos, nas mais diferentes formas, pelos mais diferentes povos e culturas, entrega à narrativa da vida de Jesus ainda mais sentido, força e espanto.
A própria bíblia dá a entender essa universalidade das narrativas nela contidas em vários pontos. De Melquisedeque, ainda no livro de Gênesis, ao Deus desconhecido descortinado por Paulo no Aerópago.
Mas encontrar mitos semelhantes ao mito encarnado de Cristo tornou-se tão estimulante aos céticos, ateus e místicos das ondas new age, que até factóides e distorções da história antiga passaram a ser criados, produzidos e divulgados, gerando espanto em multidões que, por algum raciocínio enviesado, deixaram cair por terra a mais documentada das histórias antigas, trocando-a pelos exageros e desvarios de vídeos como Zeitgeist.
Chega a ser engraçado que a história cristã, que foi muitas vezes desacreditada justamente pelas várias mentiras que o cristianismo de fato criou para fundamentar seus interesses doutrinários, esteja agora vendo o mesmo acontecendo do outro lado. Uma rapaziadinha descabeçada criando mentiras abobalhadas para desacreditar a fé e promover, ora o ateismo cientificista, ora o misticismo novaerista.
Enfim, para levar a sério a estranha fé cristã, basta olhar para as histórias de seus seguidores. Mas é claro que será preciso, evidentemente e de uma vez por todas, entender que o cristianismo oficial não tem nada a ver com essas histórias. Cristianismo, desde Constantino, é projeto político, de poder e controle. A fé cristã, ou o espírito de Cristo, varou os séculos discretamente, nas periferias e entre os hereges. Deixe de lado os relatos oficiais. Será preciso garimpar para encontrá-los.
[ continua ]
Veja também: Fábulas (1)
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Fábulas (1)
1. Uma lenda de carne e osso
O que me choca no pensamento ateu não é que Deus não exista, mas que não seja possível acreditar em fábulas. O raciocínio ateu arremessa toda fantasia, toda história de fadas, todo conto fantástico no limbo da bobagem. Nenhuma fábula aconteceu de fato nem jamais acontecerá, é o veredito final decorrente do ateísmo (ou mesmo das formas mais radicais de liberalismo teológico). Nossa história resume-se, desde sempre e para sempre, em matemática, química e física. Os milênios de histórias, de lendas, de horror e assombro diante do imponderável sempre à espreita, pronto a materializar-se, são desprezados como criancisse, ainda que respeitosamente, ainda que com carinho e nostalgia.
Talvez seja necessário frisar que não estou aqui em uma cruzada para me opor ao ateu, muito menos para converte-lo. Entre as muitas formas de fé que desenvolvemos, a do ateu está certamente entre as mais respeitáveis. É evidente que devemos deixar de fora os ateus militantes e proselitistas, que chegam a ser tão desagradáveis quanto os religiosos carolas. O que quero dizer e não me canso de imaginar, é que cada lenda que surgiu na história foi absolutamente possível e até provável na mente e no coração daquele que a criou. Desejável, com certeza. Que no nascedouro de cada mito houve sempre a idéia subversiva e esperançosa de que ele um dia se realizasse. E não me canso de lastimar o eco que a ausência dessa esperança, decorrente de uma convicção naturalista irrevogável, pode fazer soar na vastidão desabitada de um coração humano.
O que faz do cristianismo um pensamento no mínimo interessantíssimo, é justamente a ousadia que o faz encher o peito e jogar na cara da humanidade, com uma convicção arrebatadora, que enfim, de fato, uma lenda vestiu-se de carne e osso. E não uma lenda qualquer, mas a matriz de todas elas. A redenção final materializou-se nas dimensões do espaço-tempo. Uma fábula soprada de boca em boca, de geração em geração, em rodas de fogueira nos fins de tarde, sob a luz da lua e o assobio das aves noturnas, em cada um dos cantos mais remotos do planeta, por séculos e séculos, das mais variadas formas, tornou-se real. O mito rasgou a sensatez ao meio e cravou-se nas nossas páginas de matemática, física e química, manchando-as para sempre com magia, milagre e esperança.
Sei que nesse momento alguém pode levantar-se no meio de meus estranhos argumentos e afirmar que, se for assim, se for preciso que algo se materialize, seria melhor crer em duendes e fadas de uma vez, do que apegar-se as histórias do Novo Testamento. Que entre um e outro, não haveria diferença alguma. Pois bem, meu amigo. Vá em frente. Já é um bom começo.
[ continua ]
O que me choca no pensamento ateu não é que Deus não exista, mas que não seja possível acreditar em fábulas. O raciocínio ateu arremessa toda fantasia, toda história de fadas, todo conto fantástico no limbo da bobagem. Nenhuma fábula aconteceu de fato nem jamais acontecerá, é o veredito final decorrente do ateísmo (ou mesmo das formas mais radicais de liberalismo teológico). Nossa história resume-se, desde sempre e para sempre, em matemática, química e física. Os milênios de histórias, de lendas, de horror e assombro diante do imponderável sempre à espreita, pronto a materializar-se, são desprezados como criancisse, ainda que respeitosamente, ainda que com carinho e nostalgia.
Talvez seja necessário frisar que não estou aqui em uma cruzada para me opor ao ateu, muito menos para converte-lo. Entre as muitas formas de fé que desenvolvemos, a do ateu está certamente entre as mais respeitáveis. É evidente que devemos deixar de fora os ateus militantes e proselitistas, que chegam a ser tão desagradáveis quanto os religiosos carolas. O que quero dizer e não me canso de imaginar, é que cada lenda que surgiu na história foi absolutamente possível e até provável na mente e no coração daquele que a criou. Desejável, com certeza. Que no nascedouro de cada mito houve sempre a idéia subversiva e esperançosa de que ele um dia se realizasse. E não me canso de lastimar o eco que a ausência dessa esperança, decorrente de uma convicção naturalista irrevogável, pode fazer soar na vastidão desabitada de um coração humano.
O que faz do cristianismo um pensamento no mínimo interessantíssimo, é justamente a ousadia que o faz encher o peito e jogar na cara da humanidade, com uma convicção arrebatadora, que enfim, de fato, uma lenda vestiu-se de carne e osso. E não uma lenda qualquer, mas a matriz de todas elas. A redenção final materializou-se nas dimensões do espaço-tempo. Uma fábula soprada de boca em boca, de geração em geração, em rodas de fogueira nos fins de tarde, sob a luz da lua e o assobio das aves noturnas, em cada um dos cantos mais remotos do planeta, por séculos e séculos, das mais variadas formas, tornou-se real. O mito rasgou a sensatez ao meio e cravou-se nas nossas páginas de matemática, física e química, manchando-as para sempre com magia, milagre e esperança.
Sei que nesse momento alguém pode levantar-se no meio de meus estranhos argumentos e afirmar que, se for assim, se for preciso que algo se materialize, seria melhor crer em duendes e fadas de uma vez, do que apegar-se as histórias do Novo Testamento. Que entre um e outro, não haveria diferença alguma. Pois bem, meu amigo. Vá em frente. Já é um bom começo.
[ continua ]
domingo, 28 de abril de 2013
Responderei não
Reflexão para culto/missa (conforme hábito do leitor) de domingo.
Para trás ficou a marca da cruz...
Mas ovelha negra me desgarrei
O meu pastor não sabe que eu sei
Da arma oculta na sua mão...
Meu profano amor eu prefiro assim
á nudez sem véus diante da Santa-Inquisição
Agnus Dei
João Bosco e Aldir Blanc
Faces sob o sol, os olhos na cruz
Os heróis do bem prosseguem na brisa na manhã
Vão levar ao reino dos minaretes
A paz na ponta dos arietes
A conversão para os infiéis
Para trás ficou a marca da cruz
Na fumaça negra vinda na brisa da manhã
Ah, como é difícil tornar-se herói
Só quem tentou sabe como dói
Vencer Satã só com orações
Ei andá pa' Catarandá que Deus tudo vê
Ei andá pa' Catarandá que Deus tudo vê
Ei anda, ei ora, e manda, e mata,
Responderei não!
Dominus dominium juros além
Todos esses anos agnus sei que sou também
Mas ovelha negra me desgarrei
O meu pastor não sabe que eu sei
Da arma oculta na sua mão
Meu profano amor eu prefiro assim
A nudez sem véus diante da Santa-Inquisição
Ah, o tribunal não recordará
Dos fugitivos de Shangri-Lá
O tempo vence toda a ilusão
Para trás ficou a marca da cruz...
Mas ovelha negra me desgarrei
O meu pastor não sabe que eu sei
Da arma oculta na sua mão...
Meu profano amor eu prefiro assim
á nudez sem véus diante da Santa-Inquisição
Agnus Dei
João Bosco e Aldir Blanc
Faces sob o sol, os olhos na cruz
Os heróis do bem prosseguem na brisa na manhã
Vão levar ao reino dos minaretes
A paz na ponta dos arietes
A conversão para os infiéis
Para trás ficou a marca da cruz
Na fumaça negra vinda na brisa da manhã
Ah, como é difícil tornar-se herói
Só quem tentou sabe como dói
Vencer Satã só com orações
Ei andá pa' Catarandá que Deus tudo vê
Ei andá pa' Catarandá que Deus tudo vê
Ei anda, ei ora, e manda, e mata,
Responderei não!
Dominus dominium juros além
Todos esses anos agnus sei que sou também
Mas ovelha negra me desgarrei
O meu pastor não sabe que eu sei
Da arma oculta na sua mão
Meu profano amor eu prefiro assim
A nudez sem véus diante da Santa-Inquisição
Ah, o tribunal não recordará
Dos fugitivos de Shangri-Lá
O tempo vence toda a ilusão
domingo, 31 de março de 2013
Pelo menos o universo
No dia em que se recorda a ressurreição de um homem como a matriz da ressurreição de todos, não é demais lembrar, como Mayakovsky, que se fomos arrancados das garras da morte e lançados na eternidade pelos braços estendidos do Deus encarnado, o fomos para lutarmos contra as misérias do cotidiano, para que não mais existam amores servis, para que ninguém mais tenha de sacrificar-se por uma casa ou um buraco. Para que, a partir de hoje, a família se transforme e nossos olhos enxerguem o mundo com olhar de reconciliação, amor, perdão, misericóridia, graça e paz. E nos irmanemos todos em um glorioso abraço universal.
O AMOR
Poema de Mayakovsky adaptado e musicado por Caetano Veloso
Interpretado por Rentao Braz
Talvez, quem sabe, um dia
Por uma alameda do zoológico
Ela também chegará
Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita
Ela é tão bonita que na certa
eles a ressuscitarão
O século 30 vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar
Tudo que não podemos amar na vida
Com o estrelar das noites inumeráveis
Ressuscita-me
Ainda que mais não seja
Porque sou poeta e ansiava o futuro
Ressuscita-me
Lutando contra as misérias do cotidiano
Ressuscita-me por isso
Ressuscita-me
Quero acabar de viver o que me cabe
Minha vida
Para que não mais exista amores servis
Ressuscita-me
Para que ninguém mais tenha
De sacrificar-se por uma casa ou um buraco
Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme
E o pai
Seja, pelo menos, o universo
E a mãe
Seja, no mínimo, a terra
A terra, a terra
Veja também: Ressucita-me
quinta-feira, 28 de março de 2013
A páscoa
É fato que a mais celebrada data do calendário cristão é o Natal. Mais por conta do dinheiro rolando solto no comércio e das bochechinhas rosadas do Papai Noel do que pelo nascimento de Jesus, é verdade, mas o fato persiste.
Curioso é que por mais de trezentos anos cristão nenhum comemorou o nascimento de seu mestre. Ninguém fazia a menor idéia do dia em que ele nasceu e, aparentemente, não havia nenhum esforço para descobrir. Foi só no ano 336 que o imperador romano, esperto que só ele, fixou o nascimento de Cristo na mesma data da festança pagã que comemorava o solstício de inverno (no hemisfério norte, é claro). Assim conseguiu a façanha de converter o povo e manter a festividade. Eu teria feito o mesmo.
O curioso nessa história é que apesar de ninguém saber o dia em que de fato nasceu o messias de Nazaré, todos sabem desde sempre a data de sua morte. A páscoa é a festa em que os judeus comemoram a libertação de seu povo das garras do faraó 3,5 mil anos atrás, e a subsequente passagem (pessach = páscoa) sensacional da multidão à seco pelo mar aberto ao meio. O Cristo acabou morrendo na semana da páscoa judaica e, por tanto, todo mundo conhece a data de seu falecimento e ressurreição. A manjedoura tem seu papel na história, e é em si mesmo uma belíssima mensagem que se perdeu nos festejos de Natal (além de ser muito bonitinha nos presépios), mas não é a toa que o símbolo cristão é a cruz. Não fosse Constantino e a cristianisação compulsória do império romano, até hoje não haveria nascimento a comemorar, mas tão somente morte e renascimento.
Nessas horas lembro de Pedro e a sacada que teve em revelar que a morte do Cristo de Nazaré precedeu sua vida. Que seu sacrifício precedeu seu nascimento. Que a encarnação de Deus é consequência de sua morte na cruz e não o contrário. Na lógica da eternidade o tempo vira do avesso e a salvação precede a condenação. É belíssima e certeira a frase que afirma que antes de dizer "haja luz", Deus disse "haja cruz".
A páscoa deveria nos lembrar que Deus foi morto antes de nascer. E isso faz toda diferença.
Curioso é que por mais de trezentos anos cristão nenhum comemorou o nascimento de seu mestre. Ninguém fazia a menor idéia do dia em que ele nasceu e, aparentemente, não havia nenhum esforço para descobrir. Foi só no ano 336 que o imperador romano, esperto que só ele, fixou o nascimento de Cristo na mesma data da festança pagã que comemorava o solstício de inverno (no hemisfério norte, é claro). Assim conseguiu a façanha de converter o povo e manter a festividade. Eu teria feito o mesmo.
O curioso nessa história é que apesar de ninguém saber o dia em que de fato nasceu o messias de Nazaré, todos sabem desde sempre a data de sua morte. A páscoa é a festa em que os judeus comemoram a libertação de seu povo das garras do faraó 3,5 mil anos atrás, e a subsequente passagem (pessach = páscoa) sensacional da multidão à seco pelo mar aberto ao meio. O Cristo acabou morrendo na semana da páscoa judaica e, por tanto, todo mundo conhece a data de seu falecimento e ressurreição. A manjedoura tem seu papel na história, e é em si mesmo uma belíssima mensagem que se perdeu nos festejos de Natal (além de ser muito bonitinha nos presépios), mas não é a toa que o símbolo cristão é a cruz. Não fosse Constantino e a cristianisação compulsória do império romano, até hoje não haveria nascimento a comemorar, mas tão somente morte e renascimento.
Nessas horas lembro de Pedro e a sacada que teve em revelar que a morte do Cristo de Nazaré precedeu sua vida. Que seu sacrifício precedeu seu nascimento. Que a encarnação de Deus é consequência de sua morte na cruz e não o contrário. Na lógica da eternidade o tempo vira do avesso e a salvação precede a condenação. É belíssima e certeira a frase que afirma que antes de dizer "haja luz", Deus disse "haja cruz".
A páscoa deveria nos lembrar que Deus foi morto antes de nascer. E isso faz toda diferença.
quarta-feira, 6 de março de 2013
Ichtys da prosperidade
A vida de um cristão no primeiro e segundo séculos poderia ser bastante complicada, especialmente próximo dos centros urbanos, onde a hostilidade de uns só era equiparada a empatia de outros. Eles eram conhecidos pelo amor, é o que registra o livro dos Atos dos Apóstolos, escrito pelo médico Lucas para seu amigo Teophilo, para explicar-lhe o que vinha acontecendo com aquela turba de loucos que afirmavam crer na ressurreição de um homem. Mas o amor não é coisa que se queira a não ser em poemas. Amor na vida real é o caos. O único amor permitido é aquele devotado às estruturas, às hierarquias, às disputas pelo poder, à própria imagem. Se seu amor não for desse tipo, meu amigo, sinto lhe dizer mas você será invariavelmente, mais cedo ou mais tarde, lançado aos leões.
Conta-se que a partir de certo momento, os cristão passaram a tentar ser mais discretos em seus encontros, para evitar as confusões muitas vezes seguidas de morte. Um cristão em um local público, para encontrar um amigo de fé, riscava discretamente um semi-circulo no chão, com o pé. E ficava por ali, aguardando a chegada de alguém que completasse o desenho com outro semi-círculo enquanto assobiava olhando os passarinhos. O resultado traçado no chão era o de um singelo peixinho de dar inveja a muito designer gráfico ainda hoje. O termo grego para peixe era ichtys (ictus), que passou a ser também um acrônimo para Iesous Christos Theou Yios Soter (Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador).
Mas veio a reviravolta do terceiro século. O imperador converteu-se e a turma dos perseguidos passou a perseguir, numa inversão que faria arrepiar os pelos da barba de Cristo. Os que eram conhecidos por amar e, portanto, eram amadores (porque se armador é o que arma, que se dirá de quem ama?, diria Romerto Diamanso), profissionalizaram-se, hierarquizaram-se e desceram o sarrafo em quem não se dobrava voluntariamente e essa nova espécie bizarra de amor.
E passaram-se mil e setecentos anos de cristianismo repleto de escuridão e salpicado por alguns poucos lampejos de luz até que, lamento dizer, se foi por completo a esperança. Se ainda não foi para você, vamos conversar de novo daqui há uns anos mais. E o ichtys, outrora simbolo do amor que sofre mas não cala, cobre-se agora então, definitivamente, de novo e inexplicável significado. Já havia ouvido isso da boca de um vendedor de carros, mas agora estampa-se na página de renomado veículo de comunicação online, pela pena confusa de um jornalista desinformado, a nova e desoladora definição para o pobre peixinho. Eu o perdôo, UOL. A culpa não é sua. A culpa é do rumo torto e deprimente que tomou o cristianismo.
Conta-se que a partir de certo momento, os cristão passaram a tentar ser mais discretos em seus encontros, para evitar as confusões muitas vezes seguidas de morte. Um cristão em um local público, para encontrar um amigo de fé, riscava discretamente um semi-circulo no chão, com o pé. E ficava por ali, aguardando a chegada de alguém que completasse o desenho com outro semi-círculo enquanto assobiava olhando os passarinhos. O resultado traçado no chão era o de um singelo peixinho de dar inveja a muito designer gráfico ainda hoje. O termo grego para peixe era ichtys (ictus), que passou a ser também um acrônimo para Iesous Christos Theou Yios Soter (Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador).
Mas veio a reviravolta do terceiro século. O imperador converteu-se e a turma dos perseguidos passou a perseguir, numa inversão que faria arrepiar os pelos da barba de Cristo. Os que eram conhecidos por amar e, portanto, eram amadores (porque se armador é o que arma, que se dirá de quem ama?, diria Romerto Diamanso), profissionalizaram-se, hierarquizaram-se e desceram o sarrafo em quem não se dobrava voluntariamente e essa nova espécie bizarra de amor.
E passaram-se mil e setecentos anos de cristianismo repleto de escuridão e salpicado por alguns poucos lampejos de luz até que, lamento dizer, se foi por completo a esperança. Se ainda não foi para você, vamos conversar de novo daqui há uns anos mais. E o ichtys, outrora simbolo do amor que sofre mas não cala, cobre-se agora então, definitivamente, de novo e inexplicável significado. Já havia ouvido isso da boca de um vendedor de carros, mas agora estampa-se na página de renomado veículo de comunicação online, pela pena confusa de um jornalista desinformado, a nova e desoladora definição para o pobre peixinho. Eu o perdôo, UOL. A culpa não é sua. A culpa é do rumo torto e deprimente que tomou o cristianismo.
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