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quarta-feira, 15 de maio de 2013

Pausa

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PAUSE 7 from PAUSE on Vimeo.


“Mas os dias que estes homens passam nas montanhas, são os dias em que realmente vivem. Quando as cabeças se limpam das teias de aranha, e o sangue corre com força pelas veias. Quando os cinco sentidos recobram a vitalidade, e o homem completo se torna mais sensível, e então já pode ouvir as vozes da natureza, e ver as belezas que só estavam ao alcance dos mais ousados.”
Reinhold Messner

quinta-feira, 1 de março de 2012

Mais histórias irrelevantes à vista

Os mais antigos aqui nesse blog, ou os mais curiosos que já clicaram nos banners laterais, sabem que já rolou por aqui uma série de histórias de aventuras irrelevantes que vivi em algumas montanhas Brasil afora, na época em que era um montanhista atuante. Fiz até uma coletânea desses causos, todos absolutamente verídicos, talvez não nos mínimos detalhes, que se tornou um ebook simpático que você pode baixar de graça, quando quiser.

Desde aquele tempo fiquei matutando se havia ainda na minha cachola quantidade suficiente de fragmentos de memória que comportassem um segundo ebook. Pois esses dias comecei a fazer uma busca nos cantos escuros das lembranças e fui achando pedaços de coisas interessantes, unindo umas às outras aleatoriamente, tentando dar sentido àquela confusão, e acho que consegui alguma coisa. Tenho o esboço de mais umas dez lembranças. Vou tentar tirar todo o pó e ir contando pra vocês conforme termino a limpeza. Depois que tiver um volume razoável publicado, monto o Incríveis Histórias Medíocres de Montanha - volume 2.

Vamos ver se chego lá.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Verticalidades

Tente imaginar um gigantesco bloco de granito projetando-se a partir do solo verticalmente na direção das estrelas. Seis centenas de metros verticais de rocha cinza esticando-se como quem quer alcançar a lua, tocar os astros com seu cume crespo, fragmentado pela incidência incansável de tempestades magnéticas. Pense que seicentos metros equivalem a um edifício de duzentos andares. Agora tente imaginar um homem solitário no meio dessa parede gigantesca, agarrado à fendas, fissuras, buracos, cristais, reentrâncias e saliências da pedra, subindo passo a passo, mãos e pés lascados, moídos pelo atrito, pela pressão da pele na superfície áspera da rocha. Trezentos metros o separam do chão. Outros trezentos o separam do cume. E ele prossegue, metro a metro, içando o próprio corpo com passos de alucinate balé vertical. A trilha sonora para essa cena não é o eletrônico besta dos programas de TV com nomes de adrenalina radical ou coisa semelhante. A trilha, para quem assiste a cena de longe, é uma ópera! Mas para o homem agarrado ali, a trilha é o silêncio profundo soprado pelo vento gelado, rompido somente pela própria respiração calma, profunda, ofegante, arfada, extasiada, assustada, arrependida, maravilhada, apavorada, feliz, corajosa, convicta, reticente...

O horizonte desse homem é infinitamente maior do que o de alguém com os pés firmes no chão. O vazio que o rodeia assemelha-se ao infinito, a linha do tempo se rompe e o eterno envolve seus passos firmes na direção do topo.

E o homem prossegue, lentamente, passo a passo, acalentado pelo abraço terno do silêncio e da solidão profunda que o levarão ao mesmo tempo para o topo e para dentro de si. E não vê a hora de chegar lá.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Imutável

Há 18 anos pisei pela primeira vez o solo santo do morro do diabo*. Lá vivi intensamente alegrias, tristezas, amizades, pavores, cansaço, fome, frio, calor, solidão profunda, epifanias enebriantes, histórias engraçadas e trágicas. É impossível contabilizar quantas vezes subi essa montanha. Depois que deixei Curitiba, a primeira via de escalada que abri em Blumenau foi batizada de Baitaca, em homenagem à serra que abraça carinhosamente o monte que aninhou-se macio em minhas lembranças.

Foi lá que criei coragem e venci o gigante da timidez e do estilo brucutu para iniciar meu primeiro (e único) namoro.

Foi lá que vi o colega caído, o sangue no chão, a vida esvaindo pelo corte profundo na cabeça.

Foi lá que meu irmão deixou definitivamente de ser o tutor do mais novo e tornou-se para sempre, de maneira irreparável e irrevogável, o melhor e mais querido amigo.

Foi lá que o sol se pôs de maneira mais caprichosa, beijando delicadamente a linha do horizonte, numa tarde perdida no passado mas marcada eternamente na retina.

Foi lá que as nuvens formaram as mais belas mantas de algodão cobrindo todo planalto araucano de prata umedecida pelo banho da lua cheia.

Foi lá que amizades se entrelaçaram entre risos, conversas e lágrimas, ao ponto de não mais se desfazerem mesmo distantes.

Foi lá que levei meus filhos ano passado. E passei um dia mágico de nostalgia, com a linha obstinada do tempo vacilando sinuosa, na companhia de amigos queridos, do irmão parceiro, dos sobrinhos e da única namorada. Comemos sanduiches e lembramos histórias nos pés da mesma imutável e impassível pedra que me viu menino e homem, e me verá, um dia, partir para não voltar mais.



*Em tupi, Anhangava.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Macacos me mordam

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

12.

Estávamos em Vassouras quando o policial nos parou, há 600 quilômetros da partida e 600 do destino. Eu no volante, com minha carteira de motorista em dia, mas os documentos do carro vagando no limbo, em algum ponto entre a origem e o destino. Cem quilômetros antes, quando chegávamos ao Parque Nacional do Itatiaia, nos demos conta de que os documentos ficaram em Curitiba, junto com a carteira do meu irmão, que vinha dirigindo até ali. Desfrutamos de dois belos dias de caminhada no parque, com algumas escaladinhas simples aqui e ali. Antes de pegarmos novamente a estrada, conseguimos pedir, por telefone, que meus pais enviassem pelo correio a carteira e os documentos para Governador Valadares. Dali para frente, assumi o comando do carro. O posto da polícia rodoviária estava sem energia elétrica e o policial nos abordou com uma lanterna na mão.

– Documentos, por favor.

Mostrei-lhe meus documentos e aguardei a reação.

– Documentos do carro.

Nosso roteiro incluía, além do Itatiaia, o morro do Ibituruna, em Governador Valadares – onde assistiríamos o casamento de um primo e voaríamos de parapente – a Serra da Caraça, Serra do Cipó e Serra da Moeda, em Minas, mais a Serra da Bocaina e Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro. Viajávamos no Fiesta ‘mil’ do meu pai. Eu, meu irmão e nossas esposas, além de todo equipamento para camping, escalada e dois parapentes.

– Não estão comigo, senhor policial. Devem, agora, estar viajando pelo correio até Valadares, nosso destino final, à 600 quilômetros daqui.

O homem me chamou para uma conversa particular. Acompanhei-o na escuridão até a guarita na beira da estrada. Apontou-me um placa em um canto escuro, indicando exatamente qual seria o valor da multa que eu teria que pagar, caso não encontrássemos outra solução. Minha consciência teimosa não me permitia ‘molhar’ a mão do ilustre policial. Apelei para a ignorância:

– Desculpe, senhor, mas minha religião não permite nenhuma solução alternativa à lei.

Com um misto de incredulidade, espanto e desdém, o policial me encaminhou até o seu superior, que ouviu a mesma ladainha religiosa. Deu certo.

– Se manda da minha frente, rapaz, antes que eu mude de idéia!

O pacote, no correio de Valadares, estava em nome do meu irmão. Para retirá-lo, ele precisaria apresentar um documento, mas seus documentos estavam justamente dentro daquele pacote. Mais uma novela. No Ibituruna, belo e famoso morro da região, onde pretendíamos voar de parapente, fomos barrados pela fiscalização. Nunca tivemos a documentação exigida pelo extinto Departamento de Aviação Comercial – DAC – que regulamentava e fiscalizava o vôo-livre na época. Fomos sempre voadores clandestinos.

Na serra da Caraça, paisagem de tirar o fôlego. Na serra do Cipó, roubaram nosso fogareiro, mas escalamos um bocado. Na serra da Moeda, um belo vôo. Na serra da Bocaina, um mergulho no mar dos ricos, em Angra dos Reis, e o ataque de um cachorro feroz. O ‘grand finale’ merece uma descrição mais detalhada.

Tínhamos informações superficiais sobre a trilha e a parede, mas o desejo de alcançar o cume era enorme. Um dos integrantes do grupo abandonou a empreitada pouco antes de chegarmos à base da parede, por conta de um fortíssimo desarranjo intestinal. Ao menos teve tempo de presenciar a cena improvável que se descortinou diante de nós.

Eles surgiram não se sabe de onde, movendo-se lentamente, em passadas largas, pelas copas das árvores. Vários filhotes viajavam confortavelmente agarrados às costas de suas mães. Os Monocarvoeiros são os maiores primatas das américas. Vivem em grupos de seis a doze indivíduos e estão ameaçados de extinção. O grupo passou a menos de 10 metros de nossas bocas abertas. O maior deles postou-se de frente para nós, nos encarando nos olhos, enquanto os demais passavam desconfiados mais atrás. Somente quando o último se afastou em segurança é que o líder que nos fitava seguiu lentamente seu caminho, mas sem nos tirar do seu campo de visão desconfiado. Lentamente, sumiram todos entre a vegetação.

Calcula-se que restem entre 200 e 1200 indivíduos desta espécie no planeta.

Nos perdemos na trilha e chegamos à parede não exatamente no ponto que pretendíamos. Encaramos a primeira via que apareceu e, até hoje, não sabemos o nome da maldita. Alcançamos o cume do dedo depois de quatro cordadas fáceis. Erramos também a descida. Nossa corda não chegava na parada e optamos por descer pela via que subimos, apesar das transversais que tiveram que ser desescaladas.

Férias como essas, nunca mais.

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Acompanhe:
Incríveis histórias medíocres de montanha – a série
1. Apresentação
2. O menino de asas
3. Queda livre

4. Às vezes falha
5. O Raio que o parta
6. Sopão
7. Cadê o caroço
8. Do piso ao teto
9. A chave da terra de Malboro
10. Meia lua inteira
11. Gênesis
12. Macacos me mordam

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Gênesis

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

11.

No princípio criou Deus as montanhas, os vales e as falésias. E neles plantou os pequenos afloramentos rochosos, as paredes colossais, as fendas, fissuras, chaminés e tetos, e as espantosas plantas rupestres endêmicas. E cercou-os com o vôo provocante dos urubus, os mares de nuvens e o efeito alucinante provocado pela refração dos raios de sol na densa neblina que envolve os corpos dos montanhistas solitários, cercando-os de uma aura multicolorida, em eventos tão físicos quanto espirituais. E criou também os mocós, as tempestades, as nuvens galopantes abraçando carinhosamente o contorno do relevo, o vento gelado, os platôs improváveis e abençoados, as agarras exatas nos lugares exatos e aquele pequeno arbusto impossível, isolado em centenas de metros de rocha vertical, agarrado à parede com milhares de raízes, como fios de cabelo, presas em saliências minúsculas. E viu Deus que isso era bom. Ah, e como era bom.

Depois fez o homem e a mulher, e colocou-os em um jardim, no vale entre dois grandes rios, mas os fez olhar para os montes e disse-lhes: “Andem por todos os vales e bebam de todos os rios, mas saibam que somente no cume desses montes encontrarão a parte que lhes falta. Pois quando os fiz, retirei parte de vocês, e plantei em algum ponto de alguma dessas montanhas.” E foi nesse dia que nasceu no homem o desejo de conhecer todos os cumes e faces e paredes de todas as montanhas. Jamais, em qualquer das aventuras, travessias e escaladas que o homem empreendeu desde sua criação, pretendeu ele algo mais do que encontrar-se a si mesmo.

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Eu abri os olhos para esse desejo latente quando observava, em uma pedreira abandonada, alguns cabeludos com calças de lycra ridículas, presos à cordas coloridas, pendurados pela ponta das mãos e dos pés, movendo-se com precisão felina pelas paredes de granito cinza. Depois daquele dia, uma sucessão de fatos coincidentes conduziram-me definitivamente à prática desse esporte não-esporte.

Naqueles tempos remotos, não tínhamos acesso a informação alguma. Equipamentos custavam tanto quanto nosso próprio fígado. Não sabíamos nada sobre cursos e não havia internet, nem google (santo Deus, como sobrevivíamos?). As informações estavam devidamente escondidas em locais secretos e inacessíveis. Cavocávamos onde podíamos para encontrar algo que nos conduzisse com segurança, nos tortuosos e confusos caminhos que trilhávamos, mas dependíamos muito mais da nossa imaginação. Em muitos casos, nossas criações eram absolutamente absurdas. Vou lhes contar, em segredo, algumas delas.

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Nossa primeira escalada foi na mesma pedreira onde encontramos aqueles alienígenas cabeludos. Amarramos a corda, em cima do bloco rochoso, em vários pontos de concreto que estavam abandonados por lá. Tínhamos adquirido, à muito custo, um único mosquetão mimado por todos, e uma única cadeirinha. Amarramos uma vítima na ponta da corda, que passava pelo mosquetão, lá em cima, e descia até a tampa de um bueiro. Passava por lá e seguia até nosso grupo. Amarramos a corda na cintura do mais pesado de nós e o restante segurou firmemente. Enquanto a vítima tentava escalar alguma coisa, a turma agarrada na corda em fila indiana caminhava para mantê-la tensionada. Em várias situações, içávamos a vítima que não conseguia vencer determinados pontos da parede. Feche os olhos e tente imaginar a cena, sem rir, nem chorar.

Depois dessa lamentável experiência, começamos a evoluir rapidamente. Eu e meu parceiro fiel (irmão camarada) compramos um único par de tênis de escalada. Íamos para montanha com nossos três mosquetões e encarávamos as vias que nos pareciam mais fáceis. Tínhamos também um freio oito e um maione feito em casa (que hoje em dia ninguém sabe mais o que é). Um mosquetão ficava com o segurança e o guia escalava com os outros dois. A cada duas costuras, o infeliz tinha que buscar o mosquetão de baixo. Chegando na parada, quando a via era mais difícil, o tênis era lançado para o segundo. Num desses lançamentos, o par caiu dentro de uma fenda estreita, uns dois metros rocha adentro, entalado entre as paredes, à dois metros do chão. Filho único de pai solteiro, aquele par de calçados tinha valor inestimável. Acreditei que seria possível resgatá-lo e entrei de cabeça na fenda. O peito e as costas roçavam na pedra áspera enquanto puxava o meu próprio corpo em direção àquele funil, sem parar para pensar no retorno. E sucedeu conforme o previsível. Alcancei o calçado, mas entalei.

Com o tronco travado firmemente entre as duas paredes de rocha, praticamente perdi a capacidade de dilatar o peito e encher o pulmão de ar. Clamei por socorro com desespero suficiente para fazer meu irmão rapelar com certa urgência para o resgate da sardinha enlatada. Com goles pequenos e rápidos de ar, como a gestante aprende a fazer no curso ‘parto sem medo’, mantive a mente oxigenada enquanto desenvolvíamos em conjunto alguma engenharia capaz de me sacar daquela situação humilhante. Acabei, depois de muito esforço, e sem soltar o par de tênis da mão, conseguindo a liberdade. Apesar da estupidez da situação, minha vida, ali, esteve por um fio.

O próximo passo na nossa vertiginosa ascensão no mundo das escaladas era natural. Encontramos aquela parede virgem cercada por um pântano fétido e ouvimos o clamor da rocha, ansiando ser escalada. Lançamo-nos em detalhada investigação sobre os mistérios da conquista. Clifs, rurps, nuts, estribos e uma série de novos termos passaram a enriquecer nosso vocabulário. Obviamente tínhamos acesso somente às palavras. Para a primeira via que abrimos, tivemos que usar nossa criatividade e inconseqüência. Entortamos algumas chapas de metal e fizemos nossos próprios clifs. Muito bons, por sinal. Compramos brocas com ponta de vídea e uma bela marreta... de 3 kg. Além disso, selecionamos algumas chaves de boca bem robustas da nossa caixa de ferramentas, que usamos como proteção em algumas fissuras. Os primeiros furos foram feitos assim mesmo. Clifs caseiros, chaves de boca, estribos feitos com corda de varal e uma marreta de 3kg batendo diretamente sobre as brocas, sem mandril. Além de terminarmos o dia com o braço latejando pelo peso da marreta, quebramos todas as brocas. Nas semanas seguintes descobrimos que uma marretinha de 300g seria suficiente, e conseguimos um belo mandril emprestado. Com esse arsenal abrimos três vias de 15 a 20 metros onde hoje se encontra um famoso teatro. O pântano virou um lago repleto de peixes e patos, e tem até uma cachoeirinha. Mas o acesso às vias foi proibido.

O engraçado foi ver, semanas depois da proibição, uma campanha publicitária convidando o Brasil inteiro para fazer turismo em Curitiba. Uma das cenas de destaque era o recém inaugurado teatro, com a bela parede de granito ao fundo. Então a câmera viajava em direção à uma dupla de escaladores na via que abrimos com nosso suor e sangue, mostrando, em um momento mágico, a fusão de cultura, esporte, lazer e meio-ambiente. Politicagem miserável. Propaganda enganosa. Ninguém nunca mais pode escalar ali.

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Incríveis histórias medíocres de montanha – a série
1. Apresentação
2. O menino de asas
3. Queda livre

4. Às vezes falha
5. O Raio que o parta
6. Sopão
7. Cadê o caroço
8. Do piso ao teto
9. A chave da terra de Malboro
10. Meia lua inteira

11. Gênesis

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Meia Lua Inteira

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

10.

O bloco de granito subia vertical em direção aos céus. Não era um bloco muito grande. Cerca de 20 metros acima do solo, o sol refletia no tom ocre da rocha, deixando-a dourada. À sombra, o vento deixava o ambiente gelado. Os dois companheiros de inúmeras escaladas, caminhadas e roubadas, observavam a fissura que o diedro formava no encontro perpendicular dos planos. Iniciava vertical, larga e rasa, com poucas chances de entalamento das peças novinhas que brilhavam em suas mãos. Subia convicta, afunilando, tornando-se mais profunda e angular. Oito metros acima, dobrava à esquerda em uma curva perfeita lembrando uma meia-lua e, depois de alguns metros seguindo paralela ao solo, subia vertical novamente. Na saída dessa última curva fechada, a fissura abria-se generosa e profunda, pronta para o entalamento perfeito de uma peça robusta. Até lá, somente pequenas peças encaixadas com certa precariedade evitariam que o corpo estalasse no chão duro no caso de uma queda.

O mais novo deles, e mais afoito, e mais desmiolado, elegeu-se para a ponta da corda. Nuts variados e alguns friends alojaram-se na bandoleira. O equipamento novo revelava a inexperiência do rapaz nesse tipo de escalada. De qualquer forma, sentia-se confiante. Entrou na via dando um passo largo sobre o buraco que ficava logo abaixo da fissura. A queda ficava muito mais indesejável com a presença daquela cavidade infeliz. Era difícil manusear as peças com as mãos tremendo, mas o rapaz prosseguia confiante, enfrentando corajosamente as incontroláveis descargas da ácido lático e adrenalina no corpo. Na entrada da meia lua a fissura praticamente desaparecia. Os poucos metros de deslocamento horizontal eram o momento mais sensível. As pernas começavam a vibrar descontroladas enquanto a mente o acusava de imbecil por estar ali, naquela situação ridícula. Em um movimento mais brusco, na esperança de recobrar o equilíbrio e controle do corpo, aconteceu o impensável. O som dos mosquetões deslizando pela corda, os estalos leves e agudos dos choques entre metais e os olhos arregalados do companheiro que dava segurança, anunciaram que a situação estava bem pior do que se podia imaginar. As quatro pequenas peças que haviam sido instaladas fissura abaixo, e que seriam as responsáveis por evitar o desagradável contato abrupto do corpo com o solo, encontravam-se, agora, todas elas, amontoadas na mão do segurança, que olhava atônito para seu companheiro.

- Muita calma nessa hora! – sussurrava-lhe a mente. As pernas e braços não correspondiam aos apelos da consciência e vibravam cada vez mais. Os olhos fixaram-se desesperados naquela abertura abençoada e salvadora da fissura na última curva. Todos os músculos tensionaram. Durante breves segundos, corpo e mente travaram uma batalha colossal, ambos conscientes de que a salvação encontrava-se dois ou três passos ao lado, naquela bendita curva. Os olhos vasculharam cada detalhe da rocha vertical e a mente visualizou cada um dos próximos movimentos detalhadamente. De longe o rapaz intuiu cuidadosamente a abertura da fissura, e previu exatamente que peça seria colocada ali, caso conseguisse alcança-la. Moveu-se lento e convicto em direção à salvação. Nada seria capaz de desviar-lhe a atenção. Um, dois, três... pronto! Mão cheia na agarra, pés chapados na rocha, corpo lançado firmemente para trás, procurava agora, atabalhoado, a peça previamente calculada para aquela abertura. Apesar da sensação de alívio, o corpo inteiro vibrava como bambu verde por conseqüência da superdosagem de elementos químicos que o inundaram naqueles segundos. Proteção fixada, corda passada. Os mais longos segundos da vida do moço encerraram naquele instante. Ainda houve sangue de barata suficiente para seguir fissura acima, até a parada.

Naquele dia, aquela fissura mixuruca transformou-se, para aquele rapaz, na mais incrível parede de granito do planeta.


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Incríveis histórias medíocres de montanha – a série
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10. Meia lua inteira

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

A chave da terra de Malboro

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

9.

O pessoal tinha vindo de Foz do Iguaçu para, enfim, escalar em uma montanha de verdade. Lá no terceiro planalto, tudo que tinham eram as falésias do rio Paraná, dentro do Parque Nacional do Iguaçu, e o ‘Monumento das Três Fronteiras’, construído com blocos de rocha, onde dava para brincar um pouquinho. É verdade que escalar no leito do rio, com as Cataratas ao fundo, é uma experiência muito interessante. Sem falar que, na época, o acesso ao parque era gratuito para o pessoal da associação de montanhismo. Já existiam dezenas de vias lá, de vários graus e estilos. Entre uma e outra escalada, ainda dava pra ver os turistas subindo o rio nos botes infláveis do Macuco, em direção às quedas d´água espetaculares que, de alguns pontos, podíamos ver escalando. Mas montanha mesmo não havia nenhuma por lá.

Enchemos meu fusca branco, o carro mais valente que já tive, e descemos a serra com um objetivo claro. A Última Terra de Malboro, na Esfinge, era um sonho para todos nós. Cinco adultos e todas as mochilas, com todos os equipamentos necessários, não eram pouca coisa para meu possante veículo, mas ele agüentou firme. Íamos em duas duplas bem integradas para a parede, e o quinto elemento do grupo seguiria caminhando pela Noroeste. Nos encontraríamos novamente na estação, no fim do dia.

Para manter o protocolo, segui à risca as dicas até a base da via, mas acabei na via errada. Gastamos as pontas dos dedos e um bom tempo tentando vencer os movimentos improváveis da complicada Ilusionistas. Eu quebrava a cabeça tentando encaixar aquilo na descrição que tinha da Terra de Malboro. Só depois de muito esforço em vão é que a ficha caiu. Mais alguns minutos perambulando pela base da Esfinge e, enfim, chegamos ao local correto.

Havíamos perdido boa parte da manhã, e a possibilidade de concluir a via era mínima, principalmente porque ninguém da equipe a conhecia e, coisa terrível, o mais ‘experiente’ ali era eu mesmo. Nos jogamos parece acima, na infame tentativa de ganhar tempo. Devo confessar que não lembro praticamente nada daquela escalada. Acredito que o trauma posterior bloqueou aquelas lembranças. Não sei quantas cordadas escalamos. Creio que não fomos muito além do meio da parede. Talvez 3 ou 4 esticões, nada mais. Sei que foi tudo tranqüilo, sem estresse, mas estávamos lentos demais. A certa altura, com o sol já bem escondido atrás do horizonte, abandonamos a parede. Na base já estava bem escuro e os equipamentos espalhados, ocupando uma grande área, foram organizados na penumbra, à luz de lanternas. Corda para cá, ferragens para lá, casaco, botas, mochila nas costas e pronto.

O próximo passo era encontrar o quinto elemento na estação e descer até o antigo posto do IAP, lá em baixo, na beira do Nhundiaquara, onde tínhamos deixado o carro. O sujeito era um caso à parte. Muito boa gente, mas completamente destoante em relação ao resto da equipe. Nós, esfarrapados e mulambentos, relativamente abobalhados, falando besteira e curtindo o tempo. Ele, impecável, vestindo as mais caras grifes de montanha, engenheiro de respeito, sério, encarando cada passo como um desafio, um preparo físico e psicológico para alguma excursão ainda maior, nos Andes ou na Europa, sei lá. Chegamos na estação bem depois do horário programado, e ele já não parecia muito feliz. Descemos a estradinha estafados e, como todo bom montanhista pé-de-chinelo sabe, o cansaço é o pai do besteirol. O quinto elemento nos acompanhou calado, possivelmente pensando que tipo de gente chinfrim éramos. Com o passar do tempo, e dos metros, a bobajada foi lentamente sendo superada pela lombeira. Aos poucos o silêncio venceu o riso e o cansaço tomou definitivamente seu lugar, fazendo pesar os olhos, o corpo, a boca e a cabeça. O fim desse processo é um estranho sentimento de tristeza. Aquela mesma tristeza que dá depois de uma grande feijoada, quando o silêncio toma conta da mesa e já não se tem ânimo nem mais para sair do lugar; quando esticamos as pernas e deixamos o corpo escorregar na cadeira, olhando para algum ponto no infinito, na expectativa de que o estômago consiga de alguma forma mágica acomodar tudo aquilo que engolimos. Ao menos nesse instante o quinto homem deve ter se sentido em paz.

Chegamos ao carro, arrastando as botas, depois das 10 da noite. Todos felizes, com o sorriso bobo de quem está chegando ao fim de um sofrimento. Alguns metros antes já me bateu o susto costumeiro – onde é que deixei a chave? - As mãos correram apressadas entre os bolsos enquanto a consciência já mandava mensagens de paz – está no bolso do anorak, lembra? – É mesmo. Como poderia ter esquecido. Ainda antes da primeira tentativa na Ilusionistas eu havia acondicionado as chaves no bolso da jaqueta impermeável e fechado com segurança o zíper. Lancei a mochila no chão, ao lado do fusca, absolutamente seguro de mim, com um sorriso de vencedor, de quem passou a perna na própria cabeça oca. Abri confiante a mochila e enfiei a mão lá dentro à busca do anorak. Deslizei o braço de um lado para o outro, cavocando no meio daquela confusão, quando uma leve sensação de pavor tomou meu coração. Comecei a esvaziar rapidamente a mochila, espalhando tudo pelo chão, enquanto todos me rodeavam, olhares fixos em mim. Os sorrisos da chegada congelaram, desconfiados. Esperavam, ansiosos, o momento em que revelaria estar brincando. Depois de espalhar tudo no chão e conferir cada canto da mochila umas três vezes, fui tomado por imenso desespero. Creio que o semblante transmitiu a mensagem claramente. Os olhos arregalados de todos cruzaram-se em silêncio. Depois de alguns minutos de angustiante luto, conseguimos, sei lá porque cargas d´água, achar graça naquilo. Obviamente não o quinto homem. Ele parecia ter entrado em alguma espécie de transe raivoso. Não exprimiu um único som, mas seus olhos berravam infâmias de condenação.

Conseguimos contato pelo rádio com alguns companheiros que estavam no pé do morro e solicitamos o resgate do anorak que havia ficado em algum canto da base da via, possivelmente encoberto pelas sombras. Eles, graças à Deus, dispuseram-se a iniciar as buscas no dia seguinte. Caminhei ainda uma meia hora até o primeiro orelhão já perto da ponte do rio. Pedi então resgate para nossa equipe, a partir de Curitiba. Me irmão, e meu herói, chegou lá umas 2 horas depois, levando a chave reserva do carro.

Dali para frente deu tudo certo. Recebi de volta o anorak e a chave realmente estava naquele bolso. Mas nunca mais vi o quinto elemento.

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4. Às vezes falha
5. O Raio que o parta
6. Sopão
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8. Do piso ao teto
9. A chave da terra de Malboro

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Do piso ao teto

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

8.

Era um projeto ousado. Poucos percorreram toda aquela parede de uma só vez. Se quiséssemos ter a esperança de concluir todo trajeto em um dia, teríamos que correr. Saímos de Curitiba às 5 horas da manhã, abandonamos o carro no pé da serra e percorremos, apressados, o longo trecho que nos levaria à base do impressionante contraforte.

Era um daqueles dias perfeitos de inverno. O céu descortinava, à medida que os vapores da noite subiam e sumiam engolidos pelo sol, um degradê de azuis impossíveis, e a brisa gelada prometia um dia perfeito.

Às 7 horas estávamos na base da parede, preparando-nos para um longo e intenso dia vertical, alternando rocha e mato numa correria para chegar ao cume antes do anoitecer. As primeiras cordadas foram feitas em tempo recorde. Aproveitamos a parte já conhecida da rocha para adiantar o cronograma. Para fazer a parede inteira, do piso ao teto, emendaríamos cinco vias diferentes. Essas emendas eram os trechos mais delicados, desprovidos de qualquer possibilidade de proteção. Além disso, a rocha era bastante suja nessas partes, com cristais soltos, terra, musgos e água escorrendo. Algumas costuras eram feitas em instáveis tufos de taquaras e em certos trechos os esticões eram apavorantes. Tecnicamente não havia nada que qualquer guri com um mês de academia não pudesse facilmente deixar para trás. Mas os nervos floresciam ao sol, encharcados pelo suor tenso e compenetrado. No manejo da corda em uma das paradas, um freio oito decidiu percorrer sozinho o caminho de volta, parede abaixo.

Chegamos ao grande platô, onde ficam as vias mais freqüentadas daquela famosa montanha, no meio da tarde, completamente exaustos. Já tínhamos suportado 8 horas de parede, com breves intervalos para algumas barras de cereais, água e chocolate. Isso sem contar uma hora de caminhada e uma hora de carro desde Curitiba. A alvorada, ainda no conforto da minha casa, tinha sido às 4 horas da manhã.

No grande platô fizemos um lanche mais reforçado, preparamos e bebemos suco instantâneo e nos permitimos alguns minutos de descanso, principalmente aos pés, oprimidos e castigados pelos apertadíssimos calçados próprios para escalada em rocha. Dali para frente seria somente pedra, granito puro, vertical, até o cume daquela montanha.

Se arrependimento matasse, teria caído morto no dia seguinte. Pois não aconteceu que, num momento da mais absurda estupidez, 50 metros acima do platô, a míseros 200 metros do objetivo final, fui tomado por uma mistura de desânimo infantil e medo maricas? De forma absolutamente irracional, tomei, naquele instante, sem pestanejar, a decisão mais infame da minha carreira montanhística. Abortei a missão. Meu companheiro, cabra macho de verdade e um tanto quanto obcecado, conseguiu a adesão de um amigo que havíamos encontrado por acaso no platô, e tocou o projeto até o final. Nos encontramos 3 horas depois, na trilha, por volta das 8 da noite e tocamos morro abaixo à luz das lanternas.

Os momentos mais perigosos que passamos naquele dia, porém, muito mais terríveis que as costuras em taquaras minúsculas, com 10, 15 metros entre uma e outra, ou os trechos escalando à francesa, foi o inconseqüente retorno na estrada até Curitiba. Acordados desde as 4 da madrugada e depois de quase 12 horas na parede e pelo menos umas 4 horas na trilha, pegar a estrada foi uma temeridade. Com dezenas de cochilos periódicos, interrompidos pelos solavancos do carro no acostamento, chegamos em casa um pouco depois das 11 da noite. Ao que me consta, baseado em dados não oficiais, o que mais mata escaladores, estatisticamente, são as viagens de carro. Os mais notáveis nomes internacionais e pessoas queridas e bem próximas de nós são contabilizados nesses números funestos.

Depois de um dia desses o lar é o paraíso na terra. O chuveiro e a cama berravam meu nome, a cama muito mais alto mas, pelo bem do casamento, ouvi primeiro os apelos do chuveiro.

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Acompanhe:
Incríveis histórias medíocres de montanha – a série
1. Apresentação
2. O menino de asas
3. Queda livre

4. Às vezes falha
5. O Raio que o parta
6. Sopão
7. Cadê o caroço
8. Do piso ao teto

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Cadê o caroço

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

7.

O suprassumo da escalada na época, pelo menos para um piazito como eu, era ter a coragem de enfrentar as enormes, imponentes, assustadoras, desafiadoras, terríveis e temerosas paredes de granito do Marumbi. Já tinha escalado uma e outra viazinha no Lineu e no Paredão Preto, mas chegava a sonhar com as paredes realmente comprometedoras do local. Pescando as informações secretas que vazavam abafadas dos montanhistas de verdade, chegamos ao nome daquele que haveria de ser nosso primeiro grande desafio naquele conjunto de montanhas. O Caroço da Esfinge.

Fomos agraciados com um belíssimo croqui, feito de cabeça num naco de papel arrancado às pressas de algum lugar, pelo próprio autor da via (um deles).

Os preparativos para a nobre empreitada assemelhavam-se à um complexo ritual religioso de iniciação. Tudo organizado e planejado com o respeito de alguém prestes a pisar em solo santo.

O roteiro era simples. Acordar de madrugada, pegar o trem, descer na estação do Marumbi, seguir pela Noroeste montanha acima, até o local chamado ‘praça XV’, que deveria ser intuído no meio daquele matagal, um pouco antes da primeira janela. Na praça, a Noroeste ficaria para trás e desceríamos a encosta até cruzar um rio seco no fundo do vale e, voilá, a base do Caroço. Segundo o croqui, os primeiros grampos estariam bem acima na parede e teríamos que iniciar a escalada às cegas, seguindo por uma pequena fissura na rocha.

Foi exatamente o que fizemos. Depois de cumprir à risca todo trajeto, localizamos a fissura na base da parede. Segui por ela, na ponta da corda, por uns 20 metros e nada de grampo ou da bendita corrente que teria de estar por ali. Armei uma parada improvisada em um pequeno platô, utilizando um arbusto relativamente firme. Acocorado no platô minúsculo, seguia meu ritual mecânico e silencioso de esticar a corda para meu companheiro quando avistei um ponto negro minúsculo contrastando com o azul profundo do céu, surgindo por trás do Abrolhos, cruzando a Ponta do Tigre e lançando-se vertiginosamente pelo vale, observando tudo ao seu redor. A penugem parda e escura destacava o bico quase dourado, com a ponta curvada afiada como uma navalha. Naquele momento, tinha-se a nítida impressão de que absolutamente nada lhe escapava da visão. As pontas das asas e do rabo tremiam pelo movimento do vento enquanto a águia cortava o ar sem piedade. A certa altura, inclinou seu corpo para cima, mudando suavemente o plano de vôo, desenhando uma onda no céu, subindo levemente e reduzindo a velocidade como um gato que se prepara para o bote fatal. A cabeça e os olhos permaneciam fixos em algum ponto adiante de mim, mas um pouco abaixo. Encolheu as asas reduzindo-as à metade de sua envergadura e lançou-se em um bote definitivo rumo à vítima inocente que lhe serviria de alimento. Quando estava a ponto de cruzar a minha frente - e eu já podia ouvir o grito do vento sendo rasgado - desenhou, dessa vez muito mais abruptamente, uma nova onda no ar, batendo as asas abobalhadamente como o albatroz de Bernardo e Bianca. Foi nesse instante, quase parada no ar, que a ave virou a cabeça na minha direção, abriu as asas recuperando a compostura e, inclinando o corpo, planou suavemente até o platô onde eu estava. Pousou 2 metros ao lado, sem tirar os olhos de mim. Observou curiosamente cada suave puxada na corda, analisou os movimentos, a roupa e o equipamento. Nossos olhares se cruzaram algumas vezes naqueles segundos. Ela curiosa, eu maravilhado. Num movimento rápido, acompanhado pelo guincho espetacular das aves de rapina, voltou os olhos para o vale e precipitou-se novamente no vazio, possivelmente imaginando que tipo de figura patética eu era.

Daquele platô ainda tentamos subir mais alguns metros, mas a ausência de proteções começou a deixar a situação delicada demais e decidimos descer dali. Concluímos com muita propriedade que alguém deveria ter mudado a via de lugar e reservamos o restante do dia para conhecer toda a base da Esfinge.

Passamos ainda muitas outras noites sonhando com aquelas paredes.

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Incríveis histórias medíocres de montanha – a série
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2. O menino de asas
3. Queda livre

4. Às vezes falha
5. O Raio que o parta
6. Sopão
7. Cadê o caroço

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Sopão

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

6.

A chuva, apesar da terrível decepção e sofrimento potencial que trás a qualquer caminhante, é também, potencialmente, uma grande aliada à um contador de histórias. A maioria dos casos que ficam gravados na memória de um excursionista e, consequentemente, transformam-se em causos dignos de serem contados em rodas de amigos, seja em um boteco, ponto de ônibus, barraca ou cume de montanha, envolvem os desprazeres causados por essa dádiva de Deus, despejada graciosamente sobre justos e injustos.

Em uma de minhas primeiras visitas ao Pico Paraná, ponto culminante da impressionante Serra do Ibitiraquire, permitimos que um grupo inexperiente de aventureiros de sessão da tarde nos usasse como guias e tirasse proveito do nosso cavalheirismo, nobreza, boa-vontade e conhecimento em andanças montanhesas.

A coisa toda foi bizarra.

Começou na estrada de terra. Nós à pé, e os convidados de carro. Carona? Nem pensar. Iria sujar os tapetes do carrão. Como os motoristas não sabiam o caminho, nos acompanharam em todo trajeto. Patético.

No início da trilha, mais uma novela. As mocinhas que vieram ‘conhecer a natureza’, tinham trazido seus pertences espalhados no porta-malas, porque não cabiam em suas bolsinhas minúsculas. Mas isso não era problema. Nós, os experientes e educados pseudo-guias, estávamos equipados com modernas mochilas telescópicas. Confabulamos sobre o número de pessoas e as barracas necessárias, na esperança de poder abandonar algum peso e volume no carro, mas concluímos que seria imprudente. Nossos acompanhantes abelhudos, no entanto, ouviram a conversa e tiraram suas próprias conclusões. Sorrateiramente livraram-se de sua própria barraca, certos de que pessoas tão bondosas como nós cederiam um local seco e seguro para eles. Com um certo esforço coube tudo em nossas costas e iniciamos a caminhada.

O céu estava nublado, cinza chumbo, pesado, prometendo um dia daqueles. Tocamos montanha acima carregando peso para burro, enquanto os visitantes reclamavam da lama, da garoa, do cansaço, do mato, dos mosquitos, da fome, da sede e tudo mais que se possa imaginar. Chegamos ao campo 2 sem visibilidade alguma no horizonte. A garoa engrossou e armamos nossas barracas rapidamente. Ao final da labuta, percebemos que nossos acompanhantes permaneciam imóveis. Soubemos, naquele instante, de sua elegante decisão de deixar a barraca no carro para aliviar o peso, enquanto nós carregávamos suas tranqueiras. Graciosamente, como era de se esperar, cedemos uma de nossas barracas aos folgados e nos apertamos nas que sobraram.

Foi nessa noite, com outros quatro infelizes amontoados em uma barraca de três lugares, que tive meu primeiro contato com um tipo de impermeabilização muitíssimo interessante. A água entrava na barraca sem a menor cerimônia, mas, uma vez lá dentro, não conseguia mais sair. Nossas mochilas tornaram-se ilhas onde cada náufrago permanecia acocorado, tentando manter-se seco. Para aquecer o corpo gelado, arrumamos uma ilhazinha para o fogareiro e colocamos o miojão na panela, na esperança de que, engolindo algo quente, o frio terrível que nos doía nos ossos desse uma trégua. Mas como desgraça pouca é bobagem, minha ilha cedeu, jogando-me na água empoçada. O corpo reagiu de imediato, num movimento descontrolado, atingindo em cheio a panela e o fogareiro. O miojo quentinho virou um sopão gelado, diluído por toda a água da barraca. O jantar foi uma espécie de pescaria nojenta. O macarrão, catado com a mão naquela água gelada e suja, era despejado na boca como uma gosma pegajosa, lembrando aquelas cenas clichês de filme de terror, e descia gelado pela garganta.

A situação tornou-se inaceitável. Saímos todos daquela barraca miserável, implorando por vagas na vizinhança. Graças ao bom Deus meu irmão estava por ali com sua esposa e me cedeu um cantinho apertado, mas seco, em sua barraca minúscula. Os visitantes, tranquilamente acomodados em uma barraca emprestada, que nós carregamos e montamos, barraram os outros dois náufragos. Acharam desagradável demais permitir a entrada daquela gentalha molhada e suja naquela barraca sequinha.

Eu consegui dormir seco. Meus companheiros, sentados em suas ilhas, passaram a noite literalmente ensopados.

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Incríveis histórias medíocres de montanha – a série
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4. Às vezes falha
5. O Raio que o parta
6. Sopão

segunda-feira, 7 de julho de 2008

O raio que o parta

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série

5.

Saímos em 12 pessoas abarrotadas dentro de uma Topic alugada. Passaríamos os próximos 5 dias juntos, num pé de serra, encurralados por grandes paredes verticais e dezenas de possibilidades de rotas para alcançar os benditos cumes. Não era a primeira vez que iríamos para lá, mas esperávamos ser a primeira vez que ninguém nos passaria a perna no local. Em outras visitas havíamos sido enganados por taxistas de Kombi abandonando-nos na beira da estrada, jurando de pé junto que a trilha começava ‘logo ali’; restaurantes fantasmas nos serviram, entre outras bizarrices, bistecas no osso, que já vinham mordidas da cozinha; e padarias com produtos superfaturados, especialmente para turistas trouxas. Dessa vez seria diferente. E como.

A expectativa era enorme. Naquela época os croquis de vias e trilhas eram raridades que valiam ouro. Tudo que tínhamos eram dicas sombrias e distorcidas que exigiam grande exercício de imaginação. O trato com a empresa que alugou a Van era pagar a estadia e alimentação do motorista. Dividimos uma barraca e nossos miojos com ele que, graças a Deus, achou a experiência extraordinária.

Chegamos na base das paredes de granito no fim da tarde. Tempo suficiente para nos lançarmos à primeira via. Parte do grupo ficou na base, organizando as barracas e o jantar enquanto o restante se espalhou pelas paredes.

Optamos por uma via fácil, para ser escalada junto com as esposas, só curtindo o visual. As informações coletadas com antecedência definiam a dificuldade da rota como 3º grau. Iniciamos a escaladinha na maior tranqüilidade. Com o passar dos metros, a coisa começou a complicar, não pela dificuldade técnica, mas pela total ausência de proteções na parede. Finalizamos o primeiro esticão diretamente na parada, 25 metros acima do solo, sem nenhum ponto de proteção intermediário. A situação se repetiu no segundo esticão, mas com um agravante. Alguns metros antes da parada surgiu repentinamente por trás da parede um toró de lavar até a alma. Descemos os dois lances de rapel debaixo de muita água e assustadores raios estourando muito próximos de nós. Já na frágil segurança da barraca úmida, encharcados mas felizes, dormimos sonhando com o dia seguinte.

Nos 3 dias que se seguiram, apreciamos um raro espetáculo da natureza. Foram 72 horas de chuva ininterrupta. Às vezes ela nos dava um fiapo de esperança reduzindo-se a uma finíssima garoa. Nesses breves momentos, quase todos saíam das barracas para alternar a umidade de dentro com a de fora. Quase todos. Um de nós conseguiu a proeza de passar todo esse tempo sem nem botar a cabeça para fora. Certamente se algum fiscal do Guinnes estivesse por ali, dava pra enquadrar o cara em algum tipo de recorde mundial.

O que tornou a viagem menos traumática foi a noite que passamos conversando com um morador do local, na boca do fogão à lenha da sua simpática casinha de madeira. Nós, habitantes da urbis, falávamos e gesticulávamos contando histórias, ora exagerando um pouco, ora mentindo descaradamente, possivelmente compensando as longas horas de imobilidade na barraca. O dono da casa nos observava com a curiosidade de quem observa pela primeira vez chipanzés correndo em uma jaula. No ritmo deliciosamente lento de quem mora no interior, alimentava o fogo que nos aquecia, sentado sobre os calcanhares como se estivesse em uma confortável cadeira na sala de estar.

Motivados pelo tempo chuvoso, nossas histórias rodavam o assunto das tempestades e raios nos cumes da montanha, dos cabelos erguidos pela estática, dos leves choques sentidos quando a mão tocava o solo úmido e dos horrores dessas sensações. Foi quando alguém olhou diretamente nos olhos daquele senhor, perguntando-lhe se ele mesmo não havia vivido alguma experiência interessante com tempestades e relâmpagos. Com movimentos lentos e o semblante inabalável de quem não entende em absoluto a nossa empolgação, aquele senhor finalmente abriu a boca:

- Uns anos atrás eu e meu irmão ‘tava roçano’ o mato ali atrás. Quando ele levantou a enxada, um raio pegou ele e matou.

O homem, com aquele típico olhar triste do interior, colocou mais um pedaço de madeira no fogo enquanto mantínhamos um profundo e constrangido silêncio.

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No último dia o sol brilhou a tempo de secar parcialmente as barracas. Nos despedimos do morro tomando uma garapa espremida à manivela na casa daquele senhor e conhecendo a espetacular coleção de plantas extraordinárias de sua simpaticíssima esposa.

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Incríveis histórias medíocres de montanha – a série
1. Apresentação
2. O menino de asas
3. Queda livre

4. Às vezes falha

5. O Raio que o parta

terça-feira, 10 de junho de 2008

Queda livre

Incríveis histórias medíocres de montanha - a série

3.
O tempo estava perfeito. Céu azul, vento fresco, intensidade média, soprando continuamente do litoral. Ao meio-dia teria um almoço gostoso na casa de quem, um ano depois, viria a se tornar meu sogro. Tínhamos que sair cedo e voltar rapidamente. O tempo estava tão perfeito que dispensamos tudo que o bom senso exige. Rumamos ao descampado da decolagem de sandálias, bermuda e camiseta, abandonamos o rádio comunicador em casa e, pra fechar com chave de ouro, voávamos sem o pára-quedas reserva, que, aliás, nunca tivemos. Afinal, o que poderia dar errado?

Vôo livre no litoral costuma ser coisa tranqüila. O vento que vem do mar sopra lisinho, sem as turbulências do relevo e variação de temperatura do interior, onde bolhas invisíveis de ar quente se desprendem do solo fazendo a festa dos urubus e parapentes. Qualquer morro com um desnível razoável voltado para o mar faz o vento subir, acompanhando o relevo e mantendo os voadores por longas horas no ar.

Nessas condições, era importantíssimo manter viva na cabeça a idéia do almoço ao meio-dia, para não cometer a infração do atraso, falta gravíssima na família da mulher com quem eu pretendia me casar.

Abrimos as velas na encosta, nos conectamos a elas e corremos, numa espécie de ameaça de suicídio, em direção às ondas que rebentavam nas rochas. Foram necessários poucos passos antes do corpo ser arrancado do chão e lançado aos céus. O vento era suficiente para nos manter no ar, mas não tinha forças para nos levar além da crista da pequena serra litorânea. Vagamos num vai e vem celestial por alguns minutos, quando resolvi aproximar-me da encosta para ampliar meus horizontes. Guloso, insatisfeito com tudo que já tinha, queria ir além e vislumbrar as praias que se escondiam ao norte, atrás daquele morro.

Aqui é preciso um rápido esclarecimento para quem não sabe como funcionam os inquietos ventos na superfície do planeta. O deslocamento de ar que avança sobre um relevo o acompanha, como não é difícil de imaginar. O vento que bate na face de um morro, sobe esse morro e, por estar subindo, mantém parapentes, urubus e folhas secas no ar. É o que chamamos tecnicamente de lift. O interessante aqui, e que merece todo destaque nessa história, é o que acontece com esse vento logo atrás do morro. Como ele passa em velocidade pelo ponto culminante do relevo, logo atrás deste cria-se uma espécie de vácuo que suga o próprio vento para baixo. O ar então se choca novamente contra o relevo e sobe outra vez, mas no sentido contrário. Isso é tecnicamente chamado de rotor. Dá pra imaginar que nem urubus e muito menos parapentes - que não podem bater asas pra se safar - gostariam de entrar em uma região de rotor. Esclarecido isso, podemos continuar.

Como o vento não tinha, naquele momento, intensidade suficiente para me levar acima do cume à uma distância segura dele, aproximei-me para forçar essa altura. Manobra de sucesso. Observei todo faceiro as praias do norte, considerando-me um espertalhão. Foi quando meu aguçado senso de responsabilidade lembrou-me que o almoço no sogro já deveria estar quase sendo servido. Aprumei o parapente na direção do pouso e... nada. Não saí do lugar. Misteriosamente, bem na linha do cume, a poucos e ameaçadores metros da região de rotor, exatamente naquele infeliz momento, o vento aumentou de intensidade. Um parapente não pode voar contra o vento se a intensidade dele for maior que a velocidade da vela. Pois foi justamente o que aconteceu. O vento começou a levar-me para trás, em direção ao rotor, enquanto meu olhos arregalavam-se.

Daí em diante, iniciou-se um devastador processo de afloramento do mais puro desespero. Cerca de cem metros à frente e alguns abaixo de mim, estava meu parceiro de vôo. Tomado de incontrolável pavor, iniciei com ele um profundo diálogo, aos berros:

- Tô indo pro rotor!
- Acelera!
- Tô acelerando!
- Acelera com tudo!
- *@#&!
- Vira!
- Já virei! Tô entrando no rotor!
- Acelera!!!
- *@#&!!!!! Rotor! Rotor!

Com um leve solavanco, iniciou-se a fase 1 da máquina de lavar roupa, quando o motor aos poucos vence a inércia e começa a chacoalhar aquele monte de tecido. A partir daí, a roupa sabe que não há como escapar. Depois de longos segundos de chacoalhões e solavancos, a vela, que antes me sustentava graciosamente, transformou-se em um horrível pano de chão, que batia ao vento como a bandeirinha que penduramos na antena do carro em época de copa do mundo. Abaixo de mim cresciam loucamente as árvores, com suas bocas escancaradas e dentes a mostra, salivando, prontas pra me devorar.

Eu devia estar a pouco mais de cem metros de altura no momento em que a vela fechou e comecei a despencar como aquela maçã que caiu na cabeça de Isaac Newton. Quando, de olhos espremidos e com todos os músculos tensionados, estava pronto para libertar meu espírito do corpo espatifado, milagrosamente a mão de um anjo puxou a ponta da vela pra fora do emaranhado de linhas. Senti inesperada e redentora pressão no corpo e, ao invés de cair como uma pedra, fui lançado à frente, atravessando algumas copas de árvores, rompendo galhos, rasgando a pele, comendo folhas, até encontrar de frente o suave tronco de uma palmeira.

Os segundo que se seguiram foram inundados de profunda paz, até que a pele, os nervos e especialmente o joelho, que foi a primeira parte do corpo a encontrar-se com o tronco da palmeira, começaram a gritar.

Era perto do meio-dia. Meus pais em uma casa e meus sogros e minha noiva em outra, com o almoço quase pronto, observavam de longe a dança dos parapentes no céu, quando um deles, estranhamente, desapareceu. O almoço, definitivamente, iria atrasar.

Esperei cerca de meia hora até que o corpo tivesse novamente condições de responder às ordens do cérebro sem vibrar como uma taquara verde. A vela havia enroscado na copa das árvores e eu estava pendente, há 3 metros do chão. Imaginei absolutamente improvável que me encontrassem ali. Apesar da dor, cri que a melhor saída seria tentar chegar à praia por conta própria. Caminhei por 6 horas, chegando bem próximo do desespero quando a noite caía. Tive que atravessar imensas ilhas de ‘capim navalha’. Estava tão cortado que lembraria de longe a figura do Cristo do Mel Gibson. O sangue coagulado na pele, misturado com mato, poeira, lama e suor, me dava o aspecto de algum personagem de filme de terror trash.

Quando eu já não suportava mais o cansaço e os últimos lampejos de claridade eram vencidos pela noite, dei de cara com uma enorme pedra cercada de bromélias espinhentas bloqueando completamente o caminho. Teria que fazer uma grande volta para desviar essa parede de rocha e espinhos. Procurei, completamente desanimado, por alguma outra alternativa, e percebi um pequeno buraco na base da rocha. Olhando de perto, pude ver um fiapo de claridade do outro lado, alguns metros abaixo de onde eu estava. Sem forças para refletir, me joguei buraco adentro e deslizei até a luz do outro lado. Parei numa espécie de gruta e já pensava seriamente em só levantar dali no dia seguinte quando, com o canto do olho, encontrei a salvação.

Uma boa dose de novo ânimo me encheu de forças. Um cano de captação de água saía debaixo da grande rocha e descia a encosta do morro absolutamente à mostra. Segui o caninho por uns 20 minutos até uma caixa d´água, que dava no quintal de uma casa. Alguns homens que tomavam chimarrão no quintal, jogando conversa fora, me viram descer rolando o barranco e atravessar seu quintal cambaleante. Me acompanharam com os olhos arregalados e ainda me permitiram beber uns goles de água na torneira do jardim. Eu sabia exatamente onde estava agora. Há 200 metros dali estava meu carro, e a chave permanecia heroicamente no bolso da bermuda.

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O sol já havia desaparecido no poente, e o denso azul petróleo subia do mar começando a descortinar as primeiras estrelas. Desci do carro e caminhei pela praia até a pousada onde meus pais estavam hospedados. Passava das 19 horas. Vi meu pai em pé, com a água do mar lambendo seus pés e o olhar perdido no horizonte. Meu sobrinho estava em seu colo. Cheguei mancando mansamente até ele e toquei suas costas, sem dizer uma palavra. Estava cansado demais para falar. Meu pobre, sensível e pessimista pai, que a essas alturas já imaginava como seria a vida dali para frente sem o filho caçula, não resistiu àquela estranha visão. O corpo disforme, sujo, ensangüentado e descabelado, na penumbra do poente, deve ter-lhe parecido com alguma aparição bizarra. Despencou no chão levando junto meu sobrinho. Mas no instante seguinte já estava em pé, me deixando na praia com a criança enquanto corria para avisar os outros sobre a novidade.

Em seguida tomei o mais dolorido banho de mar da minha vida, e um terrível banho de água oxigenada para purificar.

No dia seguinte, com as calças e meias grudando nas feridas das pernas e pés, ainda fui com meu parceiro fiel buscar os restos mortais do parapente.

Nunca mais voei de sandálias.

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Incríveis histórias medíocres de montanha – a série
1. Apresentação
2. O menino de asas
3. Queda livre

terça-feira, 27 de maio de 2008

O menino de asas

Incríveis histórias medíocres de montanha - a série
(reedição de postagem antiga)

2.
Saímos cedo em direção à serra. Na moto ia o piloto com uma mochila de ataque na frente e eu, o carona, com uma cargueira abarrotada nas costas. Além de todo o equipamento de escalada, levávamos conosco dois parapentes e a ansiedade de poder subir uma montanha, alcançar o cume por uma parede de granito e descer lançando o corpo no abismo, contrariando a intolerante gravidade, voando feito um urubú. O parapente não pesa muito mas ocupa um volume desgraçado. O excesso de bagagens tornava difícil a condução da moto. Em cada curva fechada a buzina era acionada involuntariamente. Mas chegamos na base da montanha à salvo. O peso foi distribuído da melhor forma possível nas duas mochilas e iniciamos a caminhada até a parede escolhida.

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Lembro claramente a primeira vez que estivemos lá. Não conhecíamos nada sobre trilhas, montanhas, escaladas, vôos, serras e coisas afins. Havíamos feito um rapel aqui e ali, em barrancos e pedreiras, e imaginávamos como seria subir uma montanha de verdade. A única informação que tínhamos era onde pegar o ônibus e onde descer. A caminhada, dali pra frente, seria repleta do mais profundo mistério.

O tempo estava fechado e a densa neblina havia nos roubado toda a serra. Tudo que se via a partir de uns 20 metros à frente do nariz, era um lençol cinza e úmido do tamanho do mundo. Tomamos o cuidado de seguir, a uma distância segura, um grupo com mochilas e roupas de gente que parecia saber o que estava fazendo. Eles certamente tinham o mesmo destino que nós. Bastaria segui-los, mas os miseráveis andavam rápido demais e perdemos contato antes mesmo da primeira bica d´água. De qualquer forma, depois de muito sofrimento, sabe-se lá como, alcançamos o afamado cume.

Não vimos nada no trajeto todo. Nem uma minúscula e rápida janela se abriu. O lençol cinza permaneceu inclemente ao nosso redor e a umidade deixou-nos molhados e gelados. Mesmo assim, de forma absolutamente inexplicável, amamos aquele lugar. O cheiro, o vento, o frio, o cansaço, as pedras, paredes e mato. Todos os detalhes de tudo que conseguimos ver e tocar nos cativou para sempre. Voltamos lá mais de uma centena de vezes. E em muitas outras montanhas, vales e serras por aí.

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Espalhamos toda parafernália na base da parede - cadeirinhas, corda, costuras, paradas, freios e tudo mais. O clipe dos mosquetões rompia o silêncio enquanto a umidade da respiração condensava a cada expirar. A rocha lançava-se espetacularmente em direção ao céu. Avançamos lenta e delicadamente pela parede. O som das ferragens balançando, penduradas ao corpo sustentado apenas pela ponta dos dedos, e a brisa suave vinda do mais distante horizonte, tornavam o ambiente indescritivelmente assombroso. Nesses lugares, os sentimentos podem saltar em um segundo do mais puro êxtase ao mais angustiante horror. Levamos bem mais tempo do que o planejado para alcançar as rampas de pedra que dão acesso ao cume, por conta do volume de coisas que trazíamos.

Lá no alto, novamente apoiados em chão de verdade, começa mais uma vez o complexo ritual de manuseio dos equipamentos. Cordas e ferros deram lugar a uma ampla vela de nylon que haveria de nos servir de asa dentro de poucos minutos. O vento batia de frente no rosto, e o campo onde pousariamos estava trezentos metros abaixo de nós e talvez cerca de 2km à frente.

Passamos ainda alguns minutos contemplando a paisagem e ouvindo o vento enquanto saboreamos um pãozinho com queijo e algumas frutas. De onde estávamos, podiamos observar serras, cidades, rodovias, represas e a curvatura da terra na linha do horizonte.

Bastou um puxão firme nos tirantes que nos prendiam à vela. O próprio vento se incumbiu de inflar o tecido e trazê-lo sobre nossas cabeças. Três ou quatro passos à frente na direção do abismo que acabáramos de escalar foram suficientes. Nossos pés foram arrancados do chão e fomos conduzidos aos céus. As linhas cortavam o vento que assobiava seco e agudo. Os urubus passavam ao lado observando curiosos. A trilha, o mato e a moto tornaram-se grãos de areia. Todos pesando toneladas. Todos com raízes profundas. Correntes e bolas de ferro os prendem ao solo. Mas não nós. Não naquele dia. Não naquele instante. Rompemos os grilhões, as cadeias. No tornamos leves como pluma e, inacreditavelmente, ganhamos asas.

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Texto originalmente publicado no site A Montanha, do Vinícius.

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Incríveis histórias medíocres de montanha – a série
1. Apresentação
2. O menino de asas

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Incríveis histórias medíocres de montanha - a série

APRESENTAÇÃO


Temos uma queda pelo grandioso. Sonhamos alto, buscamos a glória. Nossos heróis são gente de feitos homéricos (ainda que nem saibamos quem foi Homero). Ansiamos por alcançar os grandes cumes, subjugar as grandes paredes, estraçalhar as altas graduações, galgar as mais assustadoras travessias, transpor as gretas mais profundas.

Mas a dura realidade é que a imensa maioria de nós jamais fez nem fará nada de extraordinário. Gastamos nossos finais de semana e nosso dinheiro em aventuras medíocres. Vemos filmes, clipes e documentários, lemos livros, revistas e blogues, ouvimos e (a glória) damos palestras, sempre sedentos pelas grandes aventuras que jamais teremos.

Essa “tag” é dedicada à todos aqueles que, como eu, sonham em voar alto, mal tiram os pés do chão, mas sentem-se realizados. Sim! Conseguimos enxergar, ainda que com certa dor de cotovelo, a beleza do medíocre. Existe aventura e emoção intensa no ordinário. Aqui mesmo, nos barrancos do quintal da minha casa, senti os mesmo horrores e a mesma glória que Messner, Gulich, Tartari e Niclevicz. Alguém precisa saber disso.

As postagens que darão continuidade a essa série narram as mais inacreditáveis aventuras que um zero à esquerda foi capaz de enfrentar. Todas elas baseadas em fatos reais, possivelmente alterados pela ação do tempo.


Acompanhe:

Incríveis histórias medíocres de montanha – a série
1. Apresentação

PS: As postagens desta série serão esporádicas de forma que, se alguma pobre alma quiser acompanhar os textos, precisará visitar esse maldito blog de vez em quando. Há também a opção de assinar a RSS do blog e acompanhar todas as postagens. Se quer fazer isso, mas não sabe como, procure no Google. Ele tem absolutamente todas as respostas.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Travessia montana

Araçatuba x Crista

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Conseguimos uma carona com meu cunhado. Partimos de madrugada em direção ao povoado de Matulão, em Tijucas do Sul. Subiríamos a montanha conhecida como Araçatuba e de lá caminharíamos por 5 dias entre os cumes da serra do Quiriri, até o Monte Crista, em Joinville. Os amigos Fabrício, Rogério e eu. Era agosto e o frio do inverno ainda dominava. O desejo de percorrer aqueles cumes nascera muitos anos antes. Mas somente no ano anterior é que ele passou a estar à caminho da realização, quando o colega Giancarlo ‘Cover’ realizou a façanha com um amigo.

No início de 2006 tive acesso às cartas topográficas e fotos do Cover. A partir daquele momento o trajeto passou a ser efetivamente planejado. A melhor opção é sempre o inverno. Dois companheiros empolgaram-se com a idéia. Concordamos quanto ao trajeto e data da travessia.

A carona do Ricardo foi providencial. Iniciamos a caminhada às 8h30 da manhã. Caminhávamos lentamente, sentindo o peso da mochila, com mantimentos para 5 dias. Chegamos ao cume do Araçatuba às 11h30. O horizonte estava perfeito. Podíamos ver nosso destino dali a 2 dias. Seguimos em direção ao Baleia, sabendo que entre nós havia um vale profundo.

A maior parte do trajeto dessa travessia acontece em belos campos de altitude, com um visual imenso, horizonte distante e passos rápidos. Cruzaríamos apenas alguns trechos de vegetação densa, nos vales mais profundos entre um cume e outro. O sobe e desce, no entanto, seria certamente extenuante.

Na passada entre Araçatuba e Baleia chegamos à nossa primeira fonte de água. Tocamos ainda até o Moréia, onde passamos a primeira noite. A barraca foi armada no cume. Um belo jantar quente e um maravilhoso por do sol sob denso mar de nuvens foram nossa canção de ninar.

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O destino do segundo dia era a base do Imbira, logo depois do campo de pinus. Saímos a passos largos, movidos pela empolgação do céu azul, do ar puro e da bela paisagem. Trotamos rapidamente das 8 da manhã às 2 da tarde, com algumas rápidas paradas pra água e uma e outra barra de cereal. Passamos por um belo rio no vale abaixo do Moréia. O tempo extremamente seco facilitou a passagem pelo leito do rio. O volume de água era mínimo. Paramos, às 14h, em frente a um taquaral assustador. Sabíamos, por indicação do Cover, que deveríamos derivar para o oeste, antes de enfrentar as taquaras. A difícil decisão era – quanto mais a oeste?

Próximo das 14h entramos no famigerado taquaral. Lutamos bravamente contra as folhas afiadas que rasgavam nossa pele por intemináveis 5 horas - muito, mas muito mais do que esperávamos. Sabíamos que nossa libertação estava debaixo das copas de pinus, onde não há vegetação nenhuma, no fundo do vale. No auge da nossa batalha contra as pegajosas, cortantes e invencíveis taquaras, em nosso delírio libertário, víamos copas de pinus para todos os lados. Pura ilusão. A noite caiu sobre nós impiedosamente e nos obrigou a render-nos aos inimigos. Fomos agraciados ainda com um pequeno leito de rio, que nos possibilitou reabastecer os cantis e comer algo quente. Deitamos por ali mesmo, em meio às taquaras malditas, e dormimos profundamente.

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Estávamos atrasados. Mais meia hora de luta contra os bambus e chegamos aos nunca antes tão bem-vistos pinus. É uma região de plantio de árvores da ‘Confloresta’. Durante 4 horas caminhamos por estradas abertas por tratores e caminhões para extração de madeira. É a parte mais feia da travaessia. Presença humana é sempre sinal de destruição. Chegamos na base do Imbira (onde planejávamos ter dormido a noite anterior) perto do meio-dia. Dali víamos perfeitamente o caminho que fizemos pelo taquaral. Um trecho mínimo que, não fosse por aquela vegetação cruel, poderíamos transpor em meia hora.

Traçamos um objetivo corajoso. Avançaríamos incansavelmente até o campo depois do ‘marco da divisa’. Teríamos que passar a noite lá, para compensar o atraso do dia anterior. Daqui pra frente teríamos somente campo de altitude pelo caminho.

Um longo trecho de descida nos levou a um revigorante leito de rio. Cantis cheios, cara lavada, e caminhamos a passos largos, já completamente fatigados, em direção ao marco da divisa. Nossa rota não passa exatamente pelo marco. Deixamos as mochilas no caminho e corremos até a divisa para algumas fotos. A essa altura, caminhar sem mochila é quase como voar. Que delícia. Novamente de mochila nas costas, retomamos o rumo com destino aos campos onde planejamos pernoitar.

Chegamos lá sob a luz da lua cheia, às 19h30. Barraca, jantar, e boa-noite. O Fabrício e o Rogério resolveram dormir ao relento. Eu, por conta da sinusite que estava combatendo à base do antibiótico, achei mais prudente entrar na barraca.

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O quarto dia seria longo. Teríamos que dormir o mais próximo possível do Crista, para não perdermos o ônibus na BR no quinto dia. Conseguíamos visualizar o Morro da Antena, por onde passaríamos. Seguimos naquela direção. O vento fortíssimo fazia com que o capim parecesse com o mar agitado. Víamos as ondas nos contrafortes dos morros ao redor.

Chegamos ao Antena às 10h. De lá avistávamos, bem abaixo de nós, a ‘Fazenda Quiriri’. Passamos ao lado da sede e subimos mais uma pequena serra. Acompanhamos toda ela pela sua crista, rumo ao leste, até descermos por uma crista transversal ao sul. De um pequeno cume, avistamos finalmente nosso destino final – o Crista.

Empolgado por aquela visão do paraíso, descambamos em direção à Pedra do Urubú, no que seria a última grande subida antes da longa rampa que dá acesso ao Crista. No Urubu, com o Crista quase me chamando pelo nome, fui tomado por uma sensação de êxtase. Durante longos minutos, leve como uma pena por ter abandonado a mochila, louvei a Deus pela beleza da sua criação. Obra divina, sem sobra de dúvida, tudo aquilo.

Novamente com os pés no chão e a mochila nas costas, descemos a deliciosa rampa em 4 horas. Às 19h estamos estarrados no chão plano e aconchegante do crista, logo abaixo do seu imponente ponto culminante.

A empolgação do momento ainda deu gás para um ataque ao cume. À luz de lanternas caminhamos para lá eu e o Fabrício, enquanto o Rogério preparou nosso último jantar. Não conhecíamos a trilha e chegamos apenas a um ante-cume. Mas valeu a pena. A visão das luzes da cidade de Joinville sob a lua cheia era maravilhosa.

A noite estava tão perfeita que a barraca nem saiu da mochila. Sopão delicioso e uma derradeira noite sob o céu estrelado. No dia seguinte estaríamos de volta à civilização.

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O nascer do sol foi quase inacreditável. Passamos alguns belos momentos da mais pura contemplação, boquiabertos com a beleza do momento. Depois, tratamos de ‘rolar morro abaixo’. A descida do Crista é interminável. Passamos por uma bifurcação perto da base e seguimos o caminho que o instinto indicou. Por vários momentos tivemos a sensação de estarmos no caminho errado. Paramos algumas vezes para conversar sobre a possibilidade de voltar. Mas tocamos em frente, graças a Deus.

Às 11h saímos da densa floresta atlântica que nos encobriu por toda a manhã e nos deparamos com o belo rio que passa no sopé do Crista. Um belo banho e um rápido lanche e estávamos prontos pra encarar a BR.

Mais 4Km de estrada de chão e pronto. Às 12h40 pegamos o ônibus para Joinville, e de lá para Blumenau.

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O trajeto é espetacular. As paisagens são de tirar o fôlego. Com horizonte bem claro se pode ver todo o litoral do Paraná e boa parte do litoral norte de Santa Catarina. As baías de, Paranaguá, Guaratuba e Babitonga destacam-se ao leste. Forçando os olhos, você consegue perceber a ilha do Cardoso, no sul de São Paulo. A beleza dos campos de altitude não fica para trás. E, evidentemente, a companhia de bons parceiros como o Fabrício e o Rogério fazem todo sofrimento valer a pena.

Todas as fotos da travessia, bem como localização, distâncias e demais informações técnicas estão aqui.