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quinta-feira, 13 de março de 2014

A parte maior e melhor

"Eu sei de muito pouco. Mas tenho a meu favor tudo o que não sei e – por ser um campo virgem – está livre de preconceitos. Tudo o que não sei é a minha parte maior e melhor: é minha largueza. É com ela que eu compreenderia tudo. Tudo o que eu não sei é que constitui a minha verdade."
 
Clarice Lispector

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Mensagem à poesia

Para Léo, Gito, Tony, para toda rapaziada do Caminho Nações e todos aqueles
"a quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante"


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De Vinícius de Moraes
Rio de Janeiro , 1954



Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.
Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas,
E há legiões delas carpindo a saudade de seus homens;

Contem-lhe que há um vácuo nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema;

Contem-lhe que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares,
E é preciso reconquistar a vida.
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado — não a magoem... — que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes,
Que meus ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem deixar intimidar,
Que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora;
Digam-lhe, no entanto que sofro muito,
Mas não posso mostrar meu sofrimento aos homens perplexos;
Digam-lhe que me foi dada a terrível participação,
E que possivelmente deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.

Se ela não compreender, oh! procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu;
Mas digam-lhe que, no fundo, tudo o que estou dando é dela,
E que me dói ter de despojá-la assim, neste poema;
Que por outro lado não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado há fome e mentira;
E um pranto de criança sozinha numa estrada junto a um cadáver de mãe;

Digam-lhe que há um náufrago no meio do oceano,
Um tirano no poder, um homem arrependido;
Digam-lhe que há uma casa vazia com um relógio batendo horas;

Digam-lhe que há um grande aumento de abismos na terra,

Há súplicas, há vociferações, há fantasmas que me visitam de noite
e que me cumpre receber,
Contem a ela da minha certeza no amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre;
Por isso, peçam-lhe que tenha paciência,
Que não me chame agora com a sua voz de sombra;
Que não me faça sentir covarde de ter de abandoná-la neste instante

Em sua imensurável solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.
Mas não a traí.
Em meu coração vive a sua imagem pertencida,
E nada direi que possa envergonhá-la.
A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim.
Vivo do desejo de revê-la
Num mundo em paz.
Minha paixão de homem resta comigo;
Minha solidão resta comigo;
Minha loucura resta comigo.
Talvez eu deva morrer sem vê-la mais,
Sem sentir mais o gosto de suas lágrimas,
Olhá-la correr livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia.
Digam-lhe que é esse o meu martírio;

Que às vezes pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade
E as poderosas forças da tragédia abastecem-se sobre mim,
E me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação estática
Num amor cheio de renúncia.
Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Poesia e Hollywood

E eis que, descendo do carro junto dum templo, ouvimos uma voz que nos anuncia que este é o monte em que Jesus pregou o sermão das beatitudes. E isso nos alegra e comove, embora a voz não venha de nenhum anjo do Senhor, mas do Dr. Alexandre Dothan, nosso companheiro de jornada. Minha mulher me aperta a mão. Vejo em sua face que está comovida como eu, só que seu sentimento deve ser de caráter religioso, ao passo que o meu é, digamos, de natureza poética. Ou estarei apenas jogando com palavras? Não será a religião uma forma de poesia e a poesia, bem no fundo, uma espécie de religião?

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Saímos a andar pelas ruas da cidade, à sombra de suas belas arcadas multicentenárias. Afirma-se que a atmosfera mediaval da velha Acre foi preservada. Eu não me admiraria se agora parasse toda uma caravana com seu chefe, criados e camelos à frente deste edifício que outrora foi um caravançará, e cujas abóbadas góticas parecem contar-nos estórias, como se guardassem ainda o eco das vozes de xeques, mercadores, bandidos e beduínos. [...]

Um menino árabe aproxima-se de nós e nos diz em sua língua algo que Dothan imediatamente traduz. O moleque nos quer mostrar a casa onde os americanos filmaram cenas para o filme Exodus. Verifico mais tarde, decepcionado, que esta cidade, tão empapada de história antiga e legítima, parece orgulhar-se de ter fornecido parte do cenário natural duma película de Hollywood.


Érico Veríssimo,
no seu livro Israel em abril.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Linhas horizontais


Eu já vi Fuji, a mais delicada de todas as montanhas, e também Kinchinjunga; só Michelangelo poderia ter concebido tanta grandiosidade. Mas, por favor, quero o Erebus como amigo. Quem quer que tenha feito o Erebus conhecia todo o charme das linhas horizontais, e as linhas do Erebus são, na sua maior parte, mais horizontais do que verticais. E assim, ele é a montanha mais serena do mundo; fiquei contente em saber que a cabana ficaria no seu sopé. E sempre flutuava de sua cratera o pendão preguiçoso de sua nuvem de vapor.

Apsley Cherry-Garrard,
ao visitar pela primeira vez a montanha que
o acompanharia de perto na "Pior Viagem do Mundo".

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Anjos


Frequentemente, e cada vez mais, lembro do Rubem Braga e a conversa que teve com a menina no avião, que queria saber se havia anjos no céu:

"- Tem anjo sim. Mas tem muito pouco. Até agora  desde que saímos só vi um, e assim mesmo de longe. Hoje em dia há poucos anjos no céu. Parece que se assustam com os aviões. Nessas nuvem maiores nunca se encontra nenhum. Você deve procurar mas nuvenzinhas pequenas, que ficam separadas umas das outras; é nelas que os anjos gostam de brincar. Eles voam de uma para outra.

A menina quis saber de que cor eram as asas dos anjos, e de que tamanho eles eram. O homem explicou que os anjos tinham asas da mesma cor que aquele vestidinho da menina; e eram do seu tamanho. Ela começou a duvidar novamente, mas chamamos o comisário de bordo. Ele confirmou a existência dos anjos com a autoridade de seu ofício; era impossível duvidar da palavra do comissário de bordo, que usa uniforme e voa todo dia para um lado e outro, e além disso ele tinha um argumento impressionante: "Então você não sabia que tem anjos no céu?" E perguntou se ela tinha vontade de ser anjo.

- Não.

- Que é que você quer ser?

- Aeromoça.

E começou a nos servir biscoitos; dois passageiros que estavam cochilando acordaram assustados porque ela apertou o botão que faz descer as poltronas; mas depois riram e aceitaram os biscoitos.

- A Baía de Guanabara!

Começamos a descer. E quando o avião tocava o solo, naquele instante de leve tensão nervosa, ela se libertou do cinto e gritou alegremente: - Agora tudo vai explodir! - E disse que queria sair primeiro porque estava com muita pressa, para ver as horas na torre do edifício ali perto: pois já sabia ver as horas.

Não deviam ter lhe ensinado isso. Ela já sabe tanta coisa! As horas se juntam, fazem os dias, fazem os anos, e tudo vai passando, e os anjos depois não existem mais, nem no céu, nem na terra."



Rubem Braga, agosto de 1953
50 Crônicas Escolhidas

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Princípio básico

Parece necessário restabelecer o princípio básico de que ninguém pode ajudar alguém sem ficar envolvido, sem mergulhar com todo seu eu na dolorosa situação, sem correr o risco de ser prejudicado, ferido ou mesmo destruído no processo. [...] Quem pode salvar uma criança de uma casa em chamas sem correr o risco de se queimar? Quem pode acabar com o sofrimento sem nele penetrar?

A grande ilusão da liderança é acreditar que o homem possa ser conduzido para fora do deserto por alguém que nunca esteve lá.
Henry Nouwen,
no seu "Sofrimento que cura"

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Reconsiderar a riqueza

Na maioria das questões que estiveram no centro dos debates públicos nestes últimos meses, da vaca louca ao Erika, do amianto aos acidentes de trânsito, das conseqüências da grande tempestade ocorrida em dezembro de 1999 à crise dos combustíveis do outono de 2000, há sempre um elemento comum que curiosamente esquecemos de lembrar: essas catástrofes são verdadeiras bênçãos para nosso produto interno bruto. Esta cifra mágica, cuja progressão se expressa por uma palavra, que resume por si só a grande ambição de nossas sociedades materialmente desenvolvidas e etnicamente subdesenvolvidas: o crescimento! (…)

Supondo que no próximo ano não tivéssemos nenhum acidente material ou corporal, nem mortos e feridos nas estradas francesas nosso PIB diminuiria de maneira significativa e a França perderia uma ou várias posições na classificação das potências econômicas e veríamos muitos economistas nos anunciando com um tom de voz grave que a crise estava de volta. (…)

Ao mesmo tempo, todas as atividades voluntárias que graças, em particular, às associações criadas de acordo com a lei de 1901, cujo centenário estamos prestes a festejar, permitiram evitar ou limitar uma parte dos efeitos dessas catástrofes, por exemplo, indo limpar as praias poluídas ou ajudando gratuitamente aos deficientes, não acarretaram nenhuma progressão de riqueza e até contribuíram para fazer baixar o produto interno bruto, já que essas associações desenvolvem atividades voluntárias e não atividades remuneradas. (…)

Devemos examinar esses nossos curiosos termômetros quanto mais as suas graduações, as unidades monetárias, vão mudando cotidianamente. De fato, se sabe que a primeira função da moeda é a de ser uma unidade: quando se quis superar o intercâmbio sob forma de troca para poder comercializar os bens mais facilmente, entendeu-se ser útil adotar uma unidade contábil única no seio de uma coletividade registrando-se todos os valores nessa unidade. (…) Mas, justamente, imagine-se a confusão que introduziria uma ‘bolsa dos quilos e dos metros’ mudando de valor todos os dias! (…)

É próprio dos sistemas de dominação apresentar como evidências o que depende de construções e de escolhas. Acaba-se apresentando como uma lei natural o fato de que são as empresas que produzem a riqueza, enquanto os serviços públicos e sociais subtraem-na; que atividades reconhecidamente destrutivas, dão direito a ganhar dinheiro, enquanto que outras, vitais para a coletividade humana - como dar a vida, educar, preservar o meio ambiente - não o permitem; que alguns possam dispor de quantidades consideráveis de moedas, sem que isso tenha relação com seu esforço ou mérito, enquanto outros se encontram, no meio da abundância, em situações de miséria ou de grande pobreza. (…)


Trecho do relatório produzido em 2001 por Patrick Viveret e resultou no livro Reconsiderar a Riqueza que, segundo Allysson Amorim, 'é aquela espécie de livro cuja leitura deveria ser obrigatória'.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Revolução dos Loucos

Uma suave revolução acontecerá pela humilde organização dos cristãos loucos que estão dispostos a subverter a ordem estabelecida ao reorganizar sua vida em torno da mente de Cristo.

Sua questão é a transparência por meio da veracidade, e seu estilo de vida será moldado pleo Evangelho de Jesus Cristo.

Os loucos por Cristo são violentos, como o Evangelho ordena que sejam (Mt 11.12), mas a violência se aplica a eles próprios(Gl 5.24). Sua bondade é o belo fruto da reverência a Deus, da compaixão pelo mundo e pelo respeito a si mesmos. Suas prioridade são pessoais, determinadas não pela religião popular do momento, por políticas de poder ou pela cultura de consumo, mas pelo Sermão do Monte e pelo mistério Pascal.

Para o louco, Jesus Cristo não é um sábio ou um admirável reformador; é o segundo Adão, autor de uma nova criação. “Estou fazendo novas todas as coisas!”(Ap 21.5). Jesus redirecionou a realidade e deu-lhe a orientação revolucionária. Jesus não arrumou o mundo, ele o levou a uma freada barulhenta. O que ele refez a partir de materiais humanos da velha ordem não foram pessoas mais agradáveis, com moralidades melhores, mas coisas novas.

As categorias de tais revolucionários, transcendem todas as distinções classistas. Homem versus mulher, clérigo versus leigo, progressista versus conservador, carismático versus tradicional, moderno versus pós-moderno – todos estão dissolvidos no amor unificador do Espírito (Gl 3.28). As únicas exigências para ser membro é a consciência empírica de Jesus como Senhor Redentor e de Deus como Aba, a rendição incondicional ao domínio do Espírito Santo e o comprometimento constante com a missão de construir um novo céu e uma nova terra.

O sentido da missão entre os loucos causará destruição na vizinhança. Medos serão despertados e rumores circularão de que tais pessoas estão ficando estranhas. Os amigos os aconselharão a se restabelecer e a fazer algo construtivo com suas vidas (como procurar segurança, prazer e poder). Os familiares darão demonstrações ostensivas de suas realizações duvidosas. Estratagemas serão planejados para levá-los a ver e sentir como são de fato: loucos. Catheryne de Hueck Doherty diz: “É como se o mundo precisasse de loucos – loucos por Cristo! Loucos pelo amor de Deus! Pois são tais loucos que mudam a face da terra”.

Conforme será de esperar (João 15.18) estes loucos serão ofendidos. O cristianismo hoje é basicamente inofensivo, um tipo de religião que jamais transformará coisa alguma. Jesus Cristo, o mestre revolucionário transgrediu a ordem religiosa e política da palestina. Os cristãos também são compelidos a transgredir e, se não o fizerem, isto é mau sinal: não estarão sendo revolucionários de fato.

Quando os loucos que buscam viver com a mente de Cristo, perguntam a si mesmos: “Por que existo?”, eles respodem: “Por causa de Jesus Cristo”. Se os anjos se perguntarem, a resposta será a mesma: “Por causa de Jesus Cristo”. Se o universo inteiro de repente pudesse falar, de norte a sul e de leste a oeste, ele clamaria em coro: “Nós existimos por causa de Cristo”.

Brennan Manning (em sua obra Convite à Loucura)
Do site do Caio Fábio.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Deficit moral

Levantei os olhos ao céu, que começava a embruscar-se, mas não foi para vê-lo coberto ou descoberto. Era ao outro céu que eu erguia a minha alma; era ao meu refúgio, ao meu amigo. E então disse de mim para mim: "Prometo rezar mil padre-nossos e mil ave-marias, se José Dias arranjar que eu não vá para o seminário".

A soma era enorme. A razão é que eu andava carregado de promessas não cumpridas. A última foi de duzentos padre-nossos e duzentas ave-marias, se não chovesse em certa tarde de passeio a Santa Teresa. Não choveu, mas eu não rezei as orações. Desde pequenino acostumara-me a pedir ao céu os seus favores, mediante orações que diria, se eles viessem. Disse as primeiras, as outras foram adiadas, e à medida que se amontoavam iam sendo esquecidas. Assim cheguei aos números vinte, trinta, cinqüenta. Entrei nas centenas e agora no milhar. Era um modo de peitar a vontade divina pela quantia das orações; além disso, cada promessa nova era feita e jurada no sentido de pagar a dívida antiga. Mas vão lá matar a preguiça de uma alma que a trazia do berço e não a sentia atenuada pela vida! O céu fazia-me o favor, eu adiava a paga. Afinal perdi-me nas contas.

"Mil, mil", repeti comigo.

Realmente, a matéria do benefício era agora imensa, não menos que a salvação ou o naufrágio da minha existência inteira. Mil, mil, mil. Era preciso uma soma que pagasse os atrasados todos. Deus podia muito bem, irritado com os esquecimentos, negar-se a ouvir-me sem muito dinheiro... Homem grave, é possível que estas agitações de menino te enfadem, se é que não as achas ridículas. Sublimes não eram. Cogitei muito no modo de resgatar a dívida espiritual. Não achava outra espécie em que, mediante a intenção, tudo se cumprisse, fechando a escrituração da minha consciência moral sem deficit. Mandar dizer cem missas, ou subir de joelhos a ladeira da Glória para ouvir uma, ir à Terra Santa, tudo o que as velhas escravas me contavam de promessas célebres, tudo me acudia sem se fixar de vez no espírito. Era muito duro subir uma ladeira de joelhos; devia feri-los por força. A Terra Santa ficava muito longe. As missas eram numerosas, podiam empenhar-me outra vez a alma...

Machado de Assis, no capítulo XX de Dom Casmurro.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Imperdíveis

Pior que a pretensão tola de querer ser como Deus é a religião, em nome de Deus, subestimar a vida humana e insinuar um jeito angelical de viver como um ideal de santidade. Demoniza o que é humano e impõe uma agenda de pretensa divinização da vida. Insinua uma existência sem tensões, medos, dúvidas, aflições. Sem pequenos prazeres. Sem alegrias banais. Sem dança, festa, riso, vinho e amor. O Deus de Eclesiastes, na contramão dessa religião, estimula-nos a reagir às imprecisões da vida com mais humanidade: “Vá, coma com prazer a sua comida e beba o seu vinho de coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz. Esteja sempre vestido com roupas de festa, e unja sempre a sua cabeça com óleo. Desfrute a vida com a mulher a quem você ama [...]" (Ec 9.5-7).

Texto de Elienai Cabral Jr na introdução do mais novo lançamento da Ultimato.


*****

Depois de Salvos da Perfeição, do Elienai Cabral Jr, vem aí o imperdível A Bacia das Almas, do Paulo Brabo. Se por um inexplicável motivo você lê A Trilha e não lê A Bacia, está perdendo tempo. Largue tudo, agora mesmo, e vá para lá. Se sobrar um tempinho volte.

Quando eu compar o livro, vou trocar
a capa original por essa que eu mesmo fiz.
[FOTO]
O autor gostou.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Separação

"[...] a ex­pressão radical para todo o teísmo cristão era esta: que Deus era um criador, como um artista é um criador. Um poeta está tão separado de seu poema que ele mesmo refere-se a ele como uma coisinha que foi "jogada fora". Até mesmo no ato de produzi-lo ele o jogou fora. Esse princípio segundo o qual toda criação, toda procriação é um desprender-se é no mínimo coerente através do cosmos como o princípio evolucionário de que todo crescimento é uma ramificação. Uma mulher perde o filho exatamente quan­do o está dando à luz. Toda criação é separação. O nasci­mento é uma despedida tão solene quanto a morte.

O princípio filosófico básico do cristianismo era que esse divórcio no ato divino de criar (como o que separa o poeta do poema ou a mãe do filho recém-nascido) era a verdadeira descrição do ato com o qual a energia absoluta criou o mundo. Segundo a maioria dos filósofos, Deus ao criar o mundo o escravizou. Segundo o cristianismo, ao criá-lo Deus o libertou. Deus havia escrito não exatamente um poema, mas antes uma peça; uma peça que planejara à perfeição, mas que tfnha necessariamente legado a atores e diretores humanos, que a partir daquele tempo a transfor­maram numa grande confusão."

G. K. Chesterton em "Ortodoxia".

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Salvos da perfeição

Deus de tão perfeito conheceu a plenitude do tédio. De tão cercado pelo idêntico a si mesmo, incapaz de dizer por que hoje não é apenas um reflexo de ontem, sem jamais ter sonhado com um outro dia, enfadado com a previsibilidade de um mundo impecável, inventou o amor. Ou seria, preferiu amar?

A invenção do amor, ou dos amigos, é o encontro com o imperfeito e aqui está a sua grandeza. Nada se compara ao êxtase da imaginação, à adrenalina do inusitado, ao ciúme diante do livre amante, à ardência do anseio pelo melhor, ao sabor fugidio do fugaz, à satisfação de um mundo transformado, ao descanso gostosamente dolorido diante do que não mais é caos. Sensações próprias da vida imperfeita, do que está para sempre para ser, dos que sempre podem desejar uma outra coisa. Dos humanos.

Logo depois de inventar o imperfeito, Deus conheceu a lágrima da frustração. A dor mais feliz que espíritos livres sentem. Viu as costas dos que mais amou. Duvidou sem desistir, o Criador chorou mais uma vez. Desta lágrima descobriu o perdão. Lágrima esquentada com afeto e graça.

Malcompreendido pelos amigos, inimigos tolos, pecado, recobriram-no de ídolo. De tão cansados do incerto, angustiados por tanta liberdade, os amigos inventaram ídolos, pretensos profetas e arrogantes senhores do futuro, sacerdotes e magos de um deus acuado, cristos milagreiros da mesmice ressurreta. Inventaram a religião, vestiram-se de absoluto.

Deus, que do absoluto fugiu em desespero, que inventara o imperfeito, imperfeito se fez. Inventou-se entre os incertos. Aperfeiçoou a imperfeição. Humanizou-se entre humanos. De tão impreciso, despido das forças do absoluto, igualmente inapreensível, excepcionalmente frágil, tão vivo e tão morto, descortinou o absoluto como quem desnuda o que é mau.

Imperfeito, salvou-nos da perfeição.


Texto de Elienai Cabral na abertura
do mais novo lançamento da Ultimato:
Salvos da Perfeição

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Como eu vinha dizendo...

"Para a liberdade foi que Cristo nos libertou". Gálatas 5.1

O homem espiritual nunca impõe a outrem exigências do tipo: Creia nisto ou naquilo; ao contrário, ele o orientará no sentido de que enquadre sua vida nos padrões de Jesus. Não somos chamados a acreditar na bíblia, mas crer naquele que a bíblia revela. Somos chamados para pregar liberdade de consciência, não liberalidade de opinião. Se temos a liberdade de Cristo, levaremos outros a conhecer essa mesma liberdade - a liberdade de experimentar o domínio de Jesus Cristo.

Avalie sempre sua vida pelos padrões de Jesus. Curve a serviz somente ao jugo dele, e a nenhum outro, seja lá qual for; e tenha cuidado de jamais colocar sobre outros um jugo que o próprio Jesus não tenha colocado. É preciso muito tempo para Deus nos tirar a mania de pensar que, a menos que todos pensem como nós, estão todos errados. Essa nunca é a posição de Deus. Existe apenas uma liberdade atuando em nossa consciência, capacitando-nos a fazer o que é certo: a liberdade de Jesus.

Não se impaciente; lembre-se de como Deus o tratou - com paciência e com gentileza; nunca, porém, dilua a verdade de Deus. Deixe-a agir e nunca peça desculpas por ela. Jesus disse: Ide fazei discipulos, não: fazei adeptos das vossas próprias opiniões.


Escrito por Oswald Chambers em algum dia entre 1911 e 1917.
E tem gente que acha que é uma grande e perigosa novidade pós-moderna.
Dica da Paula Peres.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Vacas sagradas

"Desde que o rio cavou seu leito, é muito difícil mudar seu curso."

"A satisfação é o maior inimigo da transformação."

"Vacas sagradas obstruem o caminho do cordeiro."


Wolfgang Simson,
em "Casas que transformam o mundo"

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Deus me disse

Um tempo atrás escrevi aqui mesmo sobre minhas sérias dificuldade acerca daquilo à que os cristãos costumam referir-se como "chamado". É fácil encontrar alguém que se sente chamado para isso, aquilo ou aquilo outro. Só está apto para determinadas funções o cristão que sente essa convocação específica e irrevogável.
Mas, se Deus um dia lançou um facho de luz sobre mim, ou sussurrou no meu ouvido, iluminando o caminho, revelando o próximo passo, eu jamais vi, jamais ouvi. Tudo que tenho são pensamentos, desejos, intenções, sensações. Sempre com uma ponta de dúvida, de receio. [Acerca do Chamado]
Depois de escrever, senti-me sozinho no mundo. Soltei o pensamento e ele voou para longe, me abandonando impiedosamente. Até que uns dias atrás voltou, com um ramo de oliveira no bico. O ramo foi extraído do assombroso livro "Feito de modo especial e admirável", de Paul Brand e Philip Yancey. Uma fantástica metáfora do corpo humano, repleta de curiosidades incríveis e aplicações precisas. Obrigado Paul.
Com muita freqüência, encontro cristãos que tendem a exibir a sua espiritualidade como uma aura do mundo sobrenatural. Segundo alguns, o cristão mais espiritual é alguém que afirma confiante: “Deus me disse que está na hora de eu comprar uma roupa nova” (...)

“Deus me disse” pode tornar-se uma maneira comum de falar.

Na verdade, eu acredito que a maior parte do que Deus tinha para me dizer já está escrito na Bíblia e cabe a mim estudar com diligência a sua vontade ali revelada. (...) Os universitários angustiam-se querendo saber que decisões tomar para o futuro,
esperando que Deus os alerte com um estonteante plano feito sob medida e
entregue pronto no endereço deles.

(...) O corpo de um atleta sabe o que a mente quer e está equipado e treinado para conseguir o que ele deseja. Da mesma forma, o cristão individual empregaria melhor o seu tempo aperfeiçoando a obediência prática diária àquilo que Deus já revelou, em vez de empreender ardentes buscas de algum segredo mágico e evasivo como o Santo Graal.


Paul Brand e Philip Yancey
Feito de modo especial e adminável

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Impulsos elétricos



[Você pode se perguntar:] Como posso saber se a idéia de Deus não é simplesmente uma série de impulsos elétricos presentes no meu cérebro? Responda-me agora: Como posso saber se esses impulsos elétricos não são o recurso escolhido por Deus para comunicar-me uma realidade espiritual que de outro modo eu não poderia conhecer?


Paul Brand e Philip Yancey
Feito de modo especial e adminável.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Também sobrevivi [3]

Gandhi, Everett Koop, John Done, Annie Dillard, Frederick Buechner, Shuzaku Endo e Henri Nouwen


A manifestação dos ensinamentos de Cristo nunca se fez tão intensa quanto na vida de Gandhi. Sua capacidade de encarnar o evangelho até as raízes da sua alma, e também na carne, dão um nó na cabeça de um piedoso cristão fundamentalista. Gandhi joga na cara da igreja cristã a intensidade da capacidade de transformação que o Evangelho tem, quando vivido intensamente, em uma sociedade. Se ser discípulo de Jesus é seguir os seus passos, dificilmente encontraremos em nossas igrejas um discípulo mais fiel que “a grande alma”. Gandhi vira todos os fundamentos do mundo ocidental contemporâneo de pernas pro ar. Curiosamente os fundamentos do capital, da produção, da performance do mundo moderno tem origens teológicas, nascidas no seio da reforma protestante e não por coincidência manifestados nas suas formas mais grotescas na maior nação protestante do planeta.



Everett Koop mostra um ideal de envolvimento do cristão na política e poderia ser usado como modelo a todo ‘bispo’ evangélico que se lança na vida pública no Brasil. Sua declaração “sou chefe do departamento de saúde dos heterossexuais e homossexuais, do jovem e do velho, do moral e do imoral” soaria a blasfêmia em nossos círculos religiosos. Mas Koop demonstra a maturidade absolutamente ausente no lastimável envolvimento da igreja brasileira na política.



O encontro terrível com o sofrimento e a morte de John Donne, o convívio doloroso do cristão diante de um Deus que não se manifesta a ponto de reverter a história, mas que se porta como um observador passivo e silencioso do ser humano definhando, é a única forma razoável de oferecer consolo àqueles que realmente sofrem ao nosso redor. A mania evangélica de proferir ‘palavras proféticas’ sempre relacionadas à cura, sucesso e prosperidade é, na verdade, maldição.
“O curador ferido conclui que a graça e a cura são transmitidas por meio da vulnerabilidade de homens e mulheres que foram atropelados pela vida e tiveram o coração rasgado. A serviço do amor, apenas soldados feridos podem se alistar” (Brennan Manning em ‘O impostor que vive em mim’).


A maioria das igrejas que conheço mal aceitaria como irmã na fé uma fumante inveterada como Annie Dillard. Seria julgada por todos o tempo todo. Pode vir algo bom de um fumante (ou de Nazaré)? Mas Yancey vê nela e na sua observação da revelação redentora de Deus na natureza, sopros de graça e amor divino que pode alcançar os doentes e pecadores.



Frederick Buechner tornou-se um cristão fora do ninho, apesar da formação teológica e ordenação pastoral. Alguém que encarou a fé com a franqueza de duvidá-la. Alguém que não encontrou respostas, mas sim esperança. Alguém que acabou distante da igreja institucional pela total irrelevância dela em sua vida, sem, no entanto, tornar-se um ‘desviado’.



Shusaku Endo mostrou a capacidade de abstrair Cristo das categorias formais do pensamento ocidental, até mesmo abrindo mão de conceitos fundamentais da fé, mas que cria que essa era a única forma de o Evangelho fazer sentido ao seu interlocutor. Endo viu também em Cristo a capacidade de perdão que nós retiramos dele em nossa crença repleta de certezas e ênfase em padrões estéticos.



Em meio a um pequeno grupo de doentes mentais, Henri Nouwen encontrou a graça de Deus na fraqueza daqueles que nada têm a oferecer. Lá, e não no ambiente sacrossanto da igreja, entendeu não só tamanho da graça do Pai que recebe de volta o filho perdido, mas também o filho que jamais saiu de casa, sem nunca ter usufruído da presença do pai.

Veja também:
Também sobrevivi [1]
Também sobrevivi [2]

segunda-feira, 7 de abril de 2008

O grande inquisidor



Minha curiosidade pela obra de Dostoievski nasceu da leitura do revolucionário livro de Philip Yancey, “O Jesus que nunca conheci”. Comprei uma antiga edição do “Irmãos Karamazov”em um sebo e fiquei maravilhado com o texto. A saga de Aliócha Karamazov, o mais improvável herói da literatura, é absolutamente cativante.

É, no entanto, o assombroso sonho de seu irmão Ivã que transcrevi aqui no blog tempos atrás. Mas a grandeza do texto pedia uma forma de acesso e leitura facilitada. Por isso montei o texto em um único volume que está agora disponível para baixar.

Seria ridículo tentar alguma forma de interpretação, crítica ou contextualização do texto. Ele fala por si só e é mais contextualizado do que poderíamos imaginar.

Então, clique aqui e desfrute.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Também sobrevivi [2]

Chesterton, Paul Brand, Robert Coles e a dupla Tolstoi, Dostoievski


Com Chesterton (e CS Lewis), Yancey descobre que existe vida inteligente e crítica na igreja (cristãos que desatavam suas mentes ao invés de contê-las). Nele o autor encontrou também a capacidade de usufruir alegremente da vida e perceber Deus nos detalhes simples, ao contrário dos olhares cisudos dos religiosos e suas carências de racionalizar a fé, ou torná-la refém de experiências místicas. Vale a pena conferir a “Ortodoxia” de Chesterton, recém lançada pela Mundo Cristão.


O médico dos leprosos, Paul Brand, mostrou a abnegação necessária ao cristão e sua devoção ao ser humano como práxis da devoção a Deus. Brand também circulava livremente nos ambientes não religiosos, sendo livre dos rótulos que impomos a nós mesmos por nos portarmos de maneira dogmática e litúrgica em nossa vida cristã. O serviço sacrificial de Brand entre gente tão sofrida contrastava com sua alegria e contentamento. A sua forma de encarar a dor como uma bênção divina e demonstrar isso em seus estudos foi libertadora, bem como sua capacidade de ver Deus em cada detalhe do corpo humano. Extremamente marcante foi a forma como foi recebido na índia pelas comunidades carentes onde ele e seu pai trabalharam, em oposição à forma como circulava em um imponente hospital de Londres, demonstrando de forma clara o contraste da “transitoriedade da fama com a perenidade no investimento no serviço aos outros”.


O trabalho de Robert Coles demonstra a beleza e a essencialidade da simplicidade na fé. Sua forma de entrar em contato com pessoas, de olhar a todos como iguais, de transitar como mestre entre os salões lotados das universidades e, simultaneamente, trabalhar como zelador são impressionantes. Mas assombrosa mesmo é a conclusão de que era muito mais fácil encontrar alegria, satisfação e paz na vida de pessoas pobres, sofridas e sem recursos. Coles percebeu na prática que aquele judeu errante que morreu na cruz sabia o que falava quando exaltava os pobres e dizia que o rico teria muito mais dificuldades para encontrar o Reino de Deus. No fim, demonstra que para oferecermos amor cristão, precisamos romper a fortíssima barreira que nos diferencia do “outro” seja ele considerado menor, ou maior.


“Cada pessoa é um mistério separado e finito, não alguma coisa que pode ser
colocada em uma categoria ou outra”.


A busca pela perfeição, a autonegação absoluta em favor da “santidade” de Tolstoi, e a dependência exclusiva da graça de Deus de Dostoievski são o que separa e atrai esses dois russos. “De Tolstoi aprendo a olhar para dentro... [e] percebo quão miseravelmente distante estou dos ideais do Evangelho. Mas a partir de Dostoievski, conheço a extensão total da graça”. Segundo Yancey, a única maneira de resolver a tensão entre os ideais do evangelho e nossa triste realidade é aceitando que “nunca estaremos à altura, mas não temos que estar nesse patamar”.

[continua]

Veja também:
Também sobrevivi [1]

segunda-feira, 24 de março de 2008

Também sobrevivi [1]

Yancey e Luther King

Descobri só recentemente que Phillip Yancey tornou-se um proscrito de uma certa corrente cristã. Inocência minha. Não poderia deixar de ser, diante do que escreve. Quem abre a boca para falar contra o sistema de controle estabelecido não pode merecer nada mais do que a excomunhão. Não foi o que fizeram com os profetas em toda a história de Israel?

Besteira minha comparar Yancey a um profeta também. Não creio que ele mesmo se perceba assim. Profetas estão por aí nos púlpitos dos apóstolos e não escrevendo livros que nos levam à reflexão e contestam o status quo.

Li recentemente o delicioso “Alma Sobrevivente”. Mais do que isso. Li em um contexto acadêmico e, dentro desse contexto, fui obrigado a escrever uma resenha. Está escrita há alguns meses. Talvez interesse à alguém.

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Yancey inicia sua narrativa observando as marcas deixadas pela igreja institucional, sua pregação incoerente, suas certezas dúbias, sua fé pragmática e o verniz espiritual com que os cristãos se pintam para que seus argumentos ganhem força nas falsas aparências. Argumenta também sobre o inegável fato de que enquanto muitos se convertem ao padrão de vida exigido pela ‘igreja’ (seja lá o que isso signifique), outros tantos afastam-se definitivamente de qualquer espiritualidade por terem percebido a tremenda discrepância que existe entre o que se prega e a realidade dos que pregam. Finalmente nos conta como foi profundamente influenciado por vidas que viveram e pregaram um evangelho genuíno, tanto dentro como fora da ‘igreja’, ressaltando que a pregação dos ‘de fora’ teve mais força sobre sua própria vida. Apesar de não termos tido em nosso país um segregacionismo tão evidente quanto o relatado no capítulo sobre Martin Luther King Jr, muitas semelhanças existem entre a posição da igreja dos EUA e a brasileira. Ambas abraçavam o ‘status quo’ e posicionaram-se a favor da permanência da injustiça evidente na sociedade. Dois textos interessantes sobre o protestantismo e a escravidão no Brasil podem ser lidos aqui. Além disso, nossa participação nos tempos de ditadura também foi bastante vergonhosa, com apoio massivo aos desmandos do regime militar, obviamente influenciados pelos nossos colonizadores espirituais oriundos da América do Norte. Muito interessante a análise da vida moral de Luther King, comparando-o com os grandes profetas bíblicos.


Estaríamos certamente em perigo se o mensageiro indigno invalidasse a
mensagem.



A ênfase é dada sobre a dedicação de Luther King em viver, anunciar e implantar um Reino de justiça, paz, amor e igualdade, baseado na mensagem de Cristo e disposto a carregar sua cruz para isso, pagando inclusive com sua vida. Além disso, a coragem e ousadia desse homem são tão motivantes quanto a coragem e ousadia dos heróis bíblicos.


[continua]